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  • terça-feira, 20 de outubro de 2015

    Cristovam Buarque: Impeachmistas e anti-impeachmistas

    Houve um tempo em que o debate político se fazia entre capitalistas, reformistas, socialistas, trabalhistas, comunistas, desenvolvimentistas, hoje ele está limitado a impeachmistas e anti-impeachmistas. Os primeiros acham que a presidente Dilma cometeu crimes que justificam seu impeachment; e que sua saída é uma necessidade para impedir o rumo à ladeira abaixo da economia que seu governo está provocando. Os anti-impeachmistas acham que não houve qualquer irregularidade e, se houvesse, ela faria o mesmo que os presidentes anteriores; além de que, dizem, o Brasil está muito melhor graças aos governos Lula e Dilma.

    O primeiro grupo não diz o que acontecerá se Dilma for substituída por Temer. O segundo não diz o que acontecerá se Dilma continuar mais três anos sem credibilidade, nem competência técnica e política para liderar o país. Os impeachmistas não levam em conta o custo político de quebrar a normalidade pela interrupção do mandato presidencial, mesmo que dentro das regras previstas pela Constituição. Os anti-impeachmistas acham que tudo vai bem no país, que, nunca antes na história do Brasil, se conseguiu fazer tanto pelos pobres e isso justifica tudo: a corrupção da Petrobras e as pedaladas, os erros na condução da política econômica, as manipulações para vencer as eleições, os descumprimentos de promessas de campanha.

    Os primeiros têm razão de que vai ser muito difícil ao País se recuperar sob o governo Dilma e dos partidos cúmplices com os seus erros; os outros têm razão ao dizerem que impeachment não é questão política e, até aqui, não se encontrou nada em suas contas bancárias para criminalizar diretamente a presidente. Presos ao debate que escolheram, não percebem que nem impeachment nem anti-impeachment serão suficientes para enfrentar a crise em que estamos e a decadência que iniciamos.

    Os indicadores da crise são assustadores: recessão, inflação, desemprego, queda de arrecadação, deficits fiscais, desvalorização do real, endividamento e o mais grave é que a presidente Dilma e as equipes econômica e política não demostram competência técnica, nem credibilidade para reverter esse quadro. A presidente parece não querer, não poder ou não saber ser “a Itamar dela própria”, como lhe sugerimos alguns meses atrás. Ao contrário, no lugar de um grande diálogo aberto e franco com todas as forças da nação, preferiu fazer barganhas dentro da desmoralizada base de apoio. Mas é uma ilusão imaginar que o governo pós-impeachment, com a nova-velha equipe do PMDB e do Temer será capaz de conduzir o Brasil no meio das barganhas dentro da mesma base. E com Lula e o PT na oposição.Erram os anti-impeachmistas ou se iludem ou nem se preocupam com o fato de que Temer também não parece interessado nem com liberdade para se fazer o Itamar deste tempo.

    Enquanto o debate for entre impeachmistas e anti-impeachmistas, os primeiros chamando de vendidos os que não defendem o impeachment, e os outros chamando de golpistas os que não se enquadram na defesa dos rumos do governo Dilma, o Brasil mergulhará na crise e caminhará para algo mais grave: decadência, social e econômica. Não mais apenas recessão, mas a queda da posição do Brasil entre os PIBs do mundo; não apenas um PIB com menor posição relativa, mas também um PIB limitado sobretudo aos produtos primários e da metalomecânica, sem o brilhantismo do PIB de alta tecnologia; não é apenas inflação passageira, mas o desequilíbrio estrutural e constitucional das contas públicas, deficitárias, comprometidas quase integralmente com o pagamento de dívidas do passado (juros, aposentadorias e bolsas)  e sem capacidade de investir no futuro — crianças, educação, infraestrutura; não apenas violência urbana, que nos faz campeões em vítimas de homicídios, mas desagregação das relações sociais; a persistência do quadro de pobreza, intocado estruturalmente; não apenas os meses de greves de professores, mas a aceitação da falência educacional para todos. Há ao redor, crise e, adiante, decadência a concentração obsessiva do debate entre impeachment e anti-impeachment sectariamente excluindo os que tentam pensar, acusados de vendidos ou golpistas, o que mostra a decadência da política brasileira.

    (*) Cristovam Buarque - Professor emérito da UnB e senador pelo PDT-DF

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