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  • domingo, 8 de novembro de 2015

    Cristovam Buarque: Brasília sequestrada

    Na semana que passou, Brasília assistiu ao injustificável fato de professores sendo espancados na rua, durante ação da polícia para liberar uma avenida ocupada. Espancar professores é espancar o futuro. São lamentáveis a greve de professores e a interrupção do trânsito, impedindo o ir e vir das pessoas. Mesmo assim, o governo tem que usar o diálogo, nunca a violência. A sensação é de que Brasília está sequestrada pela falta de diálogo do governador com as lideranças da cidade. 

    Os professores querem o cumprimento de aumentos salariais concedidos pelo governo anterior, que o atual diz não ter recursos para cumprir. Sendo assim, a capital do país está paralisada pela falta de recursos que impediria o atual governo de pagar os salários concedidos pelo governo anterior e sem recursos para investimentos em novos projetos que a cidade precisa em seu crescimento e evolução. Desde o primeiro dia de seu mandato, o governador Rollemberg tem deixado claro que não há recursos para manter os compromissos autorizados irresponsavelmente por seu antecessor. 

    O governo fala em falta de recursos e os sindicatos, alguns parlamentares e outras autoridades afirmam que haveria disponibilidade de recursos. Sindicalistas dizem que o pessimismo do governador decorre dele não conhecer a realidade ou manipular os dados com intenções políticas para desvalorizar o governo anterior. É como se a verdade fosse sequestrada. O governador nunca levou adiante a sugestão, feita logo nos primeiros dias de seu governo, de criar uma Comissão da Verdade Fiscal, com nomes da máxima credibilidade técnica e moral, capaz de se debruçar sobre nossas contas e passar a realidade com credibilidade. 

    Aparentemente, o governador conhece tão bem os números e está tão seguro deles que não vê necessidade de convencer a população. Além disso, a sensação é que ele adotou uma estratégia do sequestro da falta de recursos, como desculpas para o acomodamento da máquina do governo, para a falta de criatividade para projetos que não exijam muitos recursos financeiros. Tanto ele quanto os secretários parecem sentir que o “não temos dinheiro” é suficiente para justificar a paralisia da máquina. 

    Como alguém que, ao não ter dinheiro para pagar o resgate, aceita a continuidade do sequestro. Isso não quer dizer que Brasília estaria livre de greves, depois de se conhecer os números reais; porque estamos sequestrados pelo corporativismo. Se uma Comissão da Verdade Fiscal mostrasse que o governador está equivocado e que nossas contas estão equilibradas, no dia seguinte começariam greves por aumentos de salários, porque toda a sociedade brasileira está sequestrada pela visão de que o Brasil não existe como entidade unificada. 

    Existem apenas os grupos, corporações com seus interesses. Além de que prevalece a ideia de que os recursos dos governos são ilimitados, como pareciam durante as ilusões dos tempos da inflação. Da mesma forma que a inflação, Brasília foi sequestrada pelas facilidades das transferências de recursos que o Brasil nos envia todos os meses; e também pelo imenso patrimônio recebido no início e colocado à disposição da Terracap. Estes recursos criaram um sentimento de facilidades, como uma fantasia onde tudo é possível para o governo, para os empresários e para os servidores. 

    Quando a crise torna impossível o governo federal atender nossas demandas, o governo do Distrito Federal está considerando a possibilidade de vender patrimônio para pagar custeios, como salários. Como se o patrimônio pudesse ser reposto indefinidamente. Para o servidor, isso se justificaria, uma vez que estes terrenos serviram para fazer aqui algumas das maiores fortunas do Brasil, e para políticos fisiológicos ganharem votos com a distribuição da terra pública em troca de votos. Brasília precisa libertar-se das amarras que a sequestram, adaptando-se à realidade da aritmética financeira, ou perderá o direito de se autogovernar quando o Brasil perceber que estamos custando demasiado. 

    Nossa máquina governamental custa anualmente R$ 9 mil por habitante, enquanto todas as máquinas governamentais, federal, estaduais e municipais do Brasil, custam R$ 4.350 a cada brasileiro. Autonomia exige responsabilidade na gestão, com credibilidade sobre os números que indicam a realidade e com diálogo. Os três estão faltando.

     (*) Cristovam Buarque - Professor emérito da UnB e senador pelo PDT-DF



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