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  • segunda-feira, 2 de novembro de 2015

    Patrimônio cultural da humanidade não é de governantes

    Brasília, patrimônio cultural da humanidade, detém o título que expressa o reconhecimento internacional da grandeza do projeto da nova capital. Administrar esse valioso patrimônio requer cautela, sabedoria, paciência e, sobretudo, humildade. Desfigurá-lo é leviandade. Descaracterizar seus edifícios icônicos é compactuar com interesses irresponsáveis que visam, tão somente, desqualificar a grandeza do projeto da capital do Brasil.

    Educação e cultura são pilares referenciais das sociedades desenvolvidas. No Brasil, lamentavelmente, são componentes deteriorados, prestes a entrar em colapso. No Distrito Federal, a situação é assustadora. O descaso com o patrimônio cultural e artístico da cidade é escandaloso. Senão, vejamos: o Teatro Nacional Cláudio Santoro está fechado desde fevereiro de 2014; a Orquestra Sinfônica de Brasília, impedida de se apresentar no Teatro Nacional, em virtude de seu fechamento; o Museu de Arte de Brasília abandonado com placa de inauguração anunciada para março de 2015; a Escola de Música de Brasília está prestes a ser despejada de suas próprias instalações. Enfim, muitos são os exemplos do total abandono da cultura na área do quadrilátero. No que concerne à educação, o projeto de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro é lembrança romântica de passado glorioso que, por força da situação atual, temos dificuldade de crer que um dia existiu.

    A mais nova agressão contra o patrimônio cultural e artístico do Plano Piloto foi realizada no coração da cidade. Situa-se na plataforma da Rodoviária. Uma ofensiva criminosa, de grande simbolismo, que acerta em cheio a imagem do cruzamento dos eixos rodoviário e monumental expresso na bela foto de Mário Fontenelle. A recente investida foi dirigida ao Touring Club de Brasília. Idealizado pelo dr. Lucio Costa e projetado por Oscar Niemeyer, o citado edifício foi concebido com a intenção de complementar o conjunto cultural constituído por Teatro Nacional, Rodoviária e pelos demais edifícios que configuram a escala gregária da cidade.

    O próprio relatório do Plano Piloto já previa detalhadamente, no item 10, a sugestão de criação e de destinação de uso do atual Touring Club de Brasília: “Previram-se... duas amplas praças privativas de pedestres, uma fronteira ao teatro da ópera e outra, simetricamente disposta, em frente a um pavilhão de pouca altura debruçado sobre os jardins do setor cultural e destinado a restaurante, bar e casa de chá”

    Imagens amplamente difundidas nas redes sociais revelam a demolição de parte do citado edifício. Os cidadãos que admiram os exemplos de grande relevância arquitetônica do projeto de Brasília ficaram perplexos, especialmente os que participaram da epopeia da construção da nova capital.

    A intervenção no referido acervo arquitetônico de Brasília é de uma violência sem precedentes. Desrespeita a integridade do edifício. Altera o uso previamente destinado ao entretenimento e lazer para celebração de cultos religiosos. Não submete à apreciação da sociedade. Inicia a obra sem aprovação prévia do projeto arquitetônico. Enfim, configura uma sucessão de atropelos aos ritos legais, que denotam enorme brutalidade, arrogância e desrespeito para com o patrimônio da cidade.

    Maria Elisa Costa, arquiteta e defensora do projeto de Brasília, fez um apelo ao governador do Distrito Federal para que, em homenagem ao seu pai, dr. Lúcio Costa, reveja a concessão de uso do espaço do Touring Club de Brasília à igreja. Faz-se igualmente necessário que tão importante apelo contemple a figura do arquiteto Oscar Niemeyer, autor do projeto daquele edifício.

    Ainda que o tombamento exclusivo do prédio, por parte dos órgãos competentes, em especial do Iphan, não tenha sido concretizado, ressalte-se que o Touring Club integra o Setor Cultural de Brasília, que, por sua vez, define a escala gregária tombada pela Portaria nº 314. Descaracterizar a mencionada obra de Brasília, ou qualquer edifício que integra a escala gregária, intervém diretamente na harmonia e no equilíbrio do conjunto urbano consolidado, protegido por lei federal.

    Arquitetura e urbanismo devem ser entendidos como um bem cultural. Na França, estão sob a tutela do Ministério da Cultura. Infelizmente, em virtude do estado atual da arte e do precário grau de desenvolvimento cultural do nosso país, sobretudo dos gestores públicos, não se atribui a devida atenção a tão relevante contexto da história nacional. Desrespeitar a originalidade do Touring Club de Brasília é atentar contra os requisitos invioláveis da cidadania.

    Por: Igor Campos - Arquiteto e urbanista, professor do Uniceub, professor substituto da UnB, conselheiro do CAU/DF e presidente do IAB/DF biênio 2008/2009 »Daniel Mangabeira - Arquiteto e urbanista, conselheiro da Fundação Athos Bulcão no triênio 2009/2011 e diretor Cultural do IAB/DF 2008/2010 » Eder Alencar -Arquiteto e urbanista.

    Fonte: Correio Braziliense - Foto/Ilustração: Blog - Google

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