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  • domingo, 6 de dezembro de 2015

    ENTREVISTA: JARBAS VASCONCELOS » O país não sai da crise com Dilma e Cunha

    Dilma não pode se fazer de inocente, porque ela participou disso. Quando achou que o preço era muito alto, aí desistiu. Ela permitiu que Cunha fizesse aquilo, oficializasse a chantagem. Ela está envolvida. Foi negociar com ele. Não pode se fazer de santinha

    Aos 73 anos, o deputado federal Jarbas Vasconcelos é, ao mesmo tempo, opositor ferrenho de Dilma Rousseff e de Eduardo Cunha. Enquanto a maioria dos políticos do Congresso Nacional escolheu um lado na guerra entre a petista e o peemedebista, o ex-governador pernambucano critica com contundência a permanência de Cunha no comando da Câmara e defende com veemência o impeachment de Dilma. “Ele é um psicopata sem limites, que consumou um processo explícito de chantagem e assédio. Ela, por sua vez, permitiu que se fizesse aquilo, oficializasse a chantagem. Não pode estar se fazendo de santinha.”

     
    Jarbas recebeu o Correio na quarta-feira — horas antes de Cunha acatar o pedido de abertura do impeachment de Dilma — e na quinta-feira, quando o Congresso já discutia uma eventual convocação extraordinária para contar prazos do processo. Na entrevista, ele avaliou as crises política, econômica e moral sem precedentes do país, o papel dos Três Poderes, a falta de qualificação de políticos da Câmara, um eventual governo de Michel Temer e revelou arrependimentos, como o de ter votado em Cunha para o comando da Casa no início da legislatura. “Eu devia ter procurado saber, até pela minha experiência. Eu errei, via o Cunha como um simples lobista, mas que tinha um discurso contra a hegemonia do PT”, disse ele, que é uma espécie de dissidente no PMDB, partido do qual foi fundador, ainda quando a legenda era chamada de MDB.
     
    Ao longo da vida pública, o pernambucano Jarbas Vasconcelos alternou mandatos de deputado estadual, federal, senador, governador e prefeito do Recife. Nas urnas, ganhou de lavada para Miguel Arraes, mas perdeu de forma contundente, em 2010, para Eduardo Campos, neto do mitológico político. “Eduardo era um animal político, nós fomos para um total isolamento em Pernambuco; se persistíssemos naquilo, seríamos aniquilados nas eleições municipais de 2012”, disse Jarbas, que revelou pela primeira vez os bastidores da reaproximação com Eduardo Campos. A seguir os principais trechos da entrevista:
     
    Eduardo Cunha oficializou a chantagem na política brasileira?
    Sim, uma chantagem anunciada, a mídia vinha acompanhando, a opinião pública, formadores de opinião pública. Cunha tentou fazer isso lá atrás com o conjunto da oposição, ludibriou esse conjunto da oposição, prometendo colocar em pauta, na ordem do dia, o impeachment. E não fez. Quando a oposição percebeu isso, deixou ele de lado e partiu para pedir reiteradamente e oficialmente a sua renúncia. Então ele, já denunciado no Conselho de ética, passou a assediar a Presidência, em especial o PT, que tem três membros que integram o conselho de ética. Desde segunda-feira que ele não faz outra coisa aqui em Brasília. Ele percorreu um caminho da barganha, esteve atrás de Michel Temer. Se os três representantes do PT não votassem com ele, ele anunciaria o impeachment. Mandou recados para a presidente, disse isso ao Jaques Wagner, ministro da Defesa. E na quarta-feira, como se consumou por decisão partidária do presidente do PT de dar continuidade ao processo, ele se trancou e despachou. Para mim não foi nenhuma surpresa, ele é um doente, uma pessoa sem limites e capaz de tudo. Ontem se consumou um processo explícito de chantagem e de assédio. É relevante o que ele fez ontem? É relevante, mas ele poderia ter feito há 45 dias. Barganhou no mau sentido. É um processo de degradação e ficou ainda mais confuso, mais tumultuado.
     
    Mas a oposição festejou...
    Festejou, a oposição não quer entrar nesse mérito que estou entrando. 
     
    Por quê?
    A oposição deu ênfase que a ação foi importante e relevante, o pontapé inicial.
     
    Mesmo com  Cunha sob suspeição?

    A oposição está pragmática, o que interessa à oposição é o pontapé inicial, acompanhar o processo. Concordo que o pontapé foi importante, mas o Cunha não pode acompanhar isso. É como uma partida de futebol. Ele deu o primeiro chute, mas tem de sair. Foi importante o que ele fez, mas o processo não é rápido e leve. É penoso, duro, complicado.
     
    Quanto tempo  leva?

    Não vejo antes de cinco ou seis meses. Sobretudo por ter sido apresentado agora no fim do ano. O país já está parado. O governo que levou à paralisação do país, não foi o contrário. Então a gente vai ter uma paralisia maior ainda no mês altamente significativo, que é dezembro, mês de confraternização, de festas, de presente, do comércio tirar o pé da lama. É triste.
     
    O que o senhor espera da Dilma?
    Ela é imprevisível. Na quarta-feira, ela misturou as coisas. Tinha repudiado a atitude do Cunha, e isso eu concordo, mas dizer que é um malfeito, e que não gosta disso? Ela vive rodeada de malfeito, vive acompanhando isso. Ela se submeteu ao processo de chantagem, ela discutiu, colocou ministros, designou o Jaques e o Berzoini para acompanharem isso. Como a coisa extrapolou, a ameaça foi persistente, constante, e a repercussão, negativa, alguém buzinou no ouvido dela que todos iam se dar mal. Ela não foi surpreendida, surpreendido foi o país por não ter acesso a esses detalhes da chantagem.
     
    E quanto aos prazos?
    É um processo novo. O de Collor foi com dois anos até o impeachment. Esse de Dilma, se não estou enganado, começou a se falar em impeachment em março. Antes de 90 dias de governo. É um processo novo, uma coisa nova para a gente. Além de ser só o segundo processo de impeachment. E é o segundo em circunstancias anormais, e junto com a crise política que arrasta todas as outras, econômica, social, ética. É um momento crucial do país, muito difícil.
     
    O país aguenta?
    Vai aguentando até estourar. O que é estourar? É desde o mais alto agente econômico lá de São Paulo, o mais rico, mais poderoso até o eleitor mais humilde não se conformar mais. Estamos paralisados totalmente.
     
    E a sucessão Cunha?
    Se esse processo for deflagrado agora, é uma coisa de amador, altamente perniciosa. Não se abre uma discussão, mesmo que seja interna, sigilosa e recatada para um cargo que não está vago. Se está discutindo a vacância de Cunha, isso só se pode fazer no momento em que Cunha cair. O vice-presidente assume, e tem cinco sessões para fazer a designação.
     
    Ao Correio, o cientista político David Fleisher cita o  seu nome como sucessor.
    Não dá para discutir isso, ainda mais com uma pessoa como Cunha, que tem mania de perseguição. Ele vai dizer que o “que está em jogo é o meu lugar”.
     
    O discurso de Dilma de que não faz barganha funciona?
    Esconder hoje, numa época de transparência, de internet, esconder que não há chantagem, não dá. É uma chantagem explícita, clara, a consumação dela. Ela não pode se fazer de inocente, porque ela participou disso. Quando achou que o preço era muito alto, aí desistiu. Mas que participou do processo, participou. Não pode estar se fazendo de santinha. Ela diz coisas sérias com relação a Cunha, verdadeiras, mas banca a santinha, que, na vida dela, nunca se envolveu com isso. Ela estava envolvida, ela foi negociar com Cunha. Como o preço era extravagante, ela recuou. E permitiu que ele fizesse aquilo, oficializasse a chantagem.
     
    É o impeachment da chantagem?
    Acho, acho, mas nem por isso fico contra. A gente tem que acompanhar agora, foi dado um pontapé inicial. Só que tem que sair da partida, não se pode ficar na partida.
     
    Aposta de quem cai primeiro?
    Ele é quem tem que cair primeiro, Cunha não pode comandar o processo de impeachment. É muito complicado. 
     
    Já tinha assistido a um processo de chantagem tão forte como o que ocorreu entre o PT e Cunha?
    Não. Tenho 45 anos de política, nunca vi coisa igual a essa, nem parecida. Fui deputado na época da ditadura, nem ali vi coisa parecida. Essa coisa do Cunha se arrasta desde o meio do ano, a matéria que aflorara contra ele foi aquela delação do Ricardo Pessoa dizendo que ele teria pago uma propina de US$ 5 milhões, que hoje equivale a aproximadamente R$ 20 milhões. Aquilo surgiu no fim de junho, teve o recesso em julho e ele está denunciado desde o dia 20 de agosto, quando Janot encaminhou a denúncia ao STF. Não sei se o STF ainda não se pronunciou porque, diante dos fatos que se avolumaram contra ele, estão esperando para fazer algo maior, ou então por conta da morosidade da Justiça brasileira. A verdade é que tudo isso ocorreu e ele reinou durante julho, agosto e setembro muito à vontade aqui dentro, sem contestação. Era preciso dar volume, dar corpo à luta contra ele, porque a Câmara já estava em uma situação delicada. Mas ele imprimiu um processo aqui. Justiça se faça, ele botou a Câmara para trabalhar. A Câmara não trabalhava. Mas, agora com Cunha, se trabalhou de forma precária, tudo que foi votado aqui no primeiro semestre foi precário. A reforma política não é uma reforma política, é uma enganação, você não pode dar o nome de reforma se você não tem duas coisas fundamentais: o fim das coligações em eleições proporcionais, mantendo apenas para as eleições do Executivo. Ou seja, você vota em José e elege Manoel. Isso só existe aqui no Brasil. É uma indecência, uma imoralidade, você permite o surgimento de siglas insignificantes. O Brasil hoje está com 32 ou 33 partidos e 28 têm representações aqui dentro, como é que se pode fazer um negócio desse? Qual é o processo de negociação da Dilma, do Lula, do FHC ou de quem quer que seja? É muito difícil negociar com 32 partidos, ainda mais se a maioria fica nesse toma-lá-da-cá. 
     
    Sente falta de alguém para conversar sobre política no Congresso?
    Muito. Se você for tentar, você conta nos dedos. Discutir política o Senado é bem melhor, não só pelo número reduzido, mas o Senado é composto de ex-ministros, ex-governadores e até ex-presidentes, então o nível é mais elevado. 
     
    Qual a outra enganação nas votações do Cunha?
    A questão da terceirização, que é importante. A terceirização existe, só está camuflada, mas existe e é bem melhor que você regularize. Do jeito que ela saiu daqui, votei contra, porque a bagunça, tanto em relação ao empregador, como ao empregado, era de tal ordem que era muito melhor você deixar para ver se o Senado endireitava. E o Senado tem condições de fazer isso, porque a terceirização, você não pode votar em uma madrugada também. Todos esses assuntos na gestão do Cunha foram tratados precariamente, aleatoriamente, para dar uma falsa ideia para a população de que estamos trabalhando. Depois se enveredou por uma pauta que é perigosa, que é a religião, a moralidade. Mas recuou porque sentiram uma reação da mídia. Estamos sempre em risco de entrar em uma pauta pobre, uma pauta que nos leve para discutir corporativismo, interesses de militares, religiosos...
     
    A pauta conservadora se enfraquece  sem Cunha?
    O enfraquecimento dele é coisa novíssima. Ele está sem presidir a sessão há uma semana e não tem condições de colocar ninguém no lugar. Porque fez uma Mesa tão pobre que botou um vice-presidente que é tão comprometido quanto ele, lá do Maranhão, um dos denunciados da Lava-Jato. Ele então comanda todas as sessões, independentemente da importância delas. Ele não criou um substituto; quando não pode presidir, não tem sessão.  
     
    O senhor votou nele.
    Por que  votei nele? Cheguei aqui no dia 1º de fevereiro com a consciência de que não era possível dar uma hegemonia ao PT. O PT ficar com Dilma recém-eleita e com o comando da Casa. Acompanhava de lá e tinha ele como um lobista, como um exímio lobista que, desde que fosse vigiado, e acompanhado, poderia ajudar. Ele tinha um discurso parecido com esse que acabei de dizer: de que o PT não poderia ser hegemônico, de que deveríamos romper com isso, restaurar a dignidade e a independência da Câmara. 
     
    E o senhor acreditou?
    Acreditei, é possível que tenha errado, acho que errei, deveria ter me aprofundado mais, deveria ter procurado saber, até porque tinha mais experiência do que muitos, talvez da maioria da Casa. Pela minha vivência, mas aconteceu e fiquei altamente preocupado com o desenrolar dos acontecimentos. Ele colocou uma coisa na reforma política tão vergonhosa que as pessoas protestaram, ele colocou aquilo que tinha na década de 1960 e que as pessoas extirparam depois, de que você poderia se candidatar a qualquer cargo. Você era candidato a governador e, ao mesmo tempo, a deputado. Ele queria disputar o governo ou Senado no Rio, colocou isso e foi derrotado fragorosamente. Então reinou muito no final de agosto, quando já estava denunciado no STF.  Reinou depois. A rigor, sem meias palavras, fomos nós, mais o pessoal do PSol e a Rede, que enfrentamos. E não tenho posição de líder e nem de vice-líder, não tenho espaço para falar. Na tribuna tenho um minuto para falar apenas, mas, na mídia, tenho espaço. Não sou “pingente de microfone de aparte”.  A oposição falhou na proporção em que acreditou ser possível discutir com um mentiroso, um chantagista.
     
    Existe a chance disso mudar?
    Há duas ou três semanas ele foi derrotado pela primeira vez por causa do Conselho de Ética, com a história da abertura da votação. A briga foi tão grande que a Mara Gabrilli (PSDB-SP) foi à tribuna. A indignação foi generalizada.
     
    Aquilo foi o marco?
    Foi, aquela retirada enorme, de mais de 100 parlamentares, ele sentiu na pele aquilo. Cunha é um psicopata, um psicopata não tem reações. Primeiro, ele tem mania de perseguição, não tem sensibilidade. Ele não sabe o que é um alvorecer, um pôr do sol. Ele não tem amigos, tem seguidores e admiradores, não tem a menor sensibilidade, é frio. Toda vez que colocam ele contra a parede,  sou da parede falando que isso é normal, que é uma armação, que isso não é bem assim. Enquanto ele puder prolongar isso, vai prolongar. Se você me perguntar quando ele vai cair, não sei, mas ele vai cair, agora talvez neste ano não dê mais.
     
    Mas ele vai conseguir terminar o mandato como presidente?
    Não, até porque o mandato dele só termina no dia 1º de fevereiro de 2017. Se ele não sair agora, ele sai em março, ele não consegue se sustentar até lá. O que  gostaria de chamar a atenção é que qualquer adiamento funciona contra ele por conta da onda de indignação lá fora. Estamos em um momento de degradação do quadro político brasileiro, que se Dilma e Cunha tivessem noção das coisas, se encarassem o mundo e o Brasil com seriedade, ela não era presidente da República e ele, muito menos, presidente da Câmara. Vai chegar um momento em que o país vai parar literalmente, desde o maior agente econômico lá em São Paulo até o Maranhão, onde ela teve o maior número de votos.
     
    Muita gente diz que  o país já parou.
    Não, ainda se alastra porque a crise está chegando ao fundo do poço.
     
    Caso o impeachment seja aprovado, Temer tem condições de governar?
    Será uma travessia muito maior e muito mais penosa do que a de Itamar Franco. A travessia de Itamar foi de dois anos; a dele ocorrendo agora ou no início do ano será uma travessia de aproximadamente três anos.
     
    A Lava-Jato não atrapalharia o governo do PMDB?
    Nesta hora, o PMDB não ajuda em nada. Mas temos que ter uma ampla coalizão nacional, maior e melhor do que a do Collor. Não se pode fazer um governo de coalizão nacional sem a presença do principal partido de oposição, que é o PSDB. Ele deveria, inclusive, provocar um chamamento ao PT. O Itamar fez isso, ele convidou a Erundina e o Lula. Mas o Lula, do alto da soberba dele, gritou que se Erundina aceitasse ela seria expulsa do partido.  A Erundina recuou, o Itamar recuou e a Erundina foi para o PSB. Hoje não acredito que, em um eventual convite que possa ocorrer, o Lula ou alguém do PT grite que não se possa fazer isso. 
     
    Mas alguém do PT toparia fazer isso?
    Acredito que  temos bons deputados aqui.
     
    Então é possível fazer essa coalizão?
    É possível, Temer tem de perseguir isso, porque é uma jornada muito longa. É uma jornada em que não dá mais para você assumir isso. Temos a reforma tributária, a reforma política, a mais imediata, que é a da Previdência. Fui prefeito e fui governador. Não tem mais como sustentar o DF, Pernambuco e o Rio Grande do Sul, que estão em crise, se não resolver o problema da Previdência.  Homens e mulheres estão vivendo mais e você não pode esconder isso porque daqui a pouco pipoca, você deixa de pagar o ativo, você não vai deixar de pagar o inativo, é o ativo que não será pago. Esse é um assunto ruim, é um assunto azedo, mas tem que ser enfrentado.  O que mais o Michel tem que fazer é não ser candidato à reeleição: “Vou retirar o meu mandato e não sou mais candidato à reeleição”. Por que ele tem que fazer isso? Para não disparar um processo eleitoral sucessório dele, porque o país está no fundo do poço, quebrado. Para que ele possa governar e ter condições de fazer essas reformas com uma coalizão ampla. O PMDB participa, mas não pode participar com as pessoas comprometidas, com os réus e os indiciados.
     
    O senhor participaria?
    Se estou propondo isso, não posso me insinuar, não posso dizer que admitiria isso. Admito ajudá-lo, estava afastado dele há 10 anos e já o procurei, tomei a iniciativa de procurá-lo, agora em agosto.
     
    E como foi essa conversa?
    Estive com ele mais de uma vez. Conversamos sobre essa possibilidade, ele tem que se preparar, se condicionar para isso. Ele não pode topar determinadas tarefas, porque a Dilma pode chamá-lo para o terceiro turno, de resistir e ficar mentindo na campanha, como mentiu quando eleita, dizendo que só teve conhecimento de que o país estava degradado em outubro e novembro. Isso foi mentira, ela já sabia que o país estava quebrado.
     
    Dilma sabia da corrupção na Petrobras?
    Tudo, Dilma sabia de tudo. O Cunha chantageou a oposição, chantageou, o PT e Dilma. Ora, para um, era o impeachment, para o outro não era o impeachment. Por que a Dilma se submeteu a um negócio desses? Um impeachment comandado por Cunha não é só o PT que vai gritar, não, a mídia vai gritar, a intelectualidade vai gritar, quem tiver um pensamento de comprometimento com o país vai gritar. Vou ter uma enorme dificuldade em votar um processo de impeachment comandado por Cunha. Primeiro tem que tirar ele, e temos elementos fundamentais e essenciais para tirar ele e, se não conseguir tirar, recorrer ao STF. Nunca é bom que o STF esteja interferindo nos problemas do Legislativo, mas se continuar essa falta de pudor que existe hoje, sobretudo dentro da equipe dele, dentro da tropa de choque dele, que não tem mais limite, não vejo nenhum problema em as principais lideranças daqui, independente de partido, procurarem o STF para provocar o afastamento dele.
     
    Derrotado de forma contundente por Eduardo Campos, ao final se aproximou dele. Como se deu isso?
    Eduardo era um animal político qualificado. Só fazia política e  estava acima da média. Quando perdi as eleições para ele, em 2010, fomos para um total isolamento de Pernambuco, eu e os partidos que circundavam junto com a gente, PPS, com Raul Jungmann, Mendonça, do DEM. E conversávamos internamente, é a primeira vez que falo isso numa entrevista. Havia uma inquietação grande devido a esse isolamento, que não permitia um trânsito na sociedade. Se persistíssemos no isolamento em 2011, perto das eleições, seríamos aniquilados, desapareceríamos do mapa no estado, haja vista o processo que sofri em que Eduardo me triturou em todas as regiões e todos os municípios do estado que ele comandou.
     
    Depois da derrota,  resolveu compor?
    É, não tenho essa questão de ser antiPT, mas também não tenho a menor ligação com o PT. Votei no Lula no segundo turno em 1989 e votei porque ele foi para a eleição com o Collor. Tentei o PMDB para o Lula e não consegui, arrastaram grande parte do partido para o Collor . Fiz um entendimento com Eduardo, tínhamos dois amigos em comum — um do meu lado e o outro do lado dele. E esses amigos provocaram um encontro nosso, em dezembro de 2011, no dia em que o Corinthians foi campeão.  Eduardo estava muito tenso. Não chegávamos a lugar nenhum, até que eu disse: “Olha, Eduardo, não foi fácil chegarmos até aqui, você teve problemas dentro de casa e eu também . Você é candidato a presidente, dê uma entrevista e se apresente com uma pessoa que uniu o estado, isso já é uma credencial muito boa. Assim não vai sofrer contestação nossa. Mas agarrado com o PT, você não vai para lugar nenhum”. Ele me deu razão.
     
    Isso em 2012?
    Isso. Em junho adoeci, tive uma dor no peito me meti a médico e tomei um Isordil. Acabei indo para São Paulo fazer uma cirurgia. O prazo eleitoral correndo. Raul Henry chegou lá  no hospital e disse que o Eduardo queria dar continuidade à união da gente. Eu disse: “Você topa renunciar a sua candidatura?” Ele disse sim, então disse para ele renunciar. Dei uma entrevista no quarto de hospital. Retiramos a candidatura do Raul e ele foi candidato a prefeito com o Geraldo Júlio. Ganhamos a eleição por 1%, quer dizer, fomos fundamentais. A aliança com o PMDB foi essencial para valorizar o Eduardo nacionalmente. No meio disso, Eduardo perguntou “Mas e você?” Respondi que ia para casa. Ele ficou meio assim, o Raul estranhou também, mas passou. Uma semana depois comecei a pensar no que ia fazer em casa, ficar tomando conta de panelas e limpando a minha coleção de arte? Resolvi disputar um mandato de federal, a minha história de estar aqui é essa. 
     
    Com a morte de Eduardo Campos, Pernambuco saiu do mapa?
    Havia uma projeção muito grande de Campos, e ele faz muita falta no quadro nacional. Se vocês forem olhar o quadro de agora, a Câmara é de uma pobreza franciscana. O processo de afastamento do Collor completou 3 meses. Naquela época, você tinha doutor Ulysses, Tancredo Neves, Franco Montoro e Mário Covas. Isso só pelo PMDB, ajudando aqui dentro e fora. Você tinha o Brizola, doutor Arraes e ACM. Cada um com um pensamento. Estou citando um conjunto de pessoas de renome nacional, que ajudaram no processo de democratização. Uns ajudaram, o ACM tentou desajudar em determinado momento. Mas estou falando da dimensão das pessoas. O que você tem hoje?
     
    Há uma degradação política?
    Tem, tem muito a ver com desilusão política. A escolha pela profissão política, por pessoas que querem vir fazer negócio aqui, o corporativismo. E a Câmara tem muito disso, muitos militares, evangélicos. Não tenho nada contra, quem elege é o povo, isso faz parte da cena, mas, quando se tem isso de forma elevada, que tenha um peso maior, causa um desequilíbrio. 
     
    Há alguma chance de mudança?
    A gente não deve só se fixar só neste quadro que fiz até agora, em cima dessa degradação política e desse quadro negativo com perspectiva de afundamento da economia, o encolhimento do PIB maior do que se esperava. E aí temos três coisas para uma tempestade perfeita: recessão, inflação e desemprego. Não, vamos ter uma agenda positiva. Este país não sai do impasse com as presenças no cenário nacional de Dilma e Cunha.
     
    Com Dilma não tem condições?
    Não, não há condições de diálogo com ela, ela está convivendo, inclusive, com imoralidade, ela está convivendo com coisas inconcebíveis para uma pessoa que diz ter uma formação.
     
    Ela está acuada?
    Está em desespero. Descarta a renúncia porque a crise não chegou ao final do poço. Porque ela vai piorar desgraçadamente. Preferia dizer outra coisa. E outra coisa que tem que se levar em conta, a Lava-jato está em curso, não terminou. O mensalão teve 40 réus. A Lava-jato vai com 170 réus, o mensalão se tornou um pintinho frente ao petrolão, em termos de réus e recursos. De 40 para 173. Ela não terminou, praticamente já bateu em tudo que cerca Dilma, ministros, que estão trabalhando com ela. Delcídio era o líder dela no Congresso. A Lava-jato não pode bater nela? Pode, pode bater nela de forma fatal. Então, ela pode antes disso, diante de uma paralisia total e completa do país, que pode ser agora, pode ser no fim de dezembro, tomar consciência de que não dá mais para continuar no mundo da lua e se fazendo de idiota, de que a crise não é com ela e que crise vai passar, ela tem uma saída ou que há alguma coisa no fim do túnel. Mas não tem nada no fim do túnel, não tem nada para ela.
     
    Até mesmo o Lula quer que ela saia?
    Não sei. Lula já jogou nisso, acho que não joga mais.
     
    E a situação do Lula hoje?
    Lula atrela muito as decisões dele a uma eventual dificuldade. Lula paga o preço, hoje, dos desacertos. Ele teve acertos e desacertos. Ele acertou quando teve preocupação com políticas sociais, pois qualquer presidente, governador tem que ter em mente que não dá para governar um país desigual com o Brasil, com regiões também desiguais, sem políticas compensatórias. A política compensatória é a questão da Bolsa-Família e tal. Ele teve esses avanços sociais, mas se atrapalhou muito, pois Lula e o PT não inventaram a corrupção, alimentaram a corrupção, conviveram com ela. A coisa no Congresso, toma lá da cá, sempre existiu. Não foi o Lula que criou também, mas alimentou e deu forma a isso. Ele mentiu quando disse que Dilma era a pessoa preparada para substituí-lo. Ele queria colocar uma pessoa lá para manobrar totalmente. Não se manobra com uma pessoa que tem o temperamento que Dilma tem, porque ela é indomável em determinadas coisas, mas ela se doma para Lula fazer o que quer. Então, deu no que deu, Dilma ser reeleita, na base da mentira, da enganação e das coisas falsas. O ano está terminando e país numa situação como essa? A gente tem que pensar numa agenda positiva. O Brasil tem de se juntar através de uma pessoa, que se chama Michel Temer, porque qualquer outra é uma solução golpista. 
     
    E novas eleições?
    Novas eleições não mexeria. Mexer em calendário eleitoral, não é uma coisa positiva, uma coisa boa. O país não tem condição de ter uma eleição em 2016. Primeiro, não acredito que o TSE adote essa opção. Não acreditando nisso, ficam as duas outras opções, a renúncia e o impeachment. Não pode ter impeachment com o Cunha. Tem que se tratar primeiro de Cunha, que é um chantagista, é um doente, um mentiroso e não dá para manter isso, como presidente da Câmara. Agora é pensar na coisa positiva, a indústria está no fundo do poço, a única que se  mantém bem no país é o agronegócio.  O  Brasil precisa de uma pessoa que assuma para fazer mudanças. A  primeira delas é a reforma da Previdência, porque, se não correrermos com isso, estamos liquidados. E aí, abrir um diálogo, fazer um governo de coalizão nacional, melhorar o clima do Brasil. Não há dúvidas de que Dilma caindo, no outro dia, 24 horas depois, o país será outro. Mas isso não é o suficiente. Ninguém sustenta clima só na base da oratória, da perspectiva positiva, tem que dar curso a isso. Um governo sério, composto por pessoas sérias à frente dos ministérios. É  preciso uma nova relação com o Congresso, com a imprensa.
     
    Em 2016,  o Brasil sai da crise?
    A crise econômica vai a passos largos, tão logo que se dê o sentido que o país precisa, reencontrar o caminho do crescimento, sair da inflação, recessão e desemprego. E só se pode enfrentar o desemprego com a indústria melhorando. Se não se tem isso, não se vai a lugar nenhum. Não vi nada igual, de todos que eu convivi, vi e participei, não tem nada parecido.
     
     É uma crise moral, econômica...
    A crise é fundamentalmente política, mais do que as outras. A mãe da crise é a política, a crise política rachou isso. Um governo desacreditado, um congresso desajustado, um país em que só o Judiciário funciona. O Judiciário está funcionando, primeira instância e segunda instância. Lá embaixo e lá em cima. O Congresso está funcionando, precariamente, entre coisas boas e ruins, mas as ruins, se sobressaindo. Quem não funciona é o Executivo, que está caminhando para uma paralisação, que não ocorreu ainda, não chegou ao fundo do poço. E a presidente, que se diz uma pessoa respeitável, com formação, que se ojeriza o malfeito, está convivendo com tudo isso, com o malfeito, com o chantagista. E a população vendo isso.
     
    Isso não é motivo para o impeachment...
    Esse impeachment de Dilma é complicado. Primeiro porque o processo é uma coisa dura, o processo em si, e um processo no primeiro ano de mandato é mais cuidadoso ainda. Ela vai para o estrangulamento. E dentro do estrangulamento, ela vai ou para a renúncia ou vai sofrer o impedimento.
     
    E a decisão do Senado de manter Delcídio preso?
    Vejo como positivo. A contribuição que o Senado deu no episódio de Delcídio, embora tenha tentado enveredar pelo corporativismo, pela votação secreta, não prevaleceu. 
     
    Se ainda fosse governador, como enfrentaria essa crise?
    É uma situação de muita dificuldade, porque não vejo o estado bem, você não encontra um prefeito bem avaliado, pode encontrar, mas na maioria o prefeito está roubando, ou ele é incompetente, ou ele tem uma enorme dificuldade com o mandato.
     
    Por: » Ana Dubeux » Denise Rothenburg » Leonardo Cavalcanti – Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press – Correio Braziliense 

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