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  • terça-feira, 8 de dezembro de 2015

    Qual é o papel do Brasil no futebol?

    O futebol brasileiro sempre ocupou a vanguarda no mundo da bola, provocando o encanto que tanto caracteriza os gênios desse esporte. E como a vanguarda é irmã da arte, convencionou- se chamar de futebol arte aquilo que os jogadores de amarelo apresentam em campo. O gol de Neymar, no qual aplica lençol sobre o adversário, para depois arrematar a bola do outro lado antes que ela tocasse o chão, é mais um exemplo. Um gol exatamente como esse, em especial no momento em que faz girar o corpo, só poderia ter brotado na terra brasilis. Aquilo é arte, é genial!

    Logo se vê que o papel que se desenhou para o futebol brasileiro não é simples. E mantê-lo tem se tornado tarefa cada vez mais difícil. “Não existe mais bobo no futebol” é velho jargão cada vez mais atual, e isso atingiu níveis globais. A globalização superou as fronteiras que separavam as diferentes escolas e homogeneizou os estilos. Agora, não só os bobos sumiram, mas há craques no mundo inteiro e suas jogadas de arte e efeito podem ser vistas e revistas a qualquer momento.

    Embora a arte no futebol não seja mais propriedade exclusiva, ainda somos a seleção mais querida do mundo. Talvez porque aqui a identidade do futebol tenha se construído mais como jogo do que como esporte, e o jogador é figura diferente da do atleta. O jogador brinca e se diverte. Possui certa indisciplina a partir da qual pode improvisar e aí, livre e lúdico, ser tomado pelo devir do drible, pela poética que nos faz gênios da bola. Mas um paradoxo se abre no centro da pergunta sobre qual é o papel do Brasil no futebol: a identidade tão admirada perde espaço em esporte que se preocupa cada vez mais com o resultado, o vigor físico, a posse de bola e a disciplina tática. O belo da inspiração poética do jogador artista transformou-se no belo da disciplinada transpiração do atleta.

    É de se perguntar se esse jogador — que em seu jogar relembra a liberdade das brincadeiras de infância nos tempos do futebol de praia, onde até mesmo os limites do campo se faziam mutáveis conforme a maré — ainda tem lugar no mundo do esporte de alto rendimento. No centro desse paradoxo, o Brasil precisa se reencontrar, redescobrir o seu papel dentro do cenário mundial. As pessoas têm chamado esse processo necessário de modernização e apontam as gestões temerárias como o principal fator de risco às virtudes do futebol brasileiro. Em evidente reativação do complexo de vira-lata, apontam para a Europa e acreditam que ali estão os modelos a serem seguidos. Mas a resposta não é tão simples.

    A modernização do futebol brasileiro, dentro e fora de campo, deve seguir seu próprio modelo e nesse ponto a nova gestão da CBF quer se tornar a referência, com compliance, transparência e democratização. Vem valorizando o diálogo, escutando os clubes na perspectiva da construção coletiva do futebol. E, em campo, devemos potencializar o que no Brasil permite formação diferenciada de seus jogadores. Será preciso criatividade para construir novas para o devir do futebol brasileiro fluir. A ludicidade e a poesia devem poder se encontrar com a disciplina tática, física e o jogo coletivo. A anteposição paradoxal entre esses fatores se dilui nos pés de Neymar e da nova seleção que vem sendo construída: a síntese é possível.

    Mas, para essa síntese se tornar cada vez mais real nos pés de novos talentos, é preciso auscultar com atenção os chamados de um tempo de crise e perceber que a própria relação do brasileiro com o futebol está mudando. Antes o jogo acontecia em todo e qualquer lugar. Na crise do futebol, em sua dimensão cultural, elementos fundamentais como o prazer e a diversão acabaram perdendo espaço para produtos esterilizados. Além disso, o medo, a violência, o abuso de drogas, a desocupação de espaços públicos vêm minando cada vez mais nosso futebol popular. Por que antes crianças irem à praia sem dinheiro era tido como um sinal de que jogariam futebol e hoje é visto como sinal de arrastão? Desde quando, para muitas, o smartphone é mais importante que a bola? Mas aí a pergunta já se torna outra, tão ou mais importante do que a posta no título: hoje, qual é o papel do futebol no Brasil?


    Por: Walter Feldman - Secretário-geral da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) – Foto/Ilustração: Blog – Google – Fonte Correio Braziliense 

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