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  • domingo, 6 de dezembro de 2015

    Um instante, maestro! - - - (Sílvio Barbato)

    “Basicamente, acho que estamos num período conturbado, de opiniões e de dizeres relativos à política em geral da cidade. Um debate muito inflamado. Já há algum tempo, tenho notado que meus projetos não tinham ressonância. E já há alguns anos, tenho trabalhado com um orçamento muito restrito”, ditou Silvio Barbato, enquanto oferecia seu melhor ângulo para o fotógrafo André Oliveira. Entre o maestro e a câmera, havia uma harpa, cujas cordas conferiram ao retrato um efeito inusitado, como se houvesse grades no palco da Sala Villa-Lobos.

    Parece que foi ontem e poderia ser hoje. Silvio falava pausadamente, com mãos nos bolsos e a clareza de quem zelava por um testemunho fiel. O sorriso triunfante permanecia, assim como a cabeleira prateada, mas o maestro e eu sabíamos que 2006 havia sido um ano ruim. Dali a três dias, ele se desligaria definitivamente da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, à qual havia dedicado uma década de trabalho. Cordão umbilical difícil de ser cortado, pois o próprio Santoro o havia preparado para herdeiro. “É como um casamento que se desfaz sem motivo.”

    Naquele setembro, esmagava o coração do regente a denúncia de que acumulava dois cargos públicos. “Público e notório”, ele bradava. E, realmente, todo mundo sabia que ele era titular do corpo sinfônico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Aliás, a dupla identidade lhe dava muita satisfação. Puxava o “s” descaradamente, torcia pro Flamengo e sempre pedia aos repórteres: “Anota aí que eu sou cariocandango”. A camaradagem, porém, já não convencia alguns músicos, que ensaiaram um motim. Barbato se referia a eles como “os corsários”.

    O sinal de que alguma coisa estava errada vinha de um jeito atravessado, compreensível apenas para bons entendedores. Tinha uma bendita sinfonia do Mahler, que sempre constava da programação. Aí chegava o dia (às terças!) e orquestra tocava outra peça, que não tinha nada a ver. Isso se repetiu três, quatro vezes. Para além dessa guerra fria, havia fervura política. Barbato havia ficado sem retaguarda após as eleições. Seu elo com a gestão Maria Abadia se esgarçara com a saída do então secretário de Cultura, Pedro Bório. O dinheiro acabou.

    “Sou um Dom Quixote contra moinhos de vento. Sou um cara do bem e quero preservar meu nome. A burocracia é a morte da arte, todo mundo sabe. Se não tem apoio do Estado, a orquestra morre”, enfatizou. Foi duro ouvir isso, porque era tão boa a lembrança do Barbato enfant terrible: um maestro de 30 e poucos regendo uma orquestra bebê, para um público infanto-juvenil, sem nenhum pudor de misturar popular e erudito. Parece que foi ontem e poderia ser hoje. Exceto pelo fato de que o Teatro Nacional ficou no passado. Isso mesmo, pode acreditar: o Teatro Nacional não abre as portas desde janeiro de 2014!

    Por: Gustavo Falleiros – Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google

    Um comentário:

    1. Excelente crônica!
      Uma pena o Teatro Nacional ter sido fechado e até hoje não ter começado sua reforma.
      É a orquestra...

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