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  • domingo, 10 de janeiro de 2016

    #COMPORTAMENTO » População evangélica se encontra na juventude

    Rapazes e moças entre 18 e 35 anos formam uma parte numerosa na nomenclatura religiosa e dizem que escolheram igrejas não católicas principalmente pela sensação de pertencimento. Há, inclusive, espaço para homossexuais assumidos

                                O casal Roseane e Rafael Guimarães se conheceu na Sara Nossa Terra
    Um terço do Distrito Federal é formado por evangélicos. Seja pelas linhas milenares batistas, seja pelos templos neopentecostais que conquistaram espaço dos anos 1970 em diante, o crescente número de protestantes no Brasil é evidente na capital federal, na qual se celebra o Dia do Evangélico em 30 de novembro. Entre os adeptos do protestantismo, estão jovens que usam a religião como meio de vida e diversão: além de se reunirem para orar, fazem amigos e até iniciam relacionamentos afetivos dentro da igreja.

    Atualmente, existem mais de 830 mil evangélicos no DF — 30,8% da população, de acordo com dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Boa parte migra da Igreja Católica. É unânime o entendimento dos entrevistados — evangélicos que deixaram o catolicismo e especialistas no estudo em religiões — de haver maior horizontalidade nos templos protestantes. E é aí um dos pontos da transição de uma crença por outra: a sensação de pertencimento. Nessa leva, os jovens não ficam de fora.

    É o caso da jornalista Roseane Guimarães, 29 anos, e do advogado Rafael Guimarães, 28. Eles se conheceram na sede da neopentecostal Sara Nossa Terra, no Sudoeste. Ambos egressos do catolicismo — ele, por influência da mãe, em 2003, e ela, por conta própria, no ano seguinte. Em 2006, começaram a namorar e, quatro anos depois, se casaram. Hoje, têm a filha, Rafaella, de 1 ano e 3 meses, e moram em um apartamento em Águas Claras.

    Todo esse processo começou com a sensação de pertencimento a um grupo, algo inexistente nos ensinamentos católicos durante a infância, na opinião deles. “Na Igreja Católica que eu frequentava, o padre não sabia o nome de ninguém. No meu segundo dia frequentando a Sara, todo mundo já me chamava pelo nome”, recorda Roseane. “O padre, assim como as instituições católicas, tem uma aura suntuosa. O pastor se veste como a gente e se mistura”, compara Rafael. Atualmente, quase todo o círculo social dos dois é composto por amigos feitos na igreja.


    Pertencimento
    Para o professor de sociologia da religião da Universidade de Brasília (UnB) Eurico Cursino dos Santos, a sensação de pertencimento, aliada ao aumento da comunicação em massa nos últimos 40 anos, é um fator decisivo para a disseminação das ideias evangélicas. “O Brasil sofre constantes mudanças desde os anos 1970. São novas perguntas, novas dúvidas, e as respostas tradicionais caducaram”, diz. “Ninguém interpretou os pobres nesse tempo melhor do que os evangélicos, pois tratam a vida dos menos favorecidos como algo vivo de sentido: o discurso católico é hierárquico, de cada um em seu lugar predeterminado, enquanto o protestante cita realizações a conseguir”, explica o especialista.

    Aos 25 anos, o servidor público Lucas Ribeiro representa um grupo que congrega homens e mulheres de 18 a 35 anos na 3º Igreja Batista de Brasília. Segundo o rapaz, o ministério age sob uma vertente que foge à linha mais tradicional. “O nosso grupo fala muito do relacionamento com Jesus, em vez de impor um livro de regras. Vendemos uma proposta de uma vida melhor, mostrando que a juventude pode aproveitá-la sem precisar fazer coisas prejudiciais a ela”, diz.

    Nos encontros, predominam atividades voltadas à interação entre os integrantes, como a prática de esportes e de lazer. Essas reuniões, realizadas às sextas-feiras, acontecem sempre na casa de um dos membros, longe das badalações regadas a álcool e outros tipos de drogas. “A galera não precisa sair para se divertir. Organizamos tudo em um mesmo ambiente: jogamos bola, curtimos uma piscina, churrasco e fazemos nosso culto”, conta o rapaz.


    Inclusão
    Questionados sobre o que é casamento, Rafael, Roseane e Lucas definem o matrimônio como a união entre um homem e uma mulher. Deslocados no meio, homossexuais cavaram o próprio espaço na religião. Em 2005, cinco pessoas fundaram a Comunidade Athos, igreja inclusiva voltada para o público LGBT. O nome da instituição vem do livro bíblico Atos, no qual há a passagem “e, abrindo Pedro a boca, disse: ‘Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas’”. Cerca de 60% dos frequentadores da instituição — que se encontram às quartas, aos sábados e aos domingos no Conic — são formados por pessoas entre 19 e 29 anos.

    Para o pastor Alexandre Feitosa, 38 anos, que é homossexual e já esteve casado com um homem, os templos religiosos tradicionais partem do princípio que todos são heterossexuais. “O homossexual se sente deslocado, excluído e invisível na Igreja. Sofremos traumas, caímos em depressão e crescemos com baixa autoestima não pela orientação sexual, mas por considerarem a homossexualidade uma possessão demoníaca”, afirma. “Aqui, nós temos um local para pessoas que acreditam em Deus, querem frequentar a igreja, mas não são aceitas nos lugares tradicionais”, continua. Além da Athos, há duas instituições evangélicas inclusivas no DF, ambas em Taguatinga: Comunidade Cidade do Refúgio e Igreja Cristã Incluídos pela Graça.


    830 mil
    Número de evangélicos no Distrito Federal, segundo levantamento da Codeplan

    "Ninguém interpretou os pobres nesse tempo melhor do que os evangélicos, pois tratam a vida dos menos favorecidos como algo vivo de sentido: o discurso católico é hierárquico, de cada um em seu lugar predeterminado, enquanto o protestante cita realizações a conseguir”

    (Eurico Cursino dos Santos, professor de sociologia da religião da Universidade de Brasília)




    Fonte: Alexandre Santos Especial para o Correio - »Guilerme Pera– Fotos: Marcelo Ferreira – Correio Braziliense

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