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  • terça-feira, 5 de janeiro de 2016

    Cristovam Buarque: Decente 2016

    Desejo a cada leitor e seus familiares um 2016 em que não desistam da construção de um Brasil decente. Um país sem a indecência de multidões na expectativa de atendimento médico em hospitais e postos de saúde públicos, fechados por falta de verbas, salários atrasados ou servidores e médicos ausentes; pacientes morrendo por falta de dinheiro que assegure o atendimento necessário já disponível tecnicamente. Um país com a decência de não fazer estádios antes de construir escolas e hospitais.

    Com sistema sanitário e educacional decente, capaz de impedir que um mosquito danifique o tamanho do cérebro de criança ao nascer; e sistema educacional com a decência de não impedir o desenvolvimento do cérebro de milhões de crianças que escapam da microcefalia provocada pelo vírus zika, mas não escapam do abandono da educação de base; com a decência de não desperdiçar o talento da única criança brasileira por causa da renda da família ou da cidade onde vive.

    Sem a indecência de sermos o nosso próprio histórico Aedes aegypti devido à corrupção nas prioridades de nossas políticas públicas. Com a decência de termos todas as escolas com a qualidade das melhores do mundo, em que os professores se dedicarão satisfeitos ao ensino, com salários decentes, sem necessidade de greves, em escolas onde as crianças desejarão ficar ao longo de todo o dia. Desejo um país onde acabe a vergonhosa indecência que dura 126 anos, impedindo que parte substancial de nossa população adulta seja incapaz de conhecer a própria bandeira, por não saber ler o lema nela escrito.

    Desejo um país onde a moeda não perca valor, os governos sejam responsáveis com as contas públicas e não usem o dinheiro para obras e gastos demagógicos visando ganhar eleições; um Brasil livre de corrupção, tanto no comportamento dos políticos quanto na decência das políticas públicas; onde não sejam construídos palácios antes de sistemas de água e esgoto. Um Brasil onde os partidos no poder não se confundam com o governo, nem com o Estado, e sintam que estão no poder apenas para servir à nação, não para usá-la, depredando o patrimônio, inclusive das estatais construídas com tanto sacrifício ao longo de décadas.

    Para 2016, desejo um Brasil com economia decente, nos padrões do século 21: competitiva, inovadora, criadora e produtora de bens de alta tecnologia; em que cada trabalhador produza o necessário para elevar nossa renda per capita, onde os empresários não precisem de proteção estatal e os trabalhadores não dependam de bolsas; uma economia sem a indecência da histórica e persistente concentração da renda entre as mais perversas do mundo; e da pobreza entre as mais gritantes.

    Desejo a decência de nenhum brasileiro sofrer por falta do essencial para atender as necessidades básicas, ainda que, para isso, ele precise receber a ajuda de bolsas, mas desejo a decência ainda maior de um Brasil onde ninguém necessite receber bolsa para sobreviver nem se sinta em dívida com o governo que diz pagá-la, como se o dinheiro não viesse do próprio povo.

    Desejo um Brasil decente, onde os políticos não prometam o que não vão cumprir, e o eleitor prefira o candidato que oferece novo rumo para o país em lugar daquele que oferece mais vantagens para o próprio eleitor. Um Brasil que trate com decência a natureza: não mate rios, não destrua florestas; onde cidades sejam metrópoles civilizadas e não monstrópoles violentas, roubando vidas por assassinatos ou por horas sacrificadas em engarrafamentos de trânsito. Desejo a decência de poder andar nas ruas sem o sofrimento de ver as necessidades dos pobres e sem o medo dos assaltos que ameaçam a todos.

    Desejo o fim da privatização do Estado, usada para servir a empreiteiras que se beneficiam de preços altos oferecendo obras e serviços de baixa qualidade; ou à privatização que serve para pagar salários sem trabalho competente e dedicado ao público. Desejo a decência do espírito público e do patriotismo do cidadão acima do egoísmo individualista do consumidor. Neste começo de século 21, desejo a cada brasileiro que, apesar dos péssimos exemplos do passado, distante ou recente, nós voltemos a acreditar que o Brasil é um país com a decência de todos que acreditam ser possível construir um país decente.


    Por:Cristovam Buarque  - Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e senador pelo PDT-DF

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