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  • quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

    David Bowie perdido no espaço de Brasília


    Existem estranhas e surpreendentes conexões entre David Bowie e Brasília. O roqueiro era ligado em futurismo, viagens a outros mundos e espacialidade. Se Brasília nos dava a impressão de que, a partir de então, era possível morar em um cenário de ficção científica, Bowie parecia se esforçar em criar a trilha sonora ideal para essa paisagem. Em 1969, ele dá a primeira pista disso, ao lançar o álbum Space oddity (Odisseia espacial), em que, na faixa-título, imagina um astronauta, o major Tom, se despedindo da Terra com um mergulho no espaço.

    Mas é três anos depois, em 1972, com The rise and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (A ascensão e a queda de Ziggy Stardust e das aranhas de Marte) que ele chega mais próximo de fazer a trilha sonora da capital futurista. O clássico e conceitual álbum narra a história de Ziggy, um andrógino e alienígena astro do rock, incorporado em trejeitos e vestimentas pelo próprio Bowie. Ele apostava no futuro numa época em que a indústria fonográfica se esmerava em investir na fórmula de sucesso do passado e insistia em produzir bem-comportados covers dos Beatles em série.

    Brasília e David Bowie parecem compartilhar a capacidade de nos fazer crer que, quando olhamos para ambos, estamos admirando o futuro. Os dois surgiram para os nossos olhos na mesma década, os modernistas anos 1960. E Brasília era o modernismo transformado em cidade. Em uma das duas vezes em que veio ao Brasil, Bowie lamentou não ter tido tempo para visitar Brasília: “Sinto muito porque não poderei ir até Brasília. Sou fã da obra de Oscar Niemeyer e de toda a tradição de arquitetura de Le Corbusier. Gosto de conhecer o que existe de culturalmente interessante. Costumo fazer isso em todas as cidades. Sou um abutre da cultura”.

    É pena que Bowie não tenha visitado Brasília. Se viesse, ele apreciaria o silêncio espacial da cidade e a escolheria como cenário perfeito para um clipe sobre Ziggy Stardust. Ele poderia cantar no Museu da República, enquanto seriam projetadas imagens frenéticas da narrativa de ficção científica de Ziggy na cúpula do museu. Se circulasse de carro pela Ponte Honestino Guimarães, teria a sensação de estar suspenso, perdido no espaço. Se subisse o Eixo Monumental na direção da Rodoviária, ficaria com a impressão de que entraria nas nuvens. Perceberia que, embora arraigada nos sertões bravos, Brasília é uma cidade espacial. O que escreveria se chegasse de avião à noite e avistasse do alto a maquete começando a funcionar?

    Tenho um amigo que costuma passear com a namorada, arquiteta, pela Esplanada dos Ministérios e, a certo momento, ela faz um sinal com o dedo indicador nos lábios, pedindo silêncio reverencial diante da beleza das obras de Niemeyer: “Por favor, faça um minuto de silêncio”. É precisamente esse sentimento que, sem conhecer diretamente Brasília, Bowie intuiu ao declarar em entrevista à MTV: “Eu acho que é quase uma procissão ir a Brasília ver as obras de Niemeyer”.

    A maneira de olhar define tudo. Os forasteiros costumam visitar Brasília atulhados de frases feitas e ideias prontas. Por isso, os artistas sempre foram os que se abriram para entender a singularidade de Brasília. Em vez de se armarem de verdades prontas, eles interagiram intensamente com a cidade, sem teorias ou teses fechadas. Mesmo sem conhecerem diretamente Brasília, alguns artistas estrangeiros estabeleceram uma fina sintonia com a cidade.

    O cineasta alemão Win Wenders entrou em contato com o Brasil quando era criança por meio das imagens de Brasília: “E não tinha a ver com filmes, mas com uma cidade. Eu era apaixonado pelo trabalho do arquiteto Oscar Niemeyer e impressionado com a ideia de construir uma cidade no meio da selva — ou, pelo menos, era assim que a sua obra era apresentada na Alemanha. Na parede do meu quarto, tinha todas as informações e imagens sobre Brasília. Se eu fosse fazer um filme amanhã sobre o Brasil, não hesitaria em filmá-lo em Brasília, um lugar extraordinário e um exemplo para o mundo. Passaria algum tempo lá, até encontrar a história que a cidade me contasse”.

    É isso que fizeram, cada um a seu modo, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector e Caetano Veloso. Por isso, lançaram miradas que revelaram e inventaram Brasília: “É boa para os olhos”, escreveu Paulo Mendes Campos. “Nas outras cidades grandes, onde não devia haver nada, não há nada, há monturo de edificações: em Brasília, onde não deve haver nada, não há nada. Descansa os olhos. Possui as riquezas elementares mutiladas em outras cidades: céu cor de céu, vegetação verde, água tranquilizante. Até os cegos podem ver Brasília pela vibração sutil e confortante dos espaços abertos.”

    Clarice Lispector disse que “Brasília é o futuro que já aconteceu”. Pode ser, o concreto já rachou, as utopias foram contestadas, as contradições escancaradas. Brasília é, cada vez mais, o presente terráqueo e dilacerado do Brasil deste início de século. Mas a cidade não perdeu o fascínio nem a aura de cidade futurista ou de cidade de outro mundo. Onde Niemeyer tocou, suscitou a beleza. Há uma parte de eterno no moderno que permanece viva.



    Por: Severino Francisco – Ilustração: Julio Lapagesse/CB/D.A.Press - Reprodução do livro "Minha Arquitetura" Oscatr Niemeyer - Correio Braziliense

    Um comentário:

    1. Caro Chiqunho Dornas
      Muito obrigado por colocar o crédito da imagem.

      abraço
      Julio Lapagesse

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