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  • domingo, 24 de janeiro de 2016

    ENTREVISTA: GUILHERME REIS » (SECRETÁRIO DE CULTURA) "A cidade está encaretando" (aposta no sucesso do carnaval de rua, com blocos - Reforma do Teatro Nacional)

    "Organizar eventos grandiosos e importantes gastando muita grana em estrutura, com a biblioteca ali ao lado se acabando, não tem sentido"

    O secretário de Cultura aposta no sucesso do carnaval de rua, com blocos nos espaços públicos, apesar de reclamações de moradores que querem tranquilidade perto de casa. Para resolver o problema, o governo estuda novas regras para o controle do barulho de eventos

    Ator e diretor, o secretário de Cultura, Guilherme Reis, 61 anos, interpreta agora um papel para lá de difícil. Com poucos recursos e diante da grave crise que atinge o Distrito Federal, ele é cobrado por artistas e por quem deseja aproveitar a cena cultural de Brasília. O Teatro Nacional e outros locais de diversão sucateados e fechados, torneiras de apoio a escolas de samba fechadas, monumentos sem restauração há anos são alguns dos capítulos desse roteiro.

    No meio de um turbilhão de reivindicações, chega o carnaval e um debate sobre a Lei do Silêncio. Representantes de quadras e da comunidade gritam contra o som alto de eventos, shows de música e de bares e até mesmo da tradicionalíssima festa do rei Momo. 

    Reis diz que o carnaval é do folião. Não há regras, mas os blocos precisam cumprir o compromisso que acertaram com as administrações regionais quanto a trajetos e horários. Em entrevista ao Correio, o secretário revela que o governo estuda mudanças na Lei do Silêncio, dentro de um amplo debate, e garante a entrega de espaços culturais reformados até o fim do ano.

    Quanto a verbas para as escolas de samba, Guilherme Reis propõe que busquem recursos da Lei de Incentivo à Cultura, com a apresentação de projetos a serem avaliados, para que, no próximo ano, garantam dinheiro. “É um paternalismo de Estado e uma acomodação de quem está acostumado com emenda parlamentar e com dinheiro do governo”, diz. Mas está disposto a colaborar. “Estou programando para março chamá-los para um seminário sobre captação de recursos”.
    Se a gente pensar nos projetos de ocupação dos espaços, nas praças de gastronomia, na moda, na música. A cidade está viva!"
    "Há uma margem enorme de modernização da Lei do Silêncio. Isso não significa que vamos simplesmente aumentar o som"
    "Esse modelo de o governo pagar 100% do carnaval dificilmente volta porque a realidade em que a gente vive não permite mais"

    Como será o carnaval neste ano em Brasília?
    Vai ser lindo. Eu me lembro da manchete do Correio Braziliense do ano passado, na quarta-feira de cinzas, que dizia “um carnaval para não esquecer”. Acho que vai ser mais um carnaval inesquecível, onde a população vai para a rua, onde a comunidade está se organizando e está se resolvendo cada vez mais, onde a dependência de governo em termos de verba pública deixa ser excessiva.

    Em 2015, com corte  de recursos, aparentemente foi o carnaval mais animado dos últimos tempos. Acha que é uma coisa mais espontânea?
    Acho que sim.Isso reflete uma série de projetos, de ações, de ocupação de espaços públicos, não só no carnaval, mas de uma cidade que está muito viva na área cultural. A gente está vivendo hoje essa crise, por causa da Lei do Silêncio, com muita gente falando, muita discórdia, que eu acho que não corresponde a uma realidade da cidade. Se a gente pensar nos projetos de ocupação dos espaços, as praças de gastronomia, moda, música… A cidade está viva!

    Mas como é que se compatibiliza essa vida na cidade, a vontade de uma grande parcela da população de curtir a cidade, com uma lei que reprime, que manda fazer silêncio às 22h?
    Desde que eu e o André Lima (secretário do Meio Ambiente) e outras pessoas entramos no governo, sabíamos que tínhamos que mexer na lei. Fizemos a tentativa de iniciar essa discussão e começamos no ano passado, envolvendo a comunidade, a linha acadêmica, a Abrasel, os músicos e, infelizmente, a gente ainda não conseguiu tocar para frente.

    Tem uma proposta de um novo projeto que vai para a Câmara Legislativa?
    É. Se eu falo isso aqui, já entra em pânico uma parcela dos moradores que acha que não pode mexer em nada. Não! Isso eu posso afirmar: depois de estudar muito sobre leis do silêncio no mundo inteiro, afirmo que há formas de fazer. Tenho um calhamaço de ideias sobre as quais já me debrucei. Há uma margem enorme de modernização da Lei do Silêncio. Isso não significa que vamos simplesmente aumentar o som embaixo da janela das pessoas, mas vamos avançar.

    Avançar como?
    Vamos chamar especialistas, gente da acústica, acadêmicos, setor da música, setor do empreendimento, do entretenimento, da noite, a Abrasel. Todo mundo tem que estar com o espírito muito mais aberto para agir.

    O que incomoda tanto as pessoas?
    Vou dizer uma coisa, logo de cara. Não é a música que está provocando essa confusão toda. Eu adoraria se todos os estabelecimentos tivessem música ao vivo, mas não é verdade. Muitas vezes, o comportamento dos frequentadores gera essa distorção também. Criou-se um clima de que a Lei do Silêncio e a intolerância estão fechando estabelecimentos e acabando com a música ao vivo. Mas tem outras formas de fazer. Horários diferenciados, dias específicos. Será que sexta-feira e segunda-feira são a mesma coisa? Será que sábado e terça-feira são a mesma coisa? Então, a gente tem uma margem de manobra que precisa pensar. Podemos estimular a ocupação do Setor de Diversão Sul. Não seria bacana?

    Há um projeto do deputado distrital Ricardo Vale (PT) que muda a Lei do Silêncio. Já avaliou? Tem algum avanço?
    Eu já avaliei. Mas acho que ele gera conflito. A proposta aumenta os decibéis e esse aumento é muito agudo. O que eu sei é que eu, como promotor cultural que fazia o Cena Contemporânea ao vivo de graça na Praça da República, com shows maravilhosos, eu sempre me preocupei muito, briguei muito, e exigi: “a festa é feita pra quem está aqui”.

    Mas ali é um espaço aberto maravilhoso, longe de residências.
    É, mas eu já cheguei em casa às 2h da manhã, abri a janela na 105 Norte e escutei “tum tum tum tum tum”. Peguei o telefone e liguei: “Vai abaixando o som”.

    O som de fato ecoa. Dá para ouvir no Sudoeste os shows no Mané Garrincha…
    É uma questão técnica. Se tenho um equipamento de alta tecnologia, caixinhas pequenininhas que têm um som de alta qualidade, não preciso enlouquecer.

    Por que a cidade está tão incomodada com o barulho? Está encaretando?
    É uma campanha dos moradores. Acho que a cidade está envelhecendo, encaretando mesmo. Tem um setor que está sendo empoderado e ficou com uma postura mais reacionária. A postura é pouco inteligente. O que eu acho que falta dos dois lados é razoabilidade.

    E esse debate está sendo muito relacionado à imagem do governador...
    O que é um absurdo! O Jorge Antunes fez até uma marchinha que fala do Rodrigo, fala da cultura e fala que ele fechou o Teatro Nacional. Está de sacanagem. Acho que é uma distorção total. O teatro fechou muito antes de o Rodrigo assumir. E a gente vai cuidar do Teatro Nacional neste ano, do Centro de Dança, do Museu da Arte. Só não retomamos as obras porque tivemos que refazer o projeto, passar na Câmara e no Conplan.

    Com essa crise que o ano de 2015 mostrou que existe no DF, há condições de fazer reforma nesses centros culturais?
    Sim, já estou com o dinheiro. Só não vou fazer o projeto que já tinha sido comprado. Na 508 Sul, por exemplo, contrataram uma empresa que fez seis projetos maravilhosos. A empresa é supercapacitada para isso. Só que o projeto custava R$ 36 milhões para executar, isso com uma estimativa de janeiro de 2015. Mais R$ 220 milhões do teatro, mais R$ 16 milhões para o Memorial dos Povos Indígenas, mais R$ 20 milhões e tanto do cinema, ou seja, impossível. Então, a gente montou um novo projeto sem custo. Vou reabrir o Teatro Galpão todo equipado, vou abrir finalmente a Sala Martins Pena com um cineminha de primeira, vou resolver parte do problema acústico, modernizar tudo, deixar tudo bonitinho e com acessibilidade perfeita até o fim do ano.

    A cultura é prioridade?
    Esse processo de abandono progressivo vem de muito tempo. Também não estou atribuindo ao governo anterior, não. O Hamilton Pereira (secretário de Cultura do governo de Agnelo Queiroz) ainda conseguiu recursos para fazer alguma coisinha aqui, outra ali, a Concha Acústica, o Cine Brasília, comprar esses projetos, mas o Teatro Nacional foi fechado em 2013…

    Há um descaso com a cultura?

    Organizar eventos grandiosos e importantes gastando muita grana em estrutura, com a biblioteca ali ao lado se acabando, não tem sentido. Isso a gente está corrigindo.Também acompanha isso uma discussão sobre uma nova proposta do sistema de cultura, de como as coisas se organizam, a criação de fundos específicos, de manutenção, de captação de recursos, de modernização de tudo. Estamos finalizando alguns estudos para chamamento público de parceria na gestão de vários equipamentos e de colocar para funcionar vários que não funcionam. Por que a gente não tem um restaurante, um café do museu gostoso ali naquela praça?

    Voltando ao carnaval, tem horário mesmo para encerrar os blocos?
    Claro que não. O horário, quem determina são os blocos. Cada bloco apresentou sua programação, seu trajeto, da onde sai, a que horas chega. Isso significa orientar o trânsito, por exemplo. Envolve segurança e tudo o que acompanha o carnaval. Todos eles tiraram o seu alvará junto à administração regional. É o alvará que estabelece.

    Vai ter mais gente que nos anos anteriores?
    Vai ter uma estrutura melhor, mais conforto, até pra quem realiza, mais organização, vai diminuir a despesa dos blocos. Mas, acho que esse modelo de o governo pagar 100% dificilmente volta porque a realidade em que a gente está vendo no mundo não está permitindo.

    O que acha dessa decisão do governador de não repassar dinheiro para as escolas de samba desde o ano passado? Acha que eles deveriam buscar recursos?
    Espero que a gente possa apoiar nos próximos anos. Acho que é importante, trata-se de um segmento que tem o seu valor, mas não tenho a menor dúvida de que a gente tem instrumentos, legislação, ferramentas de captação. Se qualquer um desses blocos e escolas quiser, poderá usar a Lei de Incentivo à Cultura.

    Há uma acomodação das escolas que todo ano tinham recursos liberados?
    É um paternalismo de Estado e uma acomodação de quem está acostumado com emenda parlamentar e com dinheiro do governo. Enfim, nós estamos inteiramente à disposição e eu estou programando para março chamá-los para uma oficina, um seminário sobre captação de recurso para o carnaval. E uma outra coisa: o governo tem que deixar de ser amador em relação ao carnaval. O governo também tem que se profissionalizar na parceria com a iniciativa privada para o carnaval e outros eventos.

    Em relação à liberação de recursos  para eventos e shows por meio de emendas parlamentares, nos últimos anos, vimos muitas denúncias...
    Dos R$ 62 milhões de emendas parlamentares já destinadas no orçamento de 2014, a maior parte, por meio de acordo, foi para a saúde. No finalzinho do ano, a gente executou R$ 482 mil de 38 processos de contratação artística. Para meus projetos, nunca usei emenda parlamentar porque eu não gosto dessa relação de que meu patrocinador é o meu mecenas. Não gosto, mas há quem tenha se profissionalizado nisso.


    Fonte: Ana Dubeux - Ana Maria Campos -  – Fotos: Helio Montferre/Es.CB/D.A.Press - Correio Braziliense

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