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  • domingo, 28 de fevereiro de 2016

    #MOBILIDADE » A difícil rotina das pedaladas

    Os ciclistas Abraão Azevedo (E) e Christian Montalvão disputam espaço com carros no Lago Sul e reclamam da falta de respeito

    O Correio acompanha dois ciclistas em treinamento e flagra diversas situações de risco e desrespeito de motoristas

    Quem se arrisca a deixar o carro na garagem para usar uma bicicleta, apesar de evitar a poluição e desafogar o trânsito, não costuma contar com a compreensão dos motoristas do DF. Pior do que isso, é obrigado a conviver com a pressa e a agressividade de quem disputa espaço, sem considerar que se trata de um veículo desprotegido e até 130 vezes mais leve. Embora seja uma cidade propícia para pedalar, por ser plana e asfaltada, a parca e mal planejada malha cicloviária da capital é outro aspecto que prejudica os que buscam alternativa aos automóveis. Na semana passada, o Correio acompanhou o treinamento de Abraão Azevedo, um dos maiores especialistas em mountain bike do mundo, e flagrou o desrespeito e as dificuldades nas vias de Brasília.

    Apesar de ser multicampeão nas competições em trilhas e nas estradas de chão batido, metade do treinamento de Abraão ocorre no asfalto. Percorrendo as pistas do DF há mais de 25 anos, os problemas com os carros nunca passaram do susto de quase se acidentar (leia Memória). Muitos amigos dele, no entanto, não tiveram a mesma sorte. E ele não precisa ir longe para lembrar atropelamentos de colegas. Há menos de um mês, ao treinar com um grupo, um condutor ignorou a presença das bikes e virou à direita sem dar sinal. Acertou um ciclista e sequer prestou socorro: continuou no carro com as janelas fechadas e o ar-condicionado ligado. Além do perigo, as vítimas amargam prejuízos materiais. Todo o equipamento de Abraão passa dos R$ 30 mil, preço de um carro popular.

    Os índices melhoraram nos últimos anos, mas ainda são de deixar receoso quem pensa em trocar o carro pela bicicleta: praticamente dois ciclistas morrem por mês no trânsito da capital federal. No treino de 30km em que a reportagem acompanhou Abraão e um amigo, o comerciante Christian Montalvão, as situações de risco assustaram o experiente atleta. Os percalços são recorrentes até no trajeto considerado mais seguro de todo o DF: no Lago Sul, saindo da QI 23, passando pela pista principal do bairro e seguindo no sentido Altiplano Leste, de volta para a QI 23.

    No primeiro quilômetro, um coletivo invade a ciclofaixa para cortar caminho na curva. Em seguida, a pista exclusiva para os ciclistas acaba repentinamente e dá lugar a uma parada de ônibus. Enquanto pedala, Abraão tem de soltar uma das mãos do guidão para sinalizar que entrará na pista a fim de ultrapassar o ônibus que embarca e desembarca passageiros à frente. Os carros obedecem e diminuem a velocidade, mas não escondem a insatisfação. “Não somos reconhecidos nem respeitados como um veículo que faz parte do trânsito. Muitos motoristas se aproximam e encostam na gente para ganhar espaço, como se fosse normal”, relata Abraão.
    Os atletas usam os braços e as mãos com frequência para evitar colisões com os veículos maiores. Também deixam de pedalar lado a lado em alguns trechos para ocupar menos espaço na pista
    Estratégia
    Após descer a Estrada Parque Dom Bosco, na altura da QI 23, a dupla chega à via principal do Lago Sul, onde a ciclovia não ajuda. A via reservada para os veículos sem motor é interrompida a cada quilômetro, seja pelas paradas de ônibus, seja pelas entradas das quadras, seja pelas pontes internas no bairro. Para seguir o caminho, em diversos momentos, é inevitável dividir a pista com os carros, o que torna o percurso ainda mais perigoso. “Sem falar dos buracos na rua. Isso é um remendo, apenas pintaram o acostamento e deram outro nome”, reclama Christian.

    Em um cruzamento, o sinal fecha, e os ciclistas não têm lugar para seguir. A ciclofaixa, naquele trecho, torna-se uma parada de ônibus. Nas outras duas vias, um carro e um caminhão impedem a passagem. O jeito é parar e esperar. Na sequência, os ciclistas pegam a DF-001, na subida dos condomínios do Lago Sul, rumo ao Altiplano Leste. O risco aumenta. Ali, não há ciclofaixa, e a pista de apenas uma mão e sem acostamento torna inevitável o desrespeito à lei do trânsito de manter uma distância segura de 1,5m dos ciclistas.

    Abraão e Christian, acostumados a pedalar lado a lado, mudam a estratégia e passam a andar um à frente do outro a fim de ocupar menos espaço. “Isso tudo aconteceu, não podemos esquecer, no lugar em que talvez seja o mais seguro para pedalar de Brasília”, lembrou Abraão, ao completar o percurso. No meio do caminho, eles encontraram alguns amigos que treinavam no mesmo trajeto. “Eles tinham vindo do Gama. Nas cidades mais afastadas, é muito pior”, lamenta o atleta.

    "Não somos reconhecidos nem respeitados como um veículo que faz parte do trânsito. Muitos motoristas se aproximam e encostam na gente para ganhar espaço, como se fosse normal”
    (Abraão Azevedo, ciclista)

    O que diz a lei
    O Código de Trânsito Brasileiro determina que, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, a circulação de bicicletas deverá ocorrer nas vias urbanas. Quando não for possível utilizar a ciclovia ou o acostamento, o ciclista poderá usar a pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. A legislação também estabelece que a autoridade de trânsito poderá autorizar a circulação de bicicletas no sentido contrário ao fluxo dos veículos automotores, desde que dotado o trecho com ciclofaixa.

    Memória - Acidente e ameaça
    No ano passado, uma ciclista teve duas fraturas no maxilar quando pedalava com uma turma. Ela alega que um médico mastologista teria jogado o carro na frente do grupo, causando um acidente. Houve uma série de protestos à época. Em janeiro, um pelotão treinava no Lago Sul numa manhã de domingo, quando, depois de um desentendimento, um motorista emparelhou o carro com as bicicletas e começou uma perseguição. Um ciclista filmava o treinamento e gravou o momento em que ele desceu do automóvel e sacou um revólver a fim de ameaçar o grupo. O condutor era um cabo da PM.

    Cartilha e recomendações
    Multicampeão em mountainbike, Abraão Azevedo pedala de 500km a 600km por semana, sendo metade disso no asfalto. Ele tem 45 anos e faz uma análise histórica da bicicleta na capital: “O boom de carros nos últimos 10 anos agravou a situação. Até o início dos anos 2000, Brasília tinha um trânsito mais tranquilo e seguro”, avalia. Christian, 43, concorda. “Em 2003, eram emplacados, em média, 7 mil carros no DF por ano. Anos atrás, esse número chegou a 12 mil. O governo deu muito incentivo para a população comprar carros e nunca deu atenção às ciclofaixas”, queixa-se.

    Apesar de condenar o comportamento de muitos motoristas, Christian lembra que os ciclistas também têm de obedecer as regras. “Um erro não justifica o outro. Às vezes, por exemplo, vejo gente pedalando no contrafluxo dos carros, o que é muito perigoso e desrespeita as regras”, diz. 

    A ONG Rodas da Paz tem cartilhas para estimular a educação no trânsito. Em reunião com o Departamento de Trânsito (Detran) neste ano, a instituição fez recomendações ao órgão. “É preciso reforçar para os motoristas, e a população em geral, sobre a conduta correta em relação aos ciclistas. Temos direito de usar a via e devemos ser respeitados, mesmo quando houver ciclovia, A preferência em cruzamentos rodocicloviários é da bicicleta, de modo que os condutores devem oferecer a preferência nas travessias. Também recomenda-se fortemente sugerir que motoristas mudem de faixa para ultrapassar uma bicicleta no trânsito”, sugere o texto entregue ao governo.


    Fonte: Matheus Teixeira – Fotos: Minervino Junior/CB/D.A.Press – Correio Braziliense

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