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  • segunda-feira, 14 de março de 2016

    A solidão do poder


    Por: Ivan Iunes

    Quando a primeira manifestação antigoverno Dilma Rousseff foi às ruas, há um ano, a oposição, em sua maioria, decidiu ficar em casa. Apoiava o movimento, mas adotou a estratégia de manter distância regulamentar dos protestos. A estratégia era cautelosa, já que os ecos de junho de 2013 — quando o grito era contra tudo e contra todos — ainda se mantinham vivos. Um ano depois, a situação do governo piorou. A avalanche contra Luiz Inácio Lula da Silva veio impiedosa, a economia desce morro abaixo e a delação premiada de Delcídio do Amaral (PT-MS) deve atingir diretamente o Palácio do Planalto. No cálculo político, o clima permitiria um movimento mais arriscado. Os principais atores oposicionistas convocaram diretamente a população às ruas. E se programaram para triunfar. Só que a recepção negativa a praticamente todos eles mostra que o jogo político é mais complexo do que parece.

    Análise das redes sociais elaborada pelo pesquisador Fábio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mostra que o movimento de ontem não foi restrito à direita ou aos conservadores. Qualquer tentativa de desqualificar o protesto por esse caminho, sendo assim, é um erro. Ele foi eclético e atingiu de forma mais forte o governo Dilma Rousseff, mas não poupou gestões estaduais de PMDB e PSDB, por exemplo.

    Em relação aos protestos do ano passado, a polarização das redes entre governo e oposição se desfez. Os que eram pró-Dilma Rousseff se mantiveram, cada vez mais isolados, dialogando apenas entre si. A parte da oposição, antes dominada por movimentos conservadores se dissipou, formando um grupo heterogêneo. Em resumo, os governistas terminaram humilhados, a oposição tradicional foi expulsa da festa e os neoconservadores organizam, mas não controlam as manifestações. As ruas estão divorciadas do Poder. Até aqui, não há um ator político que tenha conseguido construir uma ponte até esse novo eleitor.

    Todas as pessoas que saíram para protestar neste domingo são contra a corrupção, por óbvio. Foi uníssono o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, o apoio à Lava-Jato, e o sentimento de repulsa ao PT. O consenso, no entanto, terminou aí. Os possíveis cenários pós-Dilma não agradam à maioria. Caso a chapa Dilma-Temer seja cassada por crimes eleitorais depois de dezembro, a eleição para presidente será indireta, restrita a um Congresso dominado pelos peemedebistas e que consegue ser tão impopular quanto Dilma Rousseff. No outro, o afastamento pelo Senado, quem assume é Michel Temer. Em ambos, ninguém ganharia mais do que o PMDB. O problema é que caciques da legenda também foram hostilizados pelas ruas, especialmente os presidentes das duas Casas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

    A impressão que se tem dos protestos é de que a saída do governo atual é ponto comum a todo manifestante que foi às ruas ontem. O que fazer depois parece ser uma discussão que a maioria prefere protelar. Mas há um porém aí. Depois que um governo cai, as composições políticas se movimentam, quase sempre sem que a vontade da rua seja ouvida. O “depois a gente discute” nunca sai como o imaginado. E a ordem política atropela as demais. Com a queda de Dilma, quem assumirá o poder é o PMDB. E ponto.

    O fato é que não foi surpresa para o Palácio do Planalto o tamanho das manifestações desse domingo. O governo vive, de longe, a sua pior fase. E não dá mostras de ter forças para dialogar com a sociedade ou virar o jogo da comunicação ou na economia. Com a Lava-Jato na antessala de Lula, a situação ficou insustentável. Principalmente, porque nem o mais otimista dos petistas é capaz de apostar que o partido conseguirá reunir gente nas ruas para abafar as manifestações de ontem. Os protestos de quarta-feira e do dia 31 certamente reunirão um contingente maior de defensores do PT do que os do ano passado — principalmente depois do heterodoxo pedido de prisão preventiva contra o ex-presidente. É ingenuidade acreditar, no entanto, que reúnam, em um dia útil, uma multidão próxima da registrada ontem.




    Por: Ivan Iunes – Correio Braziliense 

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