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  • sexta-feira, 1 de abril de 2016

    FALECEU: ZAHA HADID » Dama da arquitetura reverenciava Brasília

    A arquiteta mais famosa do mundo morreu, na manhã de ontem, vítima de ataque cardíaco, em Miami. No último dia 11, a iraquiana, de 65 anos, confidenciou ao Correio ter recebido influências de Oscar Niemeyer e elogiou os traços da capital

    O primeiro contato com a arquitetura ocorreu durante a infância em Mossul, no norte do Iraque. A maquete da casa do tio fascinou a pequena Zaha Hadid, então com 6 anos. Poucas décadas depois, ela se tornaria a arquiteta mais famosa do mundo. Em 2004, recebeu o Prêmio Pritzker, tão prestigioso quanto um Nobel. Foi condecorada pela rainha Elizabeth II como Dama Comandante do Império Britânico, em 2012. As obras da iraquiana, espalhadas pelos cinco continentes, são marcadas pelo desconstrutivismo, pelo caráter visionário dos traçados e pelo desenho não linear. Na manhã de ontem, Zaha Hadid sofreu um enfarte fulminante, aos 65 anos, em um hospital de Miami. A morte prematura foi lamentada pelas redes sociais, e os rumores de que se tratava de mais um boato foram desmentidos pelo escritório de Hadid, baseado em Londres. “É com grande tristeza que os Arquitetos Zaha Hadid confirmam que a Dama Zaha Hadid faleceu subitamente em Miami, nas primeiras horas desta manhã. Ela havia contraído bronquite nesta semana e sofreu um súbito ataque cardíaco enquanto era tratada no hospital”, afirma o comunicado à imprensa. “Zaha Hadid era amplamente considerada a maior arquiteta mulher do mundo.

    No último dia 11, ela falou com exclusividade ao Correio. Em uma das últimas entrevistas concedidas a um veículo de comunicação, Hadid confidenciou ter recebido influências de Oscar Niemeyer e elogiou o seu maior legado, Brasília — ela visitou a capital por várias vezes. “A sensibilidade espacial de Oscar Niemeyer e seu talento são únicos e insuperáveis. Seu trabalho me encorajou a desenvolver a minha própria linguagem arquitetônica de fluidez total”, afirmou. Para a iraquiana, a capital do Brasil carrega dentro de si um senso de vitalidade e de otimismo. Ela descreveu os encontros que teve com Niemeyer; citou a sustentabilidade ecológica e a disparidade social como os principais desafios da arquitetura; comentou a paixão pela profissão; e se negou a apontar uma obra preferida. Entre os principais trabalhos de Zaha Hadid, estão a Ópera de Gangzhou, na China; o Centro Aquático e a Sackler Gallery, ambos em Londres; o Centro Heydar Aliyev, em Baku, capítal do Azerbaijão. Em 2018, o escritório de Hadid vai concluir o seu único projeto no Brasil, a Casa Atlântica (veja foto abaixo), no Rio de Janeiro. 
    O estilo de Oscar Niemeyer afetou seu próprio estilo de algum modo?
    A sensibilidade espacial de Oscar Niemeyer e seu talento são únicos e insuperáveis. Seu trabalho me encorajou a desenvolver a minha própria linguagem arquitetônica de fluidez total. Muitos arquitetos daquele período experimentaram com a forma. Mas Niemeyer empurrou o seu trabalho a um nível mais alto, utilizando todas as vantagens da tecnologia do concreto daquela época para criar aquelas formas maravilhosamente fluidas. Niemeyer esteve entre os primeiros arquitetos quando se fala sobre arquitetura orgânica, em termos de como o projeto das construções é cuidadosamente pensado, como se fosse um organismo unificado. Seu trabalho sobre composição arquitetônica e expansão do repertório formal do modernismo foi importante. O que Niemeyer mudou drasticamente foi a criação de um plano espacial organizacional para se mover através do espaço. Cada camada de suas obras poderia ser bem diferente, mas suas transições contínuas dentro do projeto permitiram que os complexos desenhos parecessem sem esforços e suaves. A importância de Niemeyer para a arquitetura do século 20 não pode ser subestimada.

    A senhora percebe traços de modernidade na arquitetura de Brasília, ainda que ela tenha sido criada no fim da década de 1950?
    Brasília demonstra que a arquitetura não segue ciclos de moda ou econômicos — ela obedece aos ciclos de inovação gerados pelos desenvolvimentos sociais e tecnológicos. Os projetistas e planejadores de Brasília estavam comprometidos em levantar padrões dos locais onde as pessoas vivem e trabalham, usando desenho inovador e técnicas de construção que estavam na vanguarda da tecnologia para a época. A arquitetura de Brasília carrega dentro de si esse senso inerente de vitalidade e de otimismo. Ela criou espaços públicos chaves. Creio que as cidades devem investir nesses importantes locais cívicos, onde as pessoas podem se conectar umas às outras. Um centro comunitário, um museu de artes, um parque público... Esses projetos cívicos vitais são acessíveis a todos — eles unem a cidade, mantêm o tecido urbano coeso. Todas as cidades se tornaram muito mais populosas — e bem mais diversificadas. Elas devem atender a toda uma gama de pessoas com culturas, experiências e influências diferentes. Como arquiteta, considero nosso cliente não mais um único indivíduo ou um tipo único de pessoa. O cliente de hoje é todo o mundo. Isso tem sido realmente excitante e adiciona riqueza às nossas cidades.

    A senhora esteve alguma vez com Niemeyer? O que discutiram?
    Sim, estive com ele por várias vezes; em Brasília e em sua casa no Rio, a Casa de Canoas. É uma obra-prima e uma lição de como atingir algo com linhas simples. A arquitetura é como a escrita — você deve editá-la e reeditá-la, de novo e de novo, até que ela se pareça sem esforço. Niemeyer e eu discutimos a importância da arquitetura para o bem-estar de todos; criando ambientes prazerosos para todos os aspectos da vida. Também falamos sobre criar ambientes que possam elevar, entusiasmar, inspirar as pessoas.

    Por que e como a senhora se interessou pela arquitetura?
    Meus pais eram interessados em arquitetura de um modo indireto. Minha memória mais antiga da arquitetura — provavelmente eu tinha uns 6 anos — foi de meu tio construindo uma casa em Mossul, no norte do Iraque. O arquiteto era amigo de meu pai e ele costumava ir à nossa casa com desenhos e modelos. Eu me lembro de ver o modelo em nossa sala de estar. Aquilo despertou algo em mim. Fiquei intrigada.

    Na sua opinião, por que esse ramo é tão apaixonante e atraente?
    A sustentabilidade ecológica e a disparidade social são os desafios de nossa geração. A arquitetura da inclusividade oferece soluções. Nós devemos estar comprometidos em levantar padrões. Ter uma casa é crucial — não apenas em termos de abrigo ou de necessidades básicas, mas para o bem-estar e uma vida melhor. A habitação social, os hospitais e infraestruturas vitais têm sido baseados no conceito de existência mínima — o que não deveria ser o caso. Os arquitetos possuem as habilidades e as ferramentas para abordar temas importantes, e muitas comunidades ao redor do mundo estão comprometidas em resolvê-los. A arquitetura pode ajudar na reorganização de padrões de vida, de modo significativo, para que todos possam contribuir com uma sociedade mais ecológica e socialmente sustentável. Nós podemos criar prédios que otimizem o ambiente para atender às necessidades dos usuários e mudar padrões climáticos. Pesquisamos materiais, técnicas de projeto e métodos de construção que tragam benefícios ambientais. Como essas diferentes camadas de desenvolvimento — sustentabilidade e aplicabilidade dos materiais — vêm juntas, começamos a encontrar soluções para desafios ecológicos urgentes. Minha tarefa é continuar com esse progresso. Devemos casar os novos conceitos de acessibilidade e de integração com os avanços incríveis em materiais ecológicos e em práticas de construção. Não devemos olhar para partes separadas, mas entendê-las como um  todo.

    De todos os seus trabalhos, qual o mais fascinante?
    É uma pergunta muito difícil. É como pedir a um pai que escolha qual dos filhos é o favorito. Nós temos desafios únicos em cada projeto — o local, o uso, as exigências programáticas, o ambiente ao redor. Cada projeto é uma experiência diferente. Cada um traz entusiasmo, oportunidades, desafios, ideias, problemas a se resolver. Cada projeto é um resultado muito específico de como o contexto, a cultural local, as exigências programáticas e a engenharia inovadora vêm juntos, permitindo à arquitetura, à cidade e à paisagem se combinarem perfeitamente, tanto em termos de estratégia formal, quanto de experiência espacial. 

    Perfil
    Nascida em Bagdá, em 1950, Zaha Hadid estudou matemática na Universidade Americana de Beirute. Em 1972, afiliou-se à Associação de Arquitetura de Londres. Sete anos depois, fundou o escritório Arquitetos Zaha Hadid, onde construiu reputação mundial com trabalhos teóricos inovadores, incluindo The Peak, em Hong Kong (1983); o Kurfürstendamm, em Berlim (1986); e a Cardiff Bay Opera House, em Gales (1994). Mostrou interesse pela relação entre arquitetura, paisagismo e geologia e usou técnicas inovadoras. Em 2004, tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Pritzker. Acumulou outras honrarias, como a de Comandante da Ordem das Artes e das Letras, da França; Dama Comandante do Império Britânico; e o Prêmio Imperial, do Japão.

    A primeira e única obra no Brasil
    Em 2018, Zaha Hadid deixará a sua marca no Rio de Janeiro, quando o prédio conhecido como Casa Atlântica deverá ser finalizado. Único projeto no Brasil, a construção se inspirou nas formas naturais da capital fluminense, na qualidade maleável e elástica gerada pelos morros e praias dentro do tecido urbano, e no caráter dinâmico de Copacabana. De acordo com o escritório Arquitetos Zaha Hadid, o projeto da Casa Atlântica preserva “a composição e o fluxo espacial inerentes á rica tradição modernista do Brasil, ao interagir com o tempo único e a vitalidade da cultura da praia urbana de Copacabana, bem como com a fluidez do famoso calçadão de Burle Marx”. “Ao trabalhar dentro das restrições do local, controlando a altura e a distância dos prédios vizinhos, o projeto da Casa Atlântica estabelece uma ordem fluida, que se transforma e se expande em cada nível, a fim de definir varandas generosas”, explica o comunicado do escritório. A previsão é de que as obras comecem ainda este ano.



    Fonte: Rodrigo Craveiro – Fotos: Alberto Heras – Divulgação – Correio Braziliense

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