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  • sábado, 23 de abril de 2016

    O Conic que queremos - (Como queria Dr. Lucio Costa)

    “Villa-Lobos era um cara muito doido. Tocava violoncelo. Gostava de misturar erudito e popular. Acho que ele ia curtir essa parada aqui”, situou Esdras Nogueira antes de soprar no seu sax barítono uma das Jamaichianas Brasileiras, e encher de good vibes o Teatro Dulcina de Moraes na quarta-feira passada. Noite especial, com ingressos módicos (a partir de R$ 5, a critério do pagante) e casa cheia, que estremeceu ao som do reggae/dub do Esperando Rei Zula e das invenções roqueiras do Lista de Lily, a outra banda escalada. Noite para lavar a alma e ver o Conic novamente vivo, novamente Setor de Diversões Sul.

    Não foi um episódio isolado, fogo de palha. Em 1º de abril, assisti a um show memorável do guitarrista Pedro Martins naquele mesmo palco. Pedro, para quem ainda não teve a chance de ouvir, é um dos músicos mais completos da nova geração. Nascido no Gama, 22 anos, vem sendo louvado pela crítica internacional e, quando penso que ele continua acessível aos brasilienses, só me vem à mente a palavra “privilégio”. Mais uma vez, o público prestigiou o artista, ocupando quase todos os assentos do velho teatro. Pude perceber muitos rostos jovens, gente que pisava no Conic pela primeira vez e não escondia o deslumbre de descobrir um lugar “novo” e “autêntico”, apesar das quase cinco décadas de atividade do setor.

    Esse renascimento não escapou ao radar da jornalista Juliana Contaifer, que escreveu uma reportagem minuciosa sobre o assunto para a Revista do Correio, publicada em 3 de abril último. O texto rememora as intenções originais de Lucio Costa quando destinou as proximidades da Rodoviária do Plano para o lazer. Ele queria algo que reunisse características da Rua do Ouvidor, no Rio; da Times Square, em Nova York; da Champs Elysées, em Paris; e do Piccadilly Circus, em Londres. Por isso, previu um centro comercial que conjugasse não só lojas, bares e cafés, mas cinemas e teatros. A vizinhança entre as atrações, bem como o acesso facilitado, levariam inexoravelmente a uma vida cultural fervilhante.

    Assim planejou o grande urbanista, mas os desígnios se cumpriram desigualmente. Como se sabe, o Conic passou por várias ondas de decadência, a mais recente relacionada à expansão do consumo de crack no centro da cidade. Nada que quebre a firme determinação do livreiro Ivan da Presença, cujo quiosque sobrevive no miolo do SDS, mas volta e meia é ameaçado de despejo (há mais uma tentativa em curso neste exato momento). As adversidades tampouco afugentam os membros do movimento Dulcina Vive!, responsáveis por vários dos projetos de revitalização do subsolo do Conic. Na base do mutirão, eles vêm realizando benfeitorias no local e, com o dinheiro angariado em festas, mantêm em dia o salário dos professores do curso de artes cênicas.

    O poder público parece estranhar essas e outras iniciativas. É o que se depreende a ação da PM na semana passada. Motivados por uma denúncia anônima, dúzias de militares armados encerraram uma balada no Dulcina com um baculejo coletivo, não sem antes fazer uso de gás de pimenta. Não encontraram nada, não havia qualquer irregularidade, e o alvará de funcionamento estava em dia. Por fim, levaram para averiguação um dos organizadores do evento, ignorando o termo de cooperação e gestão do espaço mantido com a Fundação Brasileira de Teatro. Três dias depois, o governador veio a público se desculpar. Ainda bem. Está bem claro que o Conic nunca será a Times Square. Mas nós o aceitamos (e o queremos) como ele é.


    Por: Gustavo T. Falleiros – Correio Braziliense -Foto/Ilustração: Blog – Google 

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