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  • sexta-feira, 6 de maio de 2016

    Sustentabilidade urbana: utopia ou esperança? - - (Por: Aldo Paviani)

    À medida que o crescimento urbano vai acontecendo, impulsionado ou não por novos investimentos e iniciativas imobiliárias, mais desafiadores se tornam os anteparos que a administração pública e as empresas enfrentarão. Atualmente, não são as migrações as responsáveis pelo caos urbano das metrópoles brasileiras e sim a falta de políticas públicas que freiem o inchaço populacional. Exemplo clássico é a falta de políticas habitacionais e de atividades econômicas que criem postos de trabalho próximos às moradias. Nessa abordagem se incluiriam as políticas visando descentralizar essas atividades para os anéis externos das cidades. Estas, ao evoluir e ocupar os respectivos territórios, tendem a manter concentradas as atividades sociais e econômicas, o que alonga os deslocamentos diários dos trabalhadores em razão da congestão do tráfego. É difícil romper a inércia locacional, pois em muitos casos atividades geram cadeias de produção e oferta de serviços ancilares, que proporcionam economia de escala pela contiguidade territorial.

    Essas economias de aglomeração, que resultam em trânsito caótico, complicam as metas de sustentabilidade urbana. Portanto, desejamos indicar que há muitos obstáculos para os que desejam fazer da sustentabilidade uma meta a atingir, ao longo de um tempo determinado e em territórios populosos como os das metrópoles. Avalia-se que há um longo caminho a percorrer para se chegar ao conforto nos deslocamentos diários e à sustentabilidade urbana, tal como muitos setores da sociedade advogam.

    Nesse caso, se traduzirmos sustentabilidade por durabilidade, o desejável seria que a mobilidade fosse fluida de modo a não gerar perda de tempo e custos (monetários e físico-psíquicos) para os que se deslocam diariamente, nas primeiras horas da manhã para chegar ao trabalho e, ao fim do dia, para o retorno ao local de moradia. Ademais, a concentração de atividades não permite que todos os que se deslocam com automóveis tenham espaços para estacionar, como aconteceu no Aeroporto JK, onde a praça Santos Dumont foi desafetada para ampliar o estacionamento. Onde estacionar é o grande desafio a vencer para milhares de pessoas pela ineficácia do equipamento em transporte de massa. 

    Ao preferir o uso do automóvel, as pessoas enfrentam a falta de vagas  (pagas ou não) no centro do Plano Piloto. Assim, não se poderia desejar que, pelo lado da mobilidade, as cidades sejam sustentáveis, pois, em sã consciência, ninguém assumirá que nossas metrópoles, em especial Brasília, pudessem manter como “duráveis” os intensos congestionamentos no centro da Capital e nas diversas estradas parque e BRs que se irradiam em direção a todos os pontos cardeais.

    Todavia, há esperança, no médio e longo prazos, para que sejam aumentadas as linhas de metrô e se implantem veículos leves sobre trilhos, capazes de transportar os que se deslocam para o trabalho e para a procura de bens e serviços oferecidos por Brasília. Se esses bens e serviços, bem como oportunidades de trabalho, fossem oferecidos no colar externo da capital, teríamos tráfego nos dois sentidos, o que poderia atender minimamente um sistema de mobilidade sustentável. Ao se manter as condições atuais, no entanto, não há como chegar à desejável, mas utópica, sustentabilidade.

    O mesmo se poderá dizer de outra condição para a sustentabilidade — a qualidade ambiental. Na marcha do crescimento, Brasília foi perdendo massa vegetal pelo caráter extensivo do uso do território. Bairros foram criados no DF tendo como primeira medida a “limpeza do terreno”: o Cerrado deu lugar a blocos e conjuntos habitacionais, nos quais o asfalto e o cimento impermeabilizaram o solo, afogando nascentes e evitando a penetração da água em direção aos lençóis freáticos. Em razão da grande quantidade de obras, atendendo às demandas habitacionais crescentes, o efeito colateral ambiental em curso é a necessidade de se buscar água para a demanda crescente em lugares mais distantes — como poderá ser a captação de água do reservatório de Corumbá IV ou mesmo do reúso de água do Lago Paranoá.

    De qualquer modo, as duas alternativas acarretarão custos para o abastecimento de água potável. Portanto, a sustentabilidade fica comprometida, no caso da eliminação de árvores, rios e riachos. Isso significa admitir que não se atingirá a sustentabilidade se o crescimento urbano resultar em aniquilação de recursos naturais necessários para a vida humana. Cabe, portanto, perguntar: que qualidade socioambiental desejamos para Brasília? Teremos algo assemelhado à sustentabilidade urbana?


    Por: Aldo Paviani - Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e, diretor da Deura/Codeplan – Foto/Ilustração: Blog-Google

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