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  • domingo, 19 de junho de 2016

    Olhar Brasília

    Por: Severino Francisco

    A maneira de olhar muda tudo. Uma boa parte dos jornalistas forasteiros chega a Brasília com ideias prontas e frases feitas. Na contracorrente, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Caetano Veloso e Paulo Mendes Campos se relacionaram intensamente com a cidade, sem teorias ou teses fechadas. Por isso, lançaram miradas reveladoras sobre Brasília.

    O cronista mineiro Paulo Mendes Campos também marcou e deixou-se marcar por Brasília. Ele tinha muitos amigos por aqui e escreveu uma bela crônica intitulada Os seis sentidos em Brasília. Onde muitos convencionais ou apressados só viram defeitos, ele vislumbrou qualidades: “É boa para os olhos. Nas outras cidades grandes, onde não devia haver nada, há um monturo de edificações: em Brasília, onde não deve haver nada, não há nada. Descansa os olhos. Possui as riquezas elementares que foram mutiladas em outras cidades: céu cor de céu, vegetal verdade, água tranquilizante. Até os cegos podem ver Brasília pela vibração sutil e confortante dos espaços abertos”.

    Mas Brasília, segundo Paulinho, é também boa para os ouvidos, e reclamar do barulho de certas superquadras é um luxo. Os ruídos do trânsito perdem a agressividade ao se diluírem nos descampados do planalto: “Mas é natural que o brasiliense reclame do ruído, onde este só aparece para dizer que existe; os habitantes do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, se quiserem manter a mesma coerência, deverão reclamar do silêncio, caso este dê o ar de sua graça”.

    Brasília seria boa ao nariz. Não agride o olfato de ninguém. E também é excelente para o paladar, pois existe uma conexão íntima entre o tempo disponível e a imaginação na cozinha. Além disso, a nova capital não nos constrange pelo tato: “A transpiração não nos escorre pelo pescoço”.

    O sexto sentido de Brasília seria o calor humano e, neste item, PMC discorda da afirmação de que a cidade seria tão gélida quanto a Antártida. Ele fez uma pesquisa informal e não chegou a nenhuma conclusão sobre “a instável, contrastante e relativa escala térmica das relações humanas”.

    Se Paulo Mendes Campos estivesse vivo e nos visitasse, veria que muitas coisas mudaram. Graças ao tombamento como Patrimônio Cultural da Humanidade e à luta de moradores mobilizados, Brasília continua plasticamente bela, cidade espacial, com o céu escancarado nos convidando a grandes voos. O odor já não é impecável, principalmente nas quadras finais das asas Norte e Sul (próximo das estações de tratamento da Caesb), detrás do Senado ou em frente ao bairro Jardim Botânico.

    É possível comer bem nos restaurantes, desde que você possa pagar em surreais, a moeda cada vez mais imperante na capital. Apesar dos descampados diluidores de ruídos, os carros se trombam agressivamente nas largas avenidas. Brasília precisa encarar enormes desafios para preservar a sua identidade e se desenvolver. Mas, de qualquer maneira, é prazeroso e instrutivo reler PMC. Ele nos ensina a arte de ver uma cidade com olhos livres. É bom para os olhos e para o espírito. Descansa.


    (*) Severino Francisco – Colunista – Correio Braziliense – Foto: Bento Viana


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