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  • domingo, 28 de agosto de 2016

    O urbanista do infinito - (De repente, a cidade vira um ar, um sopro e flutua”.)


    Por Severino Francisco

    A proximidade com o infinito é um privilégio lírico e metafísico de Brasília. E devemos tal graça, em grande parte, a Lucio Costa, o criador do plano urbanístico da nova capital do país. Lucio desenhou os projetos da Rodoviária e da Torre de Televisão, mas a grande obra em Brasília foi planejar a composição do espaço como se fosse um artista plástico que concebesse uma instalação, dispondo a Praça dos Três Poderes, os edifícios públicos da Esplanada dos Ministérios, a Rodoviária, as superquadras residenciais, as manchas verdes, os vazios, a vegetação áspera e o céu em tensão dramática ou em harmonia musical: “Ao contrário das cidades que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado deserto de encontro a um céu imenso, como em pleno mar, a cidade criava a paisagem”, escreveu o urbanista. Quer dizer, foi Lucio Costa quem nos colocou pertinho do céu.

    Nos tempos em que concebeu a capital modernista, o doutor Lucio nunca havia pisado no Planalto Central, mas dos 360 graus de horizonte aberto, com abóbada celeste, ele sempre soube. Por quê? A arquiteta e filha Maria Elisa Costa fornece uma pista preciosa. Lucio sempre viajou muito de navio, não apenas menino, mas homem feito, não achava graça em trafegar de avião.

    E, por incrível que pareça, os primeiros esboços de Brasília foram feitos a bordo de um navio argentino, chamado Jachal, da Flora Mercante de Estado, voltando de Nova York, onde tinha ido receber um prêmio da Parsons Scholl of Design, no fim de 1956. Ou seja, logo depois de se inscrever no concurso para o Plano Piloto.

    Esses 12 dias a bordo, sem telefone, sem interrupção, com total disponibilidade de tempo, permitiram que a concepção do Plano Piloto fosse amadurecida em curto prazo e diante dos mesmos 360 graus de horizonte, com o céu encostando no mar, como no Planalto, incríveis poentes, firmamento estrelado e lua cheia.

    Quando comprou um apartamento na 405 Norte, o que mais agradou a meu pai, um sertanejo pernambucano obcecado pela água, foi a vista de uma das janelas para o Lago Paranoá. De quase qualquer ponto do Plano Piloto é possível se deparar com o céu aberto, os horizontes amplos, as manchas verdes e a arquitetura branca da cidade espacial. Essa escala derramada faz bem aos olhos e convida ao devaneio.

    Ao limitar o gabarito dos prédios das superquadras a seis andares, Lucio permitiu uma visão panorâmica de qualquer ponto da cidade, impedindo que a especulação imobiliária apagasse o céu ou a paisagem. É como se o ponto de vista de Rubem Braga fosse transformado em escala arquitetônica. O traço de Lucio Costa é algo de extrema delicadeza que permitiu uma interação cotidiana do brasiliense com a esfera celeste.

    Se eu organizasse roteiros turísticos, incluiria certamente um passeio pela Entrequadra 202 Norte comercial, pois lá foram erguidos prédios que perturbam a relação com o céu concebida por Lucio Costa. Esse é o perigo que ameaça Brasília. São prédios que apagam o infinito. Ali, por contraste, a gente percebe a relevância do urbanista para a construção da beleza na cidade.

    O poeta Francisco Alvim captou com muita perspicácia e sensibilidade a sutileza da intervenção de Lucio Costa ao conceber Brasília: “Lucio Costa pousou Brasília sobre o cerrado com uma perfeição e harmonia impressionantes com o cosmos. Lucio é um gênio absoluto. De repente, a cidade vira um ar, um sopro e flutua”.



    (*) Severino Francisco – Colunista do Correio Braziliense - Foto/Ilustração: Blog - Google

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