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  • segunda-feira, 19 de setembro de 2016

    #CRISEHÍDRICA: Serra da Mesa agoniza na maior estiagem da história - (O Lago da Serra da Mesa é 37 vezes mais extenso que o Paranoá, O abastecimento elétrico em Goiás e no DF dependem do reservatório.)

    Há 18 anos, Antônio Almeida sobrevive da pesca: "Se o lago acabar, a vida de muita gente também acaba
    Iraci teve que fechar o restaurante flutuante: "Quando vou dormir, fico pensando o que será da gente

    Uruaçu (GO) — O maior reservatório em volume de água da América Latina vive a maior crise dos últimos 15 anos. Desde o início da obra, iniciada em 1998, esse é o pior momento do Lago da Serra da Mesa, distante 200km de Brasília, de acordo com registros históricos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A celeuma tem uma responsável: a seca. O aquífero está com apenas 11,96% da capacidade total. A marca negativa na régua de medição só não é mais baixa que o pico de 9,35%, alcançado em 2001. A Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, instalada em Minaçu, no extremo norte goiano, é indispensável para o atendimento do mercado de energia elétrica das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. O abastecimento elétrico em Goiás e no DF dependem do reservatório. (Vídeo;)
    Os impactos vão além das cifras de geração de energia elétrica — 150 pescadores atuam na região e cerca de 600 famílias vivem da pesca da tilápia na represa. Os 1.874 quilômetros quadrados de área inundada podem armazenar até 54,4 bilhões de metros cúbicos de água — hoje, o volume não chega a 6,5 bilhões de metros cúbicos. O Lago da Serra da Mesa é 37 vezes mais extenso que o Paranoá, em Brasília, e o quarto maior do Brasil. Apesar da imponência, onde havia beleza, restou terra seca e poucas certezas para o futuro. A região costumava receber até 30 mil turistas na alta temporada. Hoje, o comércio amarga a mais severa crise da década. Lojas, restaurantes e pousadas fecharam. As imagens da prosperidade do turismo, da pesca recreativa e dos esportes aquáticos ficam na memória dos moradores da região.

    Apesar de a crise ter batido mais forte agora, os sinais da escassez de chuva são notórios nos últimos cinco anos. Desde 2011, o pico negativo do lago é cada vez mais implacável. Naquele ano, o nível mais baixo foi de 56,72%. Não parou de cair. Em 2012, marcou 39,68%. Em 2013, 29,12%. Em 2014, 25,67%. No ano passado, 12,9% em dezembro — comumente o mês mais austero (veja gráfico). Formado principalmente pelos rios Tocantins, das Almas e Maranhão, as águas parecem estar cada vez mais distante do povo que construiu vida no rescaldo das ondas do lago no cerrado. O que era sonho, no fim da década de 1990, tem se tornado cada vez mais um poço assoreado de pesadelos.

    O lago Serra da Mesa perde, em média, 1% de volume de água por semana: margem recuou 3km em Uruaçu

    Penúria
    O lago Serra da Mesa perde, em média, 1% de volume de água por semana: margem recuou 3km em Uruaçu

    O Correio percorreu 1.090km, passou por três municípios e conheceu comunidades que estão devastadas pela estiagem. A cada metro que a margem do lago avança, crescem, em consonância, o desespero e a frustração. A baixa da água tirou de casa dois filhos do barqueiro Iraci Araújo, 57 anos. Há 19 anos, ele abandonou a carreira de analista bancário para se dedicar ao balneário. Para se ter ideia da crise, das 28 casas flutuantes do local, normalmente alugadas por turistas, restaram apenas nove — nenhuma está ocupada. Iraci tocava um restaurante flutuante com capacidade para 180 pessoas. Ancorou a embarcação. “Quando vou dormir, fico pensando o que será da gente. Me dá um sentimento muito ruim. Mesmo nessa situação, eu vivo daqui”, diz emocionado.

    Entre as lembranças, Iraci ressalta um acidente com uma lancha. A colisão ocorreu com uma pedra, distante 3km do local onde hoje é uma extensa camada de lama, rejeitos e tristeza. Quando o governo fechou as comportas para encher o lago, há quase duas décadas, uma rodovia e uma ponte que ligavam Uruaçu a Niquelândia foram desativadas. A pista, agora, está à mostra. A ponte começa a evidenciar o parapeito.

    Na estrutura que deu lugar à antiga via, estão as marcas indeléveis da estiagem. As largas pilastras, antes cobertas de água, a cada dia, ficam mais à mostra. Até parecem recontar a música I-margem, de Paulo Araújo: Há um rio afogando em mim / Secando, secando, secando / Tem rompante os mistérios que já vi / Esperando, esperando, esperando o fim.

    Na pousada onde havia nove funcionários, restou somente a dona. Ivonete Rodrigues da Silva ocupa parte do tempo fazendo os serviços de manutenção do local e quebrando a cabeça com cálculos para tentar equilibrar as despesas. O local com capacidade para 48 ocupações, quando tem um fim de semana movimentado, recebe duas. “Ficou um lugar feio, com a baixa d’água tão severa. Os clientes perguntam por que está assim e quando tudo vai voltar ao normal. Não temos respostas. Vários ribeirões, riachos e açudes da região estão completamente sem água”, desabafa Ivonete. Na quinta-feira, ela limpava a mobília empoeirada e o chão.
                 Apenas nove das 28 casas flutuantes à seca: turistas sumiram da região

    6,5 bilhões
    É o volume atual, em metros cúbicos, de água no reservatório 

    20 toneladas de peixe morto
    A cada sete dias, o nível do lago recua 1%, segundo estimativa da Agência Goiana de Piscicultura (AGP). Desde janeiro, cerca de 20 toneladas de peixe morreram. No mesmo período do ano passado, a Cooperativa de Piscicultura de Uruaçu mantinha 70 tanques de produção. Não restou nenhum. Um frigorífico com capacidade de processamento de duas toneladas de peixe por semana está desativado. O investimento do governo federal no setor foi de R$ 3 milhões.

    Na casa do pescador Antônio Machado de Almeida, 51, seis pessoas sobrevivem do pescado. Há 18 anos, essa é exclusivamente a fonte de renda da família. “Se o lago acabar, a vida de muita gente também acaba. O único jeito é rezar para que chova. Já aconteceram baixas no lago, mas nunca atingimos uma situação tão complicada”, lamenta. É em uma canoa voadeira que Antônio conta sua história. A paisagem enlameada trucida os sonhos daquelas famílias. O pescador ressalta os “paliteiros”, que, na verdade, são restos de troncos que estavam submersos. “Os pontos mais largos do reservatório tinham 30km.”

    Em uma câmara de resfriamento, estão as últimas caixas de filé de peixe. A produção foi graças a doações de alevinos e ração, em janeiro. Dessa sobra, as famílias estão se alimentando e tirando algum dinheiro para outros gastos. “Quando isso aqui acabar, como vamos sobreviver?”, questiona. Antônio afirma que essa é a maior estiagem da história, apesar de não ter atingido nível tão baixo quanto em 2001. Mas, naquela ocasião, não havia piscicultura.

    “Buscar equilíbrio”
    O presidente da Agência Goiana de Piscicultura, Paulo Roberto Silveira Filho, defendeu um pacto para salvar a região. “É preciso buscar o equilíbrio. Se o nível do lago está baixo e os peixes morrendo, é prudente que as comportas do reservatório sejam fechadas para frear a vazão. Por outro lado, a geração de energia também é importante, mas pode ser compensada com a produção de outras usinas pelo país. Temos um sistema energético integrado. O grande problema é que de tão crítica a realidade, onde se mexer, vai ter impacto”, destaca. (OA)


    Fonte: Otávio Augusto – Especial para o Correio Braziliense 

    Um comentário:

    1. SERRA DA MESA COM CERTEZA UM DOS LUGARES MAIS BONITO QUE GOSTO DE FREQUENTA, QUE DEUS MANDE CHUVAS TORRENCIAIS NAS CABECEIRAS DE SEUS RIOS.

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