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  • terça-feira, 13 de setembro de 2016

    Lobo-guará - (Funcionários se assustaram com um lobo-guará na área de decolagem do Aeroporto de Brasília, na madrugada de segunda-feira.) - (Por Severino Francisco)

    Funcionários se assustaram com um lobo-guará na área de decolagem do Aeroporto de Brasília, na madrugada de segunda-feira. Um mecânico chegou a fotografar o bicho. Sempre senti fascínio pelo lobo-guará, belo e misterioso animal, de pelame avermelhado, boca preta e olhos hipnotizantes de brilho intensíssimo.
    Tudo é contundentemente selvagem neste bicho tão elegante, que se tornou símbolo de Brasília. Tremo até mesmo diante de uma foto, pois ele mantém a flama de uma ferocidade serena. Clarice Lispector escreveu que a nossa perturbação em face dos bichos decorre do medo que temos do animal dentro de nós.

    Nos tempos da infância, andei muito pelo cerrado para apanhar cajuzinhos-do-mato. Topava com as lobeiras e não sabia que elas tinham esse nome porque serviam de alimento para os lobos-guará. A gente ensaiava jogar uma pelada no meio da vegetação inóspita e do chão esturricado, com os frutos da Solanum lycocarpum St. Hil, da mesma família do tomate e da pimenta-malagueta. Ela parece uma maçã-verde agigantada, uma maçã-verde de Itu, mais agreste e arrepiada de espinhos.

    Sempre fiquei impressionado com os relatos de engenheiros e operários dos tempos pioneiros da construção de Brasília sobre o lobo-guará. Quando baixava a noite, os felinos uivavam sob o luar do sertão, próximo às barracas improvisadas. Eram uma presença corriqueira no cotidiano do cerrado nos primeiros tempos da cidade.

    Se não forem tomadas providências urgentes, os estudiosos estimam que o lobo-guará vai desaparecer dentro de 100 anos. Seria preciso educar, principalmente, suas excelências, os governantes, que fazem discursos ecológicos e, quando assumem os cargos, continuam com a mesma política imediatista e devastadora.

    De vez em quando (e cada vez mais), algum lobo-guará se extravia e aparece no meio do caos urbano da área central do Plano Piloto ou das cidades da periferia. A cidade deveria parar por alguns instantes para avaliar e tomar providências. A chegada do bicho, nestas condições, é sinal claro do desequilíbrio ambiental, da devastação provocada pelo agronegócio insustentável, da monocultura degradante da soja, do crescimento desordenado e da degeneração do cerrado.

    Nunca topei com um lobo-guará no mato. Quem já se deparou garante que o bicho não faz mal a ninguém. Só arreganha os dentes ou arrepia o pelo quando avista alguém ou se sente ameaçado. Se eu visse, também tremeria, ficaria com os músculos retesados e o instinto aceso.

    Andar, solitariamente, pelos descampados, exposto ao céu aberto, deve ter impregnado o lobo-guará de certa angústia existencial. Da minha parte, me considero mesmo um animal metafísico. Gostei quando alguém me disse que pareço com o lobo-guará. De fato, fico na minha, mas arreganho os dentes se tentam me intimidar. E, em noites brasilianas de extrema solitude, também sinto um vago desejo de uivar para a Lua do Planalto, sem nenhuma razão aparente.


    Por: Severino Francisco – Jornalista – Correio Braziliense – Foto: Blog – Google – Site: Zoologia – Geraldo J. Barros -

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