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  • segunda-feira, 31 de outubro de 2016

    Parque Olhos d’Água: "Adeus, nascente da Caesb"


    Em janeiro de 2016, choveu muito em Brasília. Em fevereiro, o tempo estiou revelando que havia pipocado um ativo olho d’água na área de ampliação do Parque Olhos d’Água, proximidades do Eixo L Norte. Os moradores ficaram convencidos de que seria uma nascente, embora não fosse nada óbvia tal ocorrência em um aterro que foi feito de entulho e lixo, mais do que de terra. Não é por acaso que o Parque se chama Olhos d’Água: trata-se de uma área de mananciais, para onde também se destinam as águas das chuvas que caem na Asa Norte. Cuidaram de cercar e proteger o olho d’água, que ficou dentro de um laguinho, devidamente protegido para sobreviver ao período da seca. Plantas ornamentais foram doadas e mais árvores foram dispostas ao redor do laguinho.

    O local virou um ponto de estadia e passagem de vários tipos de aves, inclusive gaviões, saracuras e tucanos. Um caminho de telhas construído para evitar erosão na saída da água pelo barranco se converteu num tobogã de passarinhos e lagartos. A proximidade do olho d’água da cerca do Parque permite que que os transeuntes apreciem o novo cenário e tornou-se frequente a visita de crianças, acompanhadas pelos pais, para conhecerem uma suposta nascente ativa dentro da cidade.

    O olho permaneceu ativo durante os meses de seca. Em outubro, com a chegada das primeiras chuvas, eclodiu uma nova ocorrência de água subterrânea, dessa vez na base do aterro do Eixo L Norte, na área da 213 Norte e a uns 50m além da cerca do Parque. Parecia tratar-se de outra nascente, mas a sua proximidade do Eixo indicava que poderia tratar-se de algum vazamento e a Caesb foi acionada.

    Há poucos dias, técnicos da Caesb constataram que a ocorrência coincidia com a localização da rede. Uma escavadeira gigante removeu o barro até que a tubulação foi encontrada, toda rachada, de modo que os técnicos fecharam o seu registro, suspendendo o fornecimento de água para as quadras do fim da Asa Norte até que o vazamento fosse consertado. Assim que o registro da rede foi fechado, os técnicos da Caesb e alguns moradores que acompanhavam o serviço constataram que o olho d’água da nascente também cessou a sua atividade. Com o término do conserto e o religamento da rede, o fornecimento voltou a funcionar.

    A notícia de que a nascente não era mais do que um vazamento provocou muita tristeza, inclusive entre os técnicos da Caesb, que também puderam apreciar o afluxo dos pássaros e dos transeuntes pelo local enquanto faziam o seu trabalho. Todo mundo queria que o olho d’água fosse mesmo uma nascente e que aquele foco de vida e de beleza fizesse parte da cidade para sempre.

    A vontade de todos era que o relatório dos técnicos à Caesb sobre o serviço realizado omitisse referências ao olho d’água “para que fique para os passarinhos”. Porém, aquele sentimento não prevaleceu sobre a compreensão de todos de que não se pode fazer vista grossa ao vazamento de água tratada, que constitui um desperdício altamente custoso e que chega a ser criminoso no contexto de crise hídrica e de ameaça de racionamento que assola a cidade.

    O convívio com os técnicos permitiu que os moradores entendessem um pouco mais sobre precariedades do sistema de abastecimento de água e ficaram sabendo que existem muitas outras “nascentes” da Caesb pelo DF afora. E transmitiram a má notícia diretamente aos demais moradores, causando consternação geral, mas também a certeza de que não se tratava de nenhuma empulhação para destruir uma nascente.

    Os moradores esperam que a Caesb se entenda com o Ibram, responsável pelo Parque, e que o novo conserto seja feito com o devido cuidado, já que será necessária a retirada de parte do alambrado do Parque em área já arborizada, o que aumenta a preocupação quanto ao impacto que será provocado.

    Também se espera que a Caesb seja dotada de tecnologia que permita identificar e sanar os vazamentos de água com maior rapidez. Se a perda de água tratada se aproximasse de zero, não estaríamos pressionando tanto os reservatórios e o risco de desabastecimento seria menor. E, quem sabe, até sobraria água para que mais fontes fossem construídas pela cidade, saciando a sede dos animais e a curiosidade das crianças e alegrando a todos.


    Por: Marcio Santilli - Sócio fundador e assessor do do Instituto Socioambiental (ISA), Nurit Bensusan, especialista em biodiversidade – Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google

    Um comentário:

    1. Desculpe não entendi, aquele laguinho do Parque Olhos D'água perto da L2 norte, é um vazamento?

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