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  • terça-feira, 4 de outubro de 2016

    Uma outra esquerda - Por: Cristovam Buarque

    Por: Cristovam Buarque,

    O fracasso da velha esquerda representada pelos partidos recentemente no poder não eliminou a necessidade de um movimento com as três características que definem esquerda: descontentamento com o status quo, sonho alternativo para o mundo e convicção de que este mundo melhor só será construído pela política. Ao fracassar, a esquerda tradicional demonstrou seus erros e reafirmou que é preciso uma outra esquerda para uma nova proposta de outro Brasil.

    Desde que chegaram ao poder, PT e demais partidos de esquerda ao seu redor assumiram que seu governo havia realizado a mudança e construído a utopia, por bolsas e cotas, um correto gesto social, mas esquecendo as reformas necessárias da estrutura da sociedade, para que os filhos de todos os trabalhadores tenham a mesma chance de todos os filhos dos patrões.

    Essa nova esquerda precisa entender que no mundo global, com suas transformações tecnológicas, o debate ideológico não está mais na economia. O papel da economia não é ser justa, mas, sim, ser eficiente e produzir o necessário para atender aos interesses da sociedade, na busca de justiça e sustentabilidade, a ser conseguidas pela política. No lugar do reacionarismo de barrar as revoluções para proteger segmentos sociais, a nova esquerda precisa fazer as revoluções necessárias para transformar a sociedade, aproveitando as vantagens do avanço técnico. Embora deva objetivar uma sociedade utópica possível, não cabe mais a ideia de uma engenharia social para construir utopias definidas pela vontade de intelectuais e políticos, como se acreditou ao longo do século 20. A utopia não é uma edificação social: é um processo em marcha democrática

    A democracia na política, a ética na gestão pública, a liberdade de expressão são compromissos fundamentais e inegociáveis na nova esquerda. Diferentemente do populismo, da arrogância e do aparelhamento, para servir ao público é preciso gerenciar o Estado com competência e respeito ao mérito de seus servidores — a esquerda tem de ser meritocrática, ou cai no comportamento aristocrático de beneficiar escolhidos independentemente do seu desempenho.

    Estado não é sinônimo de público. É preciso ser administrado com responsabilidade; entender que os equilíbrios fiscal e ecológico exigem austeridade no lugar do desperdício que viciou a esquerda, levando à apropriação privada pelo Estado por partidos e corporações, servindo mais aos interesses de políticos e líderes sindicais do que aos interesses da população. Terminaram defendendo privilégios adquiridos, impossíveis de ser distribuídos às massas.

    A robótica e a informática rompem as relações entre os indivíduos e o Estado, exigindo reformas na legislação do Trabalho. O aumento na expectativa de vida e a redução na taxa de natalidade exigem reformas no sistema previdenciário. Os interesses do povo exigem a estabilidade monetária, o que requer forte compromisso com a responsabilidade fiscal. A austeridade, diferentemente do consumismo burguês, deve ser uma característica da esquerda. Só ela é capaz de manter os equilíbrios fiscal e financeiro e reduzir a brecha da desigualdade social.

    Comprometida com a liberdade, a nova esquerda deve tolerar a desigualdade no consumo e na renda do indivíduo, desde que assegurada a igualdade plena à educação e à saúde de qualidade. A desigualdade deve ficar limitada entre um piso social — ninguém deixado abaixo do mínimo necessário à sobrevivência digna — e um teto ecológico — ninguém podendo provocar desequilíbrio ecológico por meio do consumo. Entre o piso social e o teto ecológico, a educação de qualidade igual para todos serve como uma legítima escada social.

    Cada pessoa com a mesma chance para usar o seu talento, sua persistência e seu esforço para atingir os níveis superiores de renda e de consumo. O slogan da nova esquerda não é mais “a fábrica nas mãos do Estado a serviço do trabalhador”, deve ser “o filho do trabalhador na mesma escola do filho do patrão”. O nome do novo socialismo, da nova esquerda, é educacionismo, com democracia, liberdade e sustentabilidade, garantindo educação com a mesma qualidade para todos.


    (*) Cristovam Buarque - Professor emérito da UnB e senador pelo PPS-DF – Correio Braziliense

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