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  • domingo, 19 de fevereiro de 2017

    As perguntas que nunca fiz a Darcy Ribeiro


    Eric Nepomuceno
    (Valor)

    Darcy Ribeiro morreu há 20 anos, no dia 17 de fevereiro de 1997. Viveu até o último instante desejando o que sempre quis: vida, mais vida. Ao longo de seus últimos 22 anos, nossa convivência foi intensa. Eu o chamava de “vice-pai”, em alusão à relação que ele manteve, quando da criação da Universidade Nacional de Brasília, com meu pai, o físico Lauro Xavier Nepomuceno. Esta é a minha memória de um homem íntegro, de um visionário, de um construtor do futuro. De alguém que, neste Brasil de hoje, faz mais falta que nunca.

    1- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro se ele costumava cochilar, mas posso assegurar que não. Mesmo breves, seus sonos seriam profundos. Darcy não sonhou pequeno, nunca. E também não se limitou a sonhar um mundo melhor, mais justo: foi à vida para mudar esse mundo.

    2- Nunca perguntei se ele gostava de contas redondas. Volta e meia penso nisso, quando recordo que ele nasceu em outubro e morreu em fevereiro. Nove meses separaram Darcy dos 75 anos completos. Nove meses: a gestação de uma vida.

    Nesse tempo ele foi ministro da Educação, ministro-chefe da Casa Civil, vice-governador do Rio de Janeiro, secretário da Cultura do Rio de Janeiro, secretário de Desenvolvimento Social de Minas Gerais, reitor da Universidade Nacional de Brasília – que, aliás, fundou – e várias coisas mais. Também foi senador. E ele, que se dizia eterno, conseguiu a proeza de morrer imortal – também teve tempo de sacudir o chão da Academia Brasileira de Letras. Escreveu romances, ensaios antropológicos, ensaios sobre educação, análises críticas da história do Brasil e da América Latina.
    Seus livros de antropologia, principalmente “O Processo Civilizatório”, “As Américas e a Civilização”, e acima de todos “O Dilema da América Latina”, fizeram dele, ao lado de Celso Furtado, o intelectual brasileiro mais respeitado e influente na América Latina da segunda metade do século XX. Foi indigenista, antropólogo, romancista, conspirador, mas gostava é de ser chamado de educador – coisa, aliás, que também foi. Seu livro derradeiro, “O Povo Brasileiro”, é um farol a derreter o breu em que este nosso país volta e meia é condenado a mergulhar.
    3- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro qual o fascínio que provocava nele o linho branco. Lembro que no dia em que foi eleito senador, ele vestiu terno branco, de linho formidável, e ficou andando pela sala do seu apartamento de Copacabana, vendo o mar e falando sem parar. E descalço. Dizia que era por causa do seu sangue índio. Até hoje desconfio que, na verdade, ele andava descalço para sentir os pés no chão. Naquele tempo, Chico Buarque ainda não havia escrito o verso que diz “é preciso pôr o chão nos pés”.

    4- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro se ele se considerava um intelectual peculiar. Não perguntei nem precisei: evidentemente Darcy era peculiar em tudo que fez.

    Jamais se recolheu aos claustros acadêmicos ou da burocracia oficial para ficar olhando a vida ao longe, a realidade transformada em números e estatísticas, a vida como objeto de análise fria, calculada, distante, indolor.

    Não: ele mergulhou fundo, participou de todas as maneiras que pôde da vida política deste país. E quando foi impedido de continuar aqui, engajou-se onde passou o exílio. No Uruguai, no Chile de Allende, no Peru, ao lado do general Velasco Alvarado, nas suas andanças pela Costa Rica, pelo México, pela Venezuela, não sossegou um só instante.
    Acreditava no poder transformador da realidade. Acreditava na indignação. Dele, ouvi certa vez uma frase definitiva. “Na América Latina, só temos duas saídas: ser resignados, ou ser indignados”.
    Seu compromisso chamava-se Brasil. Quis mudar a educação, criando escolas de qualidade para todos; quis salvar os índios, preservando suas culturas e protegendo suas terras; quis mudar a estrutura social que beneficia alguns à custa de todos os outros. Perdeu.
    Num de seus textos mais contundentes, lido quando recebeu o título de doutor honoris causa na Sorbonne, em 1978 – foi o primeiro brasileiro a receber essa honraria -, falou dessas derrotas:
    “Fracassei como antropólogo no propósito mais generoso que me propus: salvar os índios do Brasil. Sim, simplesmente salvá-los. Fracassei também na realização da minha principal meta como ministro da Educação: a de pôr em marcha um programa educacional que permitisse escolarizar todas as crianças brasileiras. Fracassei, por igual, nos dois objetivos maiores que me propus como político e como homem de governo: realizar a reforma agrária e pôr sob controle do Estado o capital estrangeiro de caráter mais aventureiro e moral.”
    Terminou dizendo que “esses fracassos da minha vida inteira” eram também “os únicos orgulhos que tenho”. Anos mais tarde, um dos intelectuais latino-americanos que ele mais influenciou, o escritor Eduardo Galeano, escreveu: “Estes são os seus fracassos. Estas são as suas dignidades”.
    Nos dias de hoje, neste país esfarelado, mais que nunca as dignidades de Darcy Ribeiro são necessárias. Tão desesperadamente necessárias.
    5- Nunca perguntei a Darcy quais eram suas urgências, porque ele era um homem de urgências permanentes. Havia, em sua maneira de olhar e pensar o Brasil, a América Latina e o mundo, um eixo nítido: o fato de não estarmos condenados a ser o que somos, a certeza de que não somos vítimas de um destino malvado, e sim de um sistema perverso.

    Para ele, o Brasil era um problema que só teria e só terá solução a partir de nós mesmos, de nossa capacidade de impulsionar e consolidar mudanças, derrotar retrocessos.
    6- Nunca perguntei a Darcy Ribeiro se ele tinha ideia de que era o único amigo que nasceu no mesmo ano do meu pai e conseguiu ser, até o fim, mais jovem que meu filho.
    Nem perguntei de duas imagens que guardo dele para sempre.
    A primeira: Alta noite do dia 31 de dezembro de 1995, e ele estava sentado na varanda do seu apartamento na avenida Atlântica. Das alturas daquele quinto andar, ele contemplava tudo com olhos de piloto atento, percorrendo as pessoas, as ondas do mar oceano, as embarcações iluminadas.

    Quando faltava pouco para a virada do ano – a penúltima que ele iria ver – duas amigas chegaram na varanda e colocaram no chão um grande balde prateado, desses que são usados para esfriar garrafas de vinho.
    No balde havia água do mar e areia da praia. Quando viu o foguetório da meia-noite e do ano que se iniciava, ele mergulhou os pés no balde. Darcy, naquela noite, adoentado – e muito – não podia ir até o mar. Pois deu um jeito de trazer o mar até ele. Até seus pés descalços. De pôr enfim o mar, a areia, o chão nos pés.
    A segunda: Fim de tarde de um sábado, poucos meses antes de nos deixar para sempre, ele saiu do escritório de Oscar Niemeyer, naquela mesma avenida Atlântica. Vestia um terno branco, e foi caminhando devagar pela calçada até o automóvel que esperava por ele.

    Do mar, vinha uma brisa cálida. Visto lá do alto, o paletó branco esvoaçando, caminhando devagar, Darcy Ribeiro parecia um veleiro desafiando os ventos, rumo a um futuro – um porto – que só ele poderia adivinhar.
    Guardo essa imagem e a certeza de que o porto, aquele porto, é preciso agora, mais do que nunca, merecê-lo. Porque onde quer que esteja, Darcy continua como sempre: indignado. E descalço.

    (Texto enviado por Mário Assis Causanilhas, que também era grande amigo de Darcy Ribeiro) - Tribuna da Internet.

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