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  • sábado, 8 de abril de 2017

    Entrevista: Maria Elisa Costa, arquiteta e filha de Lucio Costa

                              “Há um mistério que faz com que Brasília não envelheça”

    Depois de 60 anos da elaboração do Plano Piloto de Lucio Costa, que grande diferencial da proposta destacaria?
    Certamente, o jogo e a interação entre as quatro “escalas urbanas” que comandaram o projeto (monumental, residencial, gregária e bucólica), além da coragem de propor uma cidade pronta, e do fato de ela despertar em quem vê hoje a Esplanada pela primeira vez, a mesma emoção dos primeiros tempos. E a naturalidade com que propõe um modo de convívio urbano diferente, nas superquadras, que pegou como se fosse uma planta. Adoro quando vejo que, agora, quem defende a superquadra são seus moradores. Brasília consegue ser, ao mesmo tempo, da sua época sem ser de época. Tem um mistério qualquer que faz com que não envelheça.

    A que atribui a vitória do projeto de Lucio Costa, em um concurso que contou com mais de 20 concorrentes?
    Lucio compreendeu, como nenhum outro concorrente, a intenção de JK, ao decidir a mudança da capital, e levou a sério o presidente. Seu Plano Piloto não é um trabalho teórico ou acadêmico, é uma proposta realista, feita com o objetivo de ajudar JK a executar o que pretendia. O que Lucio apresentou no concurso foi uma âncora viável, que Juscelino lançou no coração do Planalto Central.

    Outros projetos que participaram do concurso previam prédios de até 80 andares na nova capital. Eles seriam viáveis?
    Claro que não! Foi um projeto típico de quem não levou JK a sério.

    Algo deu errado na execução do projeto? O quê? 
    Nada deu errado. O desenvolvimento do Plano foi praticamente concomitante com a implantação. A Novacap, sob o comando indispensável do doutor Israel Pinheiro, criou o Departamento de Urbanismo e Arquitetura. A Divisão de Arquitetura, pilotada por Oscar Niemeyer, com a colaboração de Nauro Esteves, seu chefe de escritório, instalou-se em Brasília. E a Divisão de Urbanismo, sob o comando de Lucio Costa, com a preciosa colaboração do engenheiro Augusto Guimarães Filho, ficou no Rio, instalado em parte da sobreloja do hoje Palácio Capanema. A equipe tinha 11 pessoas. E o fato é que tudo correu bem, em tempo, sem correria e sem sufoco.

    A senhora era uma jovem estudante de arquitetura quando seu pai criou o projeto de Brasília. Que lembranças tem dessa época e desse trabalho?
    Eu estava no 3° ano da Faculdade Nacional de Arquitetura. Um dia, meu pai me chamou e disse: “Vem cá, que eu quero te mostrar uma coisa”. A “coisa” era Brasília! Ele fez o plano piloto absolutamente sozinho, em casa, e eu fui a primeira pessoa a saber como seria a nova capital. Ou seja, aquela foi a primeira vez em que ele verbalizou seu projeto. Era verão e o que me lembro é que, quando terminou, sua camisa estava encharcada de suor, certamente, mais de emoção do que de calor!

    E qual foi a sua primeira impressão?
    O que mais me espanta é que achei tudo normal. Projeto, mudança da capital, tudo. Certamente, porque tive o privilégio de ser estudante no tempo de JK, num Brasil confiante, divertido, alegre e realizador e, ao mesmo tempo, da Bossa Nova, do Cinema Novo.

    Este ano, também serão comemorados os 30 anos da inscrição de Brasília na lista do patrimônio da Unesco. Diante dos desrespeitos ao projeto da cidade, a capital ainda merece esse título? 
    Claro que merece. Não faço parte desse time que acha que qualquer coisa desrespeita ou desvirtua o plano. Como meu pai disse uma vez, o que espanta em Brasília não é o que ela tem de diferente, mas o que tem de parecido! E é por ter tido, bem ou mal, sua identidade original preservada até hoje, que proponho que a Bacia do Paranoá — a área delimitada pelo divisor de águas da Bacia do Paranoá, ou seja, pela linha do horizonte de Brasília — seja formalmente considerada o centro histórico da capital do Brasil, sujeita a fiscalização diferenciada, a ser feita por comissão técnica de alto nível, com poder de veto, criada para esse fim. Assim, qualquer arranjo que comprometesse a “partitura” original seria vetado, e os que não comprometessem poderiam ser aceitos. Preservar Brasília inclui preservar a paisagem até seu horizonte. Não se trata de tombar, por favor!



    (*) Por Helena Mader – Foto: Minervino Junior/CB/D.A.Press – Correio Braziliense

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