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  • domingo, 30 de abril de 2017

    #TRÁFEGO » Mobilidade urbana, questão de todos

    Projetos inconclusos, falta de respeito com ciclistas e prioridades erradas complicam ainda mais o trânsito no DF

    *Por Luiz Calcagno - Pedro Grigori 

    Metrô, ciclovias, ciclofaixas, BRT, faixas exclusivas para ônibus, e um sistema que divide as empresas por região, para tornar o atendimento à população mais eficiente. O transporte público no DF tem ferramentas que deveriam transformar e facilitar a mobilidade urbana. Porém, não é o que acontece. Os sistemas foram feitos independentes uns dos outros. A integração é limitada e, na prática, o brasiliense continua a esperar por horas na parada de ônibus, a correr riscos ao pedalar nas rodovias e a insistir em juntar dinheiro para comprar um carro, que tampouco é a solução para o problema do transporte. A reportagem do Correio conversou com especialistas, ativistas da mobilidade urbana e com representantes do Governo do Distrito Federal para entender por que soluções que poderiam melhorar a vida do brasiliense demoram tanto a se concretizar.

    De acordo com o engenheiro de transportes Rafael Stucchi, o problema é que, a cada mudança de governo, pensa-se em um plano de transporte diferente para a capital. O estudioso elogia o mais recente deles, o projeto Mobilidade Ativa, lançado em 25 de maio de 2016, mas lamenta que haja “muita resistência para seguir adiante”.

    Um dos braços do projeto, o Circula Brasília (ciclovias conectadas com o metrô) só atende Águas Claras e, mesmo assim, não está finalizado. “Há uma falta de coragem política para implementar um plano pronto. Qualquer resistência é motivo para estancar o processo ou andar devagar. Isso acontece com o Circula Brasília, mas não apenas. O metrô é uma linha estagnada. Fala-se da expansão em Samambaia, em Ceilândia e na Asa Norte, que também não saem da fase do projeto. Eles (o GDF) não conseguem sequer ativar as estações previstas da Asa Sul”, critica.

    Stucchi também critica o BRT, que, ele destaca, deveria ser uma alternativa para interligar a capital. A exemplo do metrô, o engenheiro lembra, o expresso Sul também não foi implantado por completo. O GDF fala em expandir o serviço para a região norte, atendendo Sobradinho e Planaltina, mas não há previsão.

    Redesenho
    “Um projeto que era visto como uma forma de deixar mais eficiente a circulação acaba tornando mais penoso o deslocamento do usuário que tem que fazer transferências em épocas de muita chuva ou muito sol, por exemplo. Sobre as linhas de ônibus, é necessário redesenhar os trajetos. O DF está entre as capitais que mais dependem do automóvel para deslocamento. Existe uma descrença sobre a eficiência do transporte público. Enquanto o deslocamento por carro for conveniente, as pessoas não vão entender que o ônibus é mais vantajoso”, destaca.

    Ainda de acordo com o engenheiro, é necessário rever, também, o horário de circulação dos ônibus. “É preciso que a fluidez do transporte público seja garantida o dia todo. Outra coisa é o número de ônibus no fim de semana. A oferta despenca. Com isso, as pessoas passam a contar menos com o transporte público”, aponta.

    O especialista em trânsito e professor da Universidade de Brasília (UnB) Paulo César Marques concorda. Ele é categórico ao falar sobre a demora na integração do transporte público: “Não tem muita explicação, a não ser a falta de determinação política”. “Há uma resistência em favor do transporte individual. Historicamente, os governos não enfrentam essas forças. A solução, as pessoas pensam, é comprar o próprio carro, o que não soluciona o problema”, alerta.

    Porta-voz da ONG Rodas da Paz, Bruno Meireles, também reclama da “falta de uma política única. “Acompanhamos as políticas do GDF há vários anos. Se conversamos na Secretaria de Mobilidade, eles têm um corpo técnico bom e o diálogo é produtivo. Mas, a cada governo, não há política única. Falta uma coisa ampla, de pensar a mobilidade como um todo”, critica.

    Tecnologia
    Secretário adjunto da Secretaria de Mobilidade, Denis Soares admite que “há deficiências” no transporte público, mas destaca que o serviço oferecido à população “está entre os melhores do país”. “Não existe desintegração. Se eu tenho o Cartão Cidadão e quero sair de Planaltina para Brazlândia, pago apenas R$ 5. Conseguimos integrar os modais e estamos ampliando isso. Estamos integrando os sistemas de ônibus e metrô. Hoje, têm algumas catracas que o usuário passa com a integração e outras com o vale do metrô, mas isso vai acabar. O BRT, apesar de faltar detalhes, presta serviço de qualidade, com ar-condicionado e linha exclusiva. Sempre há questionamentos em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, sobre a qualidade do transporte”, afirma.

    Denis Soares acrescenta que com a regulamentação do Sistema de Bilhetagem Automática (SBA) e do Sistema Inteligente de Transporte (STI) em 16 de fevereiro, o GDF vai otimizar os serviços prestados. A expectativa é que ambos os projetos estejam implementados em meados de agosto. “O usuário não ficará mais 30 minutos esperando o ônibus. Vamos monitorar os veículos e ele poderá acompanhar isso em um aplicativo. Vai saber enm quanto tempo passa a linha que quer pegar e a seguinte. Faremos, também, uma central de vigilância para garantir maior segurança para rodoviários e passageiros. São ações com entregas concretas. Temos uma malha cicloviária na faixa de 420km de extensão e contratamos um estudo para diagnosticar defeitos, pontos de desconexão e ligaremos esses locais.”

    Em análise
    O diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF), Henrique Luduvice, diz que a implantação do sistema BRT na área norte está pronta e foi enviada para análise da Caixa Econômica Federal. O financiamento para a execução precisa ser incluso no orçamento geral da União. O planejamento visa a implantação de um terminal na Asa Norte, antes da área do Torto, que irá pela Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), próximo ao Parque Água Mineral, seguindo em direção a Sobradinho e Planaltina.

    Falta conexão
    ÔNIBUS
    O sistema de transporte público de ônibus atende a maior parcela da população do DF. São 1 milhão de usuários e uma frota de 2.720 veículos. As melhorias, no entanto, ocorrem a passos de formiga. A licitação do novo sistema de transporte público aconteceu em 2011. Porém, a gestão do GDF, à época, manteve o funcionamento nos moldes antigos, o que piorou a vida dos usuários. Em 2013, o sistema passou a atuar em bacias, mas usuários continuaram a se queixar da recorrente demora no atendimento.

    METRÔ
    O sistema metroviário conta com 29 paradas, sendo 24 em funcionamento e atende 170 mil passageiros por dia. Embora essenciais para a vida dos usuários do transporte público, as linhas são curtas e só atendem a um pequeno trecho do DF. Usuários enfrentam trens quebrados, lentos ou excessivamente lotados 
    com frequência.

    BRT
    O Expresso Sul interliga Santa Maria e Gama à estação do metrô do ParkShopping e à Rodoviária do Plano Piloto e registra cerca de 95 mil acessos por dia. Como o metrô, o BRT se tornou um sistema vital para o brasiliense e reduziu o tempo de viagem de, ao menos parte dos passageiros, de 90 minutos para 40. Ainda assim, a linha está incompleta. Não conta com o número de paradas previstas e não atende aos trabalhadores que se deslocam diariamente para o ParkWay, por exemplo. Outro desafio dos usuários é a transferência de linhas em épocas de muita chuva ou muito sol.

    CICLOVIAS E CICLOFAIXAS
    A malha cicloviária do DF tem, aproximadamente, 420km de extensão. As faixas exclusivas e ciclovias foram construídas em várias gestões, sempre priorizando o carro em detrimento da bicicleta. 

    O resultado é uma malha extensa, mas pouco efetiva, que não interliga cidades ou endereços.

    Conscientização é primordial

    Muitos carros ainda costumam passar rápido do nosso lado, sem respeito, deixando a preocupação apenas na nossa conta Vitor Coelho, estudante

    Uma das medidas mais importantes para a integração do transporte público é o estímulo ao uso da bicicleta como meio de transporte. Neste pensamento moderno, o promotor de defesa da ordem urbanística Dênio Moura critica a falta de integração das ciclovias. “Existe uma recomendação do MP, cobrando esse sistema cicloviário, que é algo necessário para apoiar a integração intermodal de transporte público”, argumenta. “As ciclovias e as faixas, inicialmente, não foram pensadas como um meio de locomoção para ir ao trabalho, por exemplo, mas como um meio de recreação, por isso a falta de ligação entre cidades. Então, além da integração, precisamos de modos atraentes para tornar a utilização das bicicletas como um real meio de locomoção, como por exemplo, criação de bicicletários internos em órgãos públicos e privados.”

    Quem opta por pedalar para o trabalho ou, ao menos dentro das regiões administrativas, enfrenta dificuldades estruturais. Ciclovias que dão voltas e voltas sem chegar a lugar nenhum e trechos danificados empurram o ciclista para o asfalto, onde, muitas vezes, tem que enfrentar a falta de consciência de alguns motoristas. O estudante Vitor Coelho, 18 anos, conhece bem essa realidade. Ele sai de casa, em Samambaia Norte, e percorre cerca de 10km de bicicleta até o Parque Ecológico de Águas Claras. Para ir de uma cidade a outra, não tem alternativa senão pedalar no asfalto, disputando espaço com carros e ônibus. “Com o tempo, estamos conquistando nosso lugar e ouvindo menos grosserias no trânsito, mas muitos carros ainda costumam passar rápido do nosso lado, sem respeito, deixando a preocupação apenas na nossa conta”, explica.

    Também estudante, Victor Bessa, 20, optou pelo pedal para fugir do engarrafamento e ganhar tempo. Ele faz o trajeto do Ministério da Cultura, onde estagia, até a Rodoviária do Plano Piloto em uma bicicleta de sistema compartilhado. “Para vir ao trabalho, faço o percurso direto de ônibus, mas, na volta, o trânsito é pesado, então vou de bike até a Rodoviária e de lá pego um ônibus para o Cruzeiro. É muito mais funcional”, explica.

    Segundo o secretário da Secretaria de Mobilidade do DF, Fábio Damasceno, com a inclusão das bicicletas compartilhadas no sistema de integração do transporte público, haverá novas obras, dando ênfase para faixas que liguem cidades. “Começaremos as obras por uma ciclofaixa na EPTG. No momento, o governo já liberou o recurso e o DRE está fazendo licitações para a obra, sem previsão de início”, promete.



    (*) Luiz Calcagno - *Pedro Grigori (** Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira) -   - Foto: Breno Fortes/CB/D.A.Press – Correio Braziliense

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