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  • terça-feira, 20 de junho de 2017

    Lobo-guará

    Lobo-guará

    As noites brasilianas de céu aberto acenderam a minha imaginação para um personagem do cerrado. Sempre senti fascínio pelo lobo-guará, belo e misterioso animal, de pelame avermelhado, boca preta e olhos hipnotizantes de brilho intensíssimo.

    Tudo é contundentemente selvagem nesse bicho tão elegante, que se tornou símbolo de Brasília. Tremo até mesmo diante de uma foto, pois ele mantém a flama de uma ferocidade serena. Clarice Lispector escreveu que nossa perturbação em face dos bichos decorre do medo que temos do animal dentro de nós.

    Nos tempos da infância, andei muito pelo cerrado para apanhar cajuzinhos-do-mato. Topava com as lobeiras e não sabia que elas tinham esse nome porque serviam de alimento para os lobos-guará. A gente ensaiava jogar uma pelada no meio da vegetação inóspita e do chão esturricado, com os frutos da Solanum lycocarpum St. Hil, da mesma família do tomate e da pimenta malagueta. Ela parece uma maçã-verde agigantada, uma maçã-verde de Itu, mais agreste e arrepiada de espinhos.

    Sempre fiquei impressionado com os relatos de engenheiros e operários dos tempos pioneiros da construção de Brasília sobre o lobo-guará. Quando baixava a noite, os felinos uivavam sob o luar do sertão, próximo às barracas improvisadas. Eram uma presença trivial no cotidiano do cerrado nos primeiros tempos da cidade.

    Se não forem tomadas providências urgentes, os estudiosos estimam que o lobo-guará vá desaparecer dentro de 100 anos. Seria precisa educar, principalmente, suas excelências, os governantes, que fazem discursos ecológicos e, quando assumem os cargos, continuam com a mesma política imediatista e devastadora.

    De vez em quando (e cada vez mais), algum lobo-guará se extravia e aparece no meio do caos urbano da área central do Plano Piloto ou das cidades da periferia. A cidade deveria parar por alguns instantes para avaliar e tomar providências. A chegada do bicho, nestas condições, é sinal claro do desequilíbrio ambiental, da devastação provocada pelo agronegócio insustentável, da monocultura degradante da soja, do crescimento desordenado e da degeneração do cerrado.

    Nunca topei com um lobo-guará no mato. Quem já se deparou garante que o bicho não faz mal a ninguém. Só arreganha os dentes ou arrepia o pelo quando avista alguém ou se sente ameaçado. Se eu visse, também tremeria, ficaria com os músculos retesados e o instinto aceso.

    Andar, solitariamente, pelos descampados, exposto ao céu aberto, deve ter impregnado o lobo-guará de certa angústia existencial. Da minha parte, eu me considero também um animal metafísico. Gostei quando alguém me disse que pareço com o lobo-guará. De fato, fico na minha, mas arreganho os dentes e me arrepio todo se tentam me intimidar. E, em noites brasilianas de extrema solitude, também sinto um vago desejo de uivar para a Lua do Planalto, sem nenhuma razão aparente.


    Por Severino Francisco – Jornalista, colunista do Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog-Google

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