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  • sábado, 15 de julho de 2017

    Nos porões da anticultura

    Athos Bulcão ao lado do Painel Igrejinha

    *Por Guilherme Goulart

    Desde os primeiros anos de fundação, Brasília vê parte do patrimônio artístico e cultural despedaçado pela insensibilidade. Muitos empresários, empreiteiros, moradores e sacerdotes desrespeitam a memória da cidade ao reduzir a entulho obras de arte integradas à arquitetura, uma das maiores relíquias estabelecidas pelo modernismo. Movidos pela ignorância, pelo preconceito ou pela ganância, colocam abaixo o que há de diferente, inusitado, apaixonante e provocador em uma construção. A brutalidade empedernida ergue britadeiras, picaretas e pás para varrer da eternidade a beleza singular das belas-artes brasilienses.

    Um dos primeiros assassinatos artísticos de que se tem notícia por aqui ocorreu na Igrejinha da 307/308 Sul. O crime às cores e às formas fora cometido no início dos anos 1960, quando três afrescos do artista italiano Alfredo Volpi, feitos especialmente para o templo, foram apagados. Um dos trabalhos pintados nas paredes do local revelava a imagem de Nossa Senhora com o menino Jesus, envoltos por bandeirolas sobre um fundo azul. Se por pressão da comunidade ou se pela censura de algum padre enraivecido, não se sabe com exatidão, o certo é que a obra acabou encoberta pela pequenez humana até ser revisitada pelo piauiense radicado em Brasília Francisco Galeno.

    Mas uma das maiores vítimas dos ataques contra a cultura de Brasília chama-se Athos Bulcão, o único entre os principais nomes da construção da capital a escolher a cidade como casa. A cada levantamento, diminui o total de obras assinadas por ele no DF — hoje, seriam 262. Em 2009, a demolição do Clube do Congresso, na 902 Sul, destruiu três painéis de uma vez: o da piscina, o do banheiro e o que, trabalhado em gesso, embelezava a escadaria. Outro golpe fatal ocorreu na reforma do Palácio do Planalto, também em 2009, que removeu três paredes de azulejos. Elas foram reerguidas em outro piso do edifício oficial, mas a Fundação Athos Bulcão (Fundathos) as retirou do catálogo do multiartista.

    Entre todos os casos de desrespeito ao legado de Athos, um me marcou pessoal e profissionalmente. Na noite de 21 de setembro de 2011, presenciei uma agressão explícita ao talento desse carioca do Catete. Estava de saída da redação do Correio quando recebi a denúncia de uma moradora desesperada com o que acontecia em um posto de gasolina do início da Asa Norte. Segundo ela, operários destruíam, a marretadas, o painel de azulejos criado em 1975. Pedi um carro, supliquei por um fotógrafo e aceleramos para o local. Acreditava, ingenuamente, que pudéssemos salvar aquela obra. Ao chegarmos, nada restava. Só pedaços das peças de 30cm de altura por 15cm de largura descartados pelo chão como chiclete mastigado.

    Felizmente, também há flores no caminho. Após anos adiando uma visita ao Palácio da Alvorada, dediquei, recentemente, um dia de férias à empreitada de conhecer a residência da Presidência da República. A surpresa do passeio se mostrou assim que entrei na capela erguida à esquerda do prédio principal. Athos Bulcão assina o projeto decorativo, desde a porta de entrada até as paredes. O teto é de beleza exemplar, composta por símbolos do cristianismo desenhados em tons de amarelo-ouro e azul-anil. A beleza preservada hipnotiza. É tanta que a guia se esqueceu de chamar a atenção quanto a autoria do tesouro sobre as nossas cabeças. Entre achados e perdidos, a arte brasiliense sobrevive.
    Capela Nossa Senhora da Conceição – Palácio da Alvorada — 1958; Athos Bulcão: Porta de alumínio pintado de preto e vidros de cor – Porta de entrada- PinturaTeto - Projeto Arquiteto: Oscar Niemeyer; Palácio da Alvorada, Brasília 


    (*) Guilherme Goulart – Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google

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