Por: Lourenço Cazarré - Correio Braziliense
Jornalista
Jornalista
Publicação: 27/12/2014
Orientado pelo pessoal da Vigilância Sanitária, que havia estado por duas vezes em minha casa, eu sabia o que fazer. Correr imediatamente para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Foi o que fiz no dia em que minha filha foi picada no pé por um escorpião.
Chegando ao Hran, assustada, sofrendo uma dor fortíssima, ela entrou apressada no pronto-socorro, mas as palavras que ouviu de uma enfermeira de certa forma a tranqüilizaram:
— Não se preocupe. Você é quarta pessoa que aparece, hoje, picada por escorpião.
Era o começo da tarde. Quantos mais teriam sido feridos naquele dia?
É por aí. Caso seja atacado por um desses bichinhos — e as suas chances são altíssimas, se você mora no Plano Piloto —, corra para o Hran, mas não espere surpresa ou espanto de médicos e enfermeiras. Eles já estão acostumados. Ordenarão que você fique sentado por lá, em observação, durante duas ou três horas. Se não apresentar sintomas de intoxicação nesse prazo, você será liberado para voltar para casa e rezar para não ser picado novamente.
Escrevo este artigo embalado pelo surgimento, na minha cozinha, do 13º visitante indesejado deste ano, que tive a felicidade de matar com uma chinelada certeira.
O Correio Braziliense vem dando boa cobertura a esse assunto. Recentemente, publicou reportagem sobre moradores de uma quadra do Plano Piloto que se reuniram e fizeram uma vaquinha para comprar determinado produto que, borrifado, deve expulsar os escorpiões de lá. Falei da reportagem do CB ao rapaz que dedetiza minha casa. Ele me apareceu depois com um frasco do tal produto, que abriu na minha frente. Mas não se mostrou muito seguro do resultado da fumigação que fez com ele. Aliás, antes de ir embora, deixou-me abraçado a três perguntas:
Se os escorpiões saíram da tal quadra, para onde eles foram? Para a quadra vizinha? E, quando passar o efeito do veneno, será que não voltam?
O tema beira o ridículo. O centro da capital da República da sexta ou sétima economia do mundo (nunca se sabe, o dólar não para quieto) está encurralado pelos escorpiões.
De onde eles surgiram assim, em ondas maciças, de uma hora para a outra? Na minha casa, por exemplo, eles não deram a cara por 19 anos. Mas, desde o começo de 2014, não nos deixam em paz.
Será que foram expulsos do Noroeste pelo desmatamento daquele bairro, como palpitam uns? Ou será que saíram dos esgotos quando a cidade foi sacudida pelos tratores que recapearam nossas ruas? Há também quem acredite que os escorpiões proliferaram na exata proporção em que nossos esgotos ficaram superlotados de baratas — o alimento predileto deles.
Tenham vindo do Noroeste ou dos esgotos, uma coisa é certa: agora os escorpiões têm um bom lugar para se esconder. Eles podem se homiziar nos nossos gramados que, nesta estação de fortes chuvas, se mostram mais viçosos do que nunca. Gramados que, entre a saída de um governo e o começo de outro, foram promovidos a matos.
A barata é um ser repulsivo. Já o escorpião é assustador. Ele simboliza — tanto quanto a serpente — a traição. Quem não lembra de ter ouvido na infância a fábula do escorpião e do sapo?
Com a floresta em chamas, o escorpião pede ao sapo que o leve nas costas para atravessar o rio. O sapo recusa-se, dizendo que o escorpião o morderá. O escorpião alega que não seria tolo a ponto de matar aquele que o transportava, porque morreria junto. O sapo aceita o argumento irrespondível. Antes de descer das costas do sapo, já a salvo na outra margem do rio, o escorpião o ferra mortalmente. Agonizante, o batráquio pede uma explicação. “É a minha natureza”, esclarece o escorpião.
A verdade é que já existe ou está a formar-se um clima de quase pânico em certas quadras de Brasília por causa desses onipresentes artrópodes pulmonados de hábitos noturnos.
O medo maior, claro, é sentido pelos que têm filhos pequenos. Esse assunto, porém, beira também o trágico. Uma picada que causa apenas dor em um adulto saudável pode até mesmo levar à morte um bebê ou uma pessoa idosa ou debilitada.
Trata-se de uma equação química e também matemática entre a porção de peçonha de um aracnídeo e a massa ou a higidez de um corpo humano. As autoridades de Saúde do Distrito Federal precisam dar mostras aos cidadãos de Brasília de que eles não precisam, efetivamente, se preocupar com essa perversa equação.
