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Desentendimento agrava crise

Desde o início do segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff vem colecionando dissabores: a economia vai mal, as relações com o Congresso Nacional estão péssimas, crescem a perda de credibilidade e a desaprovação dos eleitores. A cada etapa da Operação Lava-Jato, integrantes e ex-integrantes do Executivo são responsabilizados pela corrupção cujo montante assusta a população. 


No cipoal de tragédias, a boa notícia veio na segunda-feira, quando a agência de classificação de risco Standard & Poor’s manteve o grau de investimento do país. A decisão livrou o Brasil de rebaixamento e o conservou entre os bons pagadores. Mas o alívio durou poucas horas. À tensão política com o parlamento somou-se o descontentamento de governadores e prefeitos — inclusive petistas. 

Os executivos estaduais e municipais contavam com a mudança do indexador da dívida com a União, aprovada no fim do ano passado, para aliviar o caixa. Diante da crise econômica, o Planalto recuou da decisão de regulamentar a norma. Pretendia adiar a iniciativa até a superação do momento crítico que a economia atravessa.

A intenção, comunicada ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, foi o estopim para piorar a crise política. De forma inesperada, a Câmara aprovou, com votos da base aliada, a renegociação dos débitos de estados e municípios. O projeto seguiu para o Senado Federal. O presidente, Renan Calheiros, adiantou que, “como o governo não regulamentou (a lei), o Congresso terá que fazê-lo”.

Se o parlamento acolher as reivindicações de estados e municípios, potencializará, e muito, as possibilidades de fracasso do ajuste fiscal defendido por Levy e considerado a melhor opção para tirar o país do atoleiro. As medidas buscam superavit primário de R$ 66 bilhões nas contas do setor público — União, estados, municípios e empresas estatais. O ministro declarou não saber onde buscar R$ 3 bilhões para tornar exequível a redução da dívida dos entes federados. 

Sem equilíbrio nas contas públicas, o Brasil poderá experimentar, em dose maior, a inflação, a recessão e o desemprego. Há risco, inclusive, de a retração do Produto Interno Bruto chegar a 2% — o dobro do previsto para este ano. A responsabilidade pelo agravamento da situação não poderá ser conta exclusiva do Executivo. A fatura será dividida com o parlamento. Perdem todos, sem distinção. 

Em encontro com os senadores, o ministro da Fazenda pediu que a votação fosse adiada. Na próxima terça-feira, pretende apresentar agenda positiva à Comissão de Assuntos Econômicos e chegar a denominador comum em relação ao impasse. Abrem-se talvez as possibilidades de acordo mais amplo, que antecipe a reforma tributária, de modo que União, estados e municípios possam alcançar entendimento definitivo em relação às contas públicas. 



Fonte: Visão do Correio Braziliense – 26/03/2015

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