Ao Correio, o chefe do Executivo
local falou sobre a gestão da crise sanitária, além dos planos para ampliar a
vacinação e reabrir setores
“Se todos respeitarem regras de isolamento, uso de máscara e asseio das
mãos, acredito que não teremos problemas e muito menos motivos para um novo
lockdown”, disse ao Correio o governador Ibaneis Rocha (MDB), ao reconhecer os
números graves em todo o país este mês. Ele informou também que, ontem, ficou
acertada a compra de vacinas Sputnik V com o Fundo Soberano Russo. “Ainda
estamos esperando a aprovação da Anvisa, que enviou técnicos a Moscou para
finalizar os estudos”, acrescentou. Sobre a vacinação de professores, Ibaneis
pretende imunizar primeiro os que têm contato direto com alunos, deixando o
pessoal administrativo para uma segunda fase.
Brasília chega aos 61 anos em meio a uma pandemia. Qual balanço o
senhor faz da gestão dessa crise sanitária, que obrigou o GDF a
rever metas e prioridades? Esse é um problema mundial. Aqui, nos
pegou exatamente no momento em que dávamos início a um grande programa de
modernização e revitalização da cidade, depois de um ano dedicado a arrumar as
contas do Distrito Federal. Não gosto de ficar olhando para trás, mas, quando
assumi, havia um rombo de R$ 7,5 bilhões, que foi equacionado com uma série de
medidas que tomamos. Não havia projetos para seguir, os que estavam em
andamento tinham muitos problemas estruturais, casos de Vicente Pires e Sol
Nascente/Pôr do Sol, todos refeitos. Era o momento de dar início aos nossos
planos, às propostas apresentadas na campanha. Mas a pandemia pegou o mundo
todo de frente, e aqui não foi diferente. Tivemos que carrear muitos recursos
para enfrentar uma doença que ninguém conhecia e nem sabia o que fazer; isso
acarretou alguns atrasos. Mas o fato é que mesmo nesta crise o GDF não parou.
Obras importantes foram iniciadas, outras foram concluídas, criamos emprego,
movimentamos a economia, mesmo com as restrições provocadas pelo aumento do
contágio. E também fizemos a maior rede de proteção social do Brasil, atendendo
cerca de 700 mil pessoas com algum tipo de benefício, principalmente
alimentação, procurando não deixar ninguém sem assistência.
As poucas doses de vacinas enviadas pelo Ministério da Saúde
impactaram a imunização no DF. Como a capital, que recebe um fluxo grande
de pessoas de outros estados, pode ampliar a
vacinação, comprando do setor privado? Logo que saíram as primeiras
notícias de uma vacina, ainda em meados do ano passado, começamos a procurar
vacinas para comprar, mas não havia nenhuma disponível. Como não há até hoje.
Agora mesmo, o Consórcio Interestadual de Desenvolvimento do Brasil Central,
que eu presido, está negociando a compra de vacinas Sputnik V com o Fundo
Soberano Russo. O vice-governador, Paco Brito, é o secretário-executivo do
consórcio e, ontem mesmo, teve uma reunião em que ficou acertada a compra
dessas vacinas. Ainda estamos esperando a aprovação da Anvisa, que enviou
técnicos a Moscou para finalizar os estudos. Mas acredito no Ministério da
Saúde, que tem comprado todas as vacinas à disposição, e se comprometeu em
aumentar o número de doses para o DF exatamente pela situação peculiar que
vivemos aqui, atendendo pacientes de todo o país, principalmente do Entorno.
Mesmo na pandemia, o setor da construção civil permaneceu ativo. Mas outros
segmentos, como o comércio e prestação de serviços,
tiveram desaceleração. Como gerar empregos no pós-pandemia? O
Banco de Brasília abriu mais de R$ 5 bilhões em crédito facilitado para os
empresários poderem manter seus negócios nestes tempos tão difíceis; também
temos procurado incentivar o comércio local com a criação dos cartões de
assistência social — como o Prato Cheio, o DF sem Miséria — que movimentam a economia,
principalmente os pequenos mercados. Mas vamos ter que fazer mais para que os
setores mais prejudicados pela necessidade que tivemos de fazer o fechamento
durante alguns períodos. Eu tenho certeza de que sairemos mais fortes desta
pandemia, recuperando os empregos perdidos e incentivando os empreendedores,
principalmente os menores, que são responsáveis pela criação da maior parte dos
empregos.
O ritmo das parcerias público-privadas deve ser acelerado no segundo
semestre? Este é outro ponto de incentivo à economia, que vai possibilitar
a entrada de capital que poderemos investir em obras e ações e também na
criação de empregos. Infelizmente, este é um processo longo, com alguns
entraves burocráticos que precisam ser vencidos. Mas eu tenho a confiança de
que vamos avançar em muitos deles, até porque não estamos parados nem durante a
pandemia e algumas dessas parcerias continuam sendo desenvolvidas, seja como
compensação ou até mesmo com novos negócios.
O transporte público (metrô e ônibus) no DF é um problema que vem se agravando
desde gestões anteriores. O que pode ser feito para que o sistema
tenha qualidade? Estamos trabalhando em várias áreas neste sentido.
Aumentamos muito o número de ônibus, inauguramos três estações de metrô,
criamos terminais rodoviários — trabalho que continua com a construção de mais
dois, em Santa Maria e Itapuã — e criamos novas linhas. Mas, como você disse, é
um problema antigo, que não pode ser resolvido de uma hora para outra, e há
ações para a acontecer nos próximos meses. O maior sinal de que avançamos no
setor, no entanto, é o cartão de mobilidade. Muita gente vai se lembrar de que,
antes de assumir o governo, todo mês tínhamos notícia negativa de pessoas que
não conseguiam carregar o cartão, de filas imensas nos postos, de reclamações
de toda sorte. Hoje, o cartão sumiu do noticiário. Não há mais problema,
reclamações são pontuais e resolvidas na mesma hora. É um avanço que queremos
estender para todo o serviço de transporte público.
O senhor ampliará a contratação de profissionais de saúde, mesmo com
o fim da pandemia? O sistema de saúde do DF e os
investimentos precisam ser revistos? A rede pública foi ampliada como
um todo, e isso é irreversível. Foram contratados mais de 6.500 profissionais durante
a pandemia e esses servidores são efetivos, prestarão serviço de forma
permanente. E isso vale também para os novos espaços, hospitais, leitos,
equipamentos. Um exemplo é o hospital de campanha do estádio Mané Garrincha.
Havia mais de 200 leitos lá; eram leitos intermediários, porque não havia UTI;
mas todos foram reaproveitados na rede pública, inclusive muitos foram
transformados em UTI. Alguns políticos desinformados tentam politizar a
situação, mesmo sabendo que não estão falando a verdade, mas o fato é que,
hoje, contamos com muito mais leitos do que no primeiro pico da doença, ano
passado. Nos próximos dias teremos mais 400 leitos, 100 deles definitivos, que
ficarão depois da pandemia, no hospital que estamos erguendo em Samambaia. Nos
próximos dias queremos retomar as cirurgias eletivas, com a certeza de que
temos uma rede de saúde mais preparada do que antes da pandemia.
O GDF tem uma logística preparada para atender cada vez mais pessoas
entre as faixas de 60 e 50 anos? Estamos preocupados com todas as
faixas etárias. A cada dia temos mais jovens em UTI, muitos se arriscam em
festas clandestinas e, de vetores, se transformam em vítimas. O importante é
que todos nós temos que observar os cuidados básicos, que já sabemos de cor:
distanciamento social, uso de máscara e de água e sabão e álcool gel para
asseio das mãos.
Em relação aos professores da rede pública, como será o modelo de
vacinação? São mais de 35 mil servidores e uma grande preocupação nossa. O
objetivo é vacinar o mais rapidamente possível os professores que têm contato
direto com alunos, deixando o pessoal administrativo para uma segunda fase. As
secretarias da Educação e de Saúde estão fazendo reuniões para definir como
será feita a vacinação.
As disputas judiciais em torno da abertura ou não do comércio geram uma
insegurança no setor, mas as expectativas para abril não são boas. Haverá
mais mortes que em março, mês mais letal. O lockdown pode ser uma saída, até
para preservar a economia nos próximos meses? Os números mostram que
nossa decisão de abrir o comércio de forma controlada, mantendo o toque de
recolher a partir das 22h, foi acertada. A taxa de contágio continua abaixo de
1, o número de casos ativos está em queda, assim como a lista de espera por
leitos de covid-19. Temos mostrado isso com clareza e transparência, e a
Justiça tem nos dado ganho de causa em todas essas tentativas de interferência.
Abril é um mês crucial, com números graves em todo o país, mas aprendemos que é
possível conviver com algumas restrições e cuidados com a saúde. Se todos
respeitarem regras de isolamento, uso de máscara e asseio das mãos, acredito
que não teremos problemas e muito menos motivos para um novo lockdown.
O senhor estuda uma reforma do secretariado e troca nas administrações tendo em vista as eleições do ano que vem? Desde o início da minha gestão, tenho norteado o governo pela competência e pelos resultados, não por alguma política de toma lá da cá. Os partidos da base participam do governo de forma programática, com bons nomes e políticas alinhadas com o pensamento central. As mudanças são sempre pontuais, provocadas para melhorar a ação das secretarias ou empresas. Isso permite que o governo tenha objetivos claros, políticas voltadas para as necessidades da população, todas elas aprovadas pelo gabinete. Eu dou toda liberdade aos secretários e presidentes de empresas, mas eles sabem que eu cobro resultados. A cidade está vendo a movimentação do nosso governo.
Qual mensagem o senhor destacaria para os moradores do DF nesses 61 anos
de vida da capital federal? Brasília foi fundada sobre o alicerce da
esperança e do trabalho. Mais que nunca precisamos honrar o trabalho dos
pioneiros que ergueram essa bela capital em apenas mil dias, apontando para o
interior do país e para o futuro. Fizemos muito desde então, mas estamos diante
de um desafio completamente novo para nossa cidade, hoje uma metrópole. Eu
estou certo de que vamos vencer, buscando o mesmo espírito do nosso fundador,
dos homens que fizeram esse patrimônio cultural da humanidade e da população
que construiu e ajudou a consolidar a nossa capital. Brasília é maior que tudo
isso.
José Carlos Vieira – Correio Braziliense



