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  • quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

    A grande Brasília

    O Distrito Federal é sui generis, não é estado nem município. É um ente especial político-espacial de natureza híbrida. É comum ouvirmos que Brasília, projetada para 500 mil pessoas, está com 2,7 milhões de habitantes; com as cidades de Goiás, esse número ultrapassa 3,5 milhões. Afinal o que é Brasília, o que é DF? Para os Correios, tudo é Brasília, e as cidades-satélites são bairros. As placas de automóveis são todas de Brasília, mesmo se o veículo não saia de Samambaia. Quando se diz que tudo é Brasília, estamos sendo globais e desconsideramos as peculiaridades das cidades do Distrito Federal.

    Não se trata de separar as cidades do DF, a rigor elas já estão separadas, segregadas socio-espacialmente, e o discurso não tem o poder da inclusão. Se um morador de Ceilândia ou de Sobradinho estiver em Manaus ou Fortaleza, é natural que ele diga: “Sou de Brasília”. Mas se estiver no Gama ou no Paranoá, dirá o nome de sua cidade. Os laços socioeconômicos extrapolam o DF e alcançam cidades goianas tornando as relações mais intensas. Se o bater de asas da borboleta, em Taguatinga, afeta o ar que respiramos nas asas do Plano Piloto, imagine o resto.

    Além das decisões de gabinete na ocupação do território do DF, a própria Estrada Parque Contorno (DF-001), grande via anelar que incorpora a sub-bacia do Paranoá foi importante linha limite de demarcação para as cidades-satélites em função do limite de 500 mil habitantes para o tratamento das águas residuais que chegam à sub-bacia do Paranoá.

    A filha de Lucio Costa, a arquiteta Maria Elisa, fala na Grande Brasília. Essa é a questão: temos Brasília e a Grande Brasília. É grande pelas características épicas de sua história e projeto urbanístico, e pelas dimensões espaciais das grandes vias que conectam as várias cidades do DF e de Goiás. Nesse contexto, seria Brasília metrópole? O conceito de metrópole deve ser customizado para a Grande Brasília, afinal as áreas metropolitanas do Brasil têm diferenças com o que vemos no DF. Metrópole pressupõe grande área emendada, conurbada e, de emendadas, só temos a belíssima Unidade de Conservação de Águas Emendadas. Será que Brasília é cidade polinucleada? O conceito é contraditório, afinal não é uma cidade, são várias. Além disso, as cidades-satélites não são apenas núcleos urbanos, são cidades cada vez menos satélites com história e características próprias.

    As ciências enfrentam dificuldades em relação ao conceito de metrópole. O conceito varia entre as diferentes áreas de conhecimento. Para alguns, o Plano Piloto é o centro da metrópole. Para outros, o Plano Piloto está fora do centro metropolitano. Pelo equilíbrio, ainda existente entre áreas livres, unidades de conservação e centros urbanos, conectados por gigantescas vias (estradas), podemos, como hipótese, definir Brasília como uma sub-metrópole tentacular.

    Historicamente, as metrópoles, enquanto pilares materiais e a cristalização dos processos de globalização da economia mundial, tiveram crescimento lento e foram socialmente mais integradas; não são tão segregadas e, claro, não nasceram de modo tão diferenciado como Brasília. A Grande Brasília (dispersa) é fruto não só da evolução induzida pela intervenção (unidirecional) do Estado, mas também da iniciativa da sociedade, materializada na criação de condomínios irregulares (em outras direções). Isso faz de Brasília uma cidade diferente, idiossincrática. Brasília tem até lote redondo!

    A filósofa Françoise Choay nos diz que as cidades crescem concentricamente e nunca entendeu a linearidade de Brasília. Apesar de linear, Brasília luta com essa ideia desde o início quando o projeto da Novacap, ainda em 1957, alargou os dois eixos de Lucio Costa.

    O conceito de espaço público merece customização brasiliense, ele pode expressar a grandeza da nação brasileira, na Esplanada Monumental, e pode ser área abandonada, degradada. O espaço público pode também ser matéria-prima para ocupação promovida pelas redes sociais. A brutal segregação socioespacial e a crescente imobilidade urbana inviabilizam projeto integrador para a Grande Brasília, que se ressente de sistema eficiente e veloz de metrô e VLT.

    Temos unanimidade sobre a Grande Brasília? Afinal, seria Brasília o Plano Piloto? Podemos falar na Pequena Brasília (a primordial — Plano Piloto), na Brasília Média (área tombada), na Grande Brasília (DF), e na Extra Grande Brasília, que incorpora as cidades de Goiás? Isso nos remete ao livro S, M, L, XL (Small, Médium, Large and Extra-Large), de Rem Koolhaas, o arquiteto cult pós-moderno apaixonado por Nova York, que visitou Brasília, e trata a arquitetura metropolitana, com escalas diferenciadas, e veia poética de imagens e textos delirantes.

    A concepção de Brasília foi na contramão do ritmo alucinante e assustador das grandes cidades, que se tornaram metrópoles no século 20, algumas megalópoles, como a Cidade do México e São Paulo. Todos querem paz na cidade, e Brasília, com a beleza e generosidade de seu espaço, ainda garante paz e introspecção criativa, frente ao crescimento desvairado das grandes cidades. O mestre Lucio Costa foi profético quando concebeu as escalas de Brasília; afinal, a histórica falta de planejamento deste valioso pedaço do Brasil deve ser rebatida a partir da consideração de diferentes escalas. É com odulação (as proporções das partes entre si e em relação ao todo), aplicada ao espaço socioeconômico do DF.



    Por:Marcelo Montiel da Rocha  - Coordenador do curso de arquitetura e urbanismo das Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac) – Fonte: Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google 

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