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  • terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

    #História: Os 200 anos de um pioneiro - (Responsável pela primeira expedição científica para a localização e a mudança da capital federal)

    Responsável pela primeira expedição científica para a localização e a mudança da capital federal, o diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen realizou estudos fundamentais para a construção de Brasília no Planalto Central


    A ideia de transferir a capital para o centro do país surgiu muito antes de o presidente Juscelino Kubitschek tomar a decisão política de erguer Brasília, cumprindo um preceito constitucional. A cidade era desejada e imaginada desde o Império por gente como o historiador, engenheiro e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen. Ele comandou a primeira expedição científica para a localização e a mudança da capital federal. Seus levantamentos foram essenciais nesse processo, apesar de ser uma figura pouco lembrada. No dia 17, completam-se 200 anos do nascimento dele. Para fazer jus à sua memória, acadêmicos vão celebrar a data com homenagens em Formosa (GO) e Brasília.

    Antes mesmo de pisar no Centro-Oeste, Varnhagen indicou, com precisão, a localização de Brasília, em 1849, ao publicar, anonimamente, a primeira parte do Memorial orgânico, em Madri (Espanha), onde exerceu funções diplomáticas por 12 anos. Ele enviou a carta ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, enumerando argumentos em favor de uma capital no interior do país. Para confirmar suas deduções, Varnhagen tirou seis meses de licença do posto em Viena — onde assumira, em 1868, a chefia da legação brasileira no Império Austro-Húngaro — e fez uma última viagem ao Brasil, em 1877. Aos 61 anos, realizou, com recursos próprios, uma penosa excursão a cavalo à província de Goiás, passando por São Paulo, Minas Gerais e Bahia, percorrendo estradas e trilhas abertas pelos bandeirantes.

    Em Goiás, visitou a região entre as lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas, entre Planaltina e Formosa, cidades goianas já povoadas à época. Com ajudantes e equipamento, entre eles três barômetros, realizou os estudos de campo. Nesse trabalho, Varnhagen escreveu uma carta ao então ministro da Agricultura, Antônio Francisco de Paula Souza, datada da “Villa Formosa da Imperatriz, em Goyaz, 28 de Julho de 1877” (grafias da época). No documento, o explorador escreveu os apontamentos geofísicos, determinando o local que considerava ideal para construir a nova capital. Ele também destacou as virtudes do lugar para receber imigrantes europeus — colonos alemães não haviam se aclimatado no litoral, causando problemas à imagem do Brasil em Viena.

    Fauna e flora
    Varnhagen também registrou e classificou a flora e a fauna do cerrado. A pesquisa resultou na obra A caça no Brasil. Ao fim da aventura, iniciou uma campanha na imprensa em favor da interiorização da capital. De volta ao posto diplomático no Império Austro-Húngaro, publicou um livreto de 32 páginas intitulado A questão da capital: marítima ou no interior? (1877), no qual reuniu as informações coletadas e os argumentos para reforçar seus pontos de vista. Sugeriu, ainda, que se começasse a fazer convergirem para o local determinado as estradas de ferro de d. Pedro II (depois Central do Brasil) e da Companhia Mogiana.

    O plano de deslocar a sede do governo para o interior já havia sido aventado por Hipólito da Costa (1774-1823) e por José Bonifácio (1763-1838). Mas Varnhagen aperfeiçoou a proposta, fornecendo argumentos mais precisos. Os conhecimentos acumulados no estudo de mapas do período colonial o levaram a inferir que o espaço ideal para abrigar a futura capital ficava entre três grandes vales — do Amazonas, do Prata e do São Francisco, nos chapadões do planalto de Goiás, vizinhos ao triângulo formado pelas lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas. Localização muito próxima onde está o Distrito Federal.

    Reconhecimento
    O jornalista, professor e historiador brasiliense Jarbas Silva Marques organiza um dos eventos pelo bicentenário de Francisco Adolfo de Varnhagen. Em 6 de março, ele vai comandar uma palestra aberta ao público, em Formosa. “Nessa data, vamos transferir a Academia de Artes do Planalto, de Luziânia, cidade que serviu de base para o trabalho de campo dele, para Formosa”, conta. Jarbas destaca que um dos três barômetros usados na expedição está no Memorial JK, em Brasília. O Palácio do Itamaraty organiza um seminário, a ser realizado em 31 de março, em memória de Varnhagen.

    Para a professora Lucia Maria Paschoal Guimarães, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Francisco de Varnhagen foi o maior historiador de sua época, pela extensão da obra, dos fatos revelados, das fontes documentais descobertas, pela publicação de testemunhos inéditos e pela determinação. “Contudo, a memória nacional que o reconhece como o pai da história do Brasil ainda lhe deve um último tributo: o pioneirismo do plano da transferência da capital para as terras do Planalto Central. Se a construção de Brasília é fruto da vontade política do presidente Juscelino Kubitschek, do urbanismo arrojado de Lucio Costa e do traço modernista da arquitetura de Oscar Niemeyer, a esses nomes cabe acrescentar o de Varnhagen, quem primeiro vislumbrou a paragem onde hoje se ergue a sede da República”, ressalta ela, coordenadora do projeto Francisco Adolfo de Varnhagen, que integra a Coleção Memória do Saber (CNPq).

    Memória: Um apaixonado pelo Brasil
    Francisco Adolfo Varnhagen nasceu em 17 de fevereiro de 1816, em Sorocaba (SP), filho da portuguesa Maria Flávia de Sá Magalhães e de Friedrich Ludwig Wilhelm Varnhagen. Engenheiro militar alemão, o pai foi um dos pioneiros da fundição de ferro no Brasil. Chegou aqui em 1809, contratado pela coroa portuguesa para iniciar os trabalhos da fábrica de São João de Ipanema, onde permaneceu até 1821, quando se mudou para Portugal com a família.

    O filho de Maria e Friedrich estudou no Real Colégio Militar da Luz, em Lisboa, e iniciou a carreira militar à época das Guerras Liberais. Ainda em Portugal, escreveu Notícia do Brasil, seu primeiro trabalho de história. Suas pesquisas levaram à localização do túmulo de Pedro Álvares Cabral na Igreja da Graça, em Santarém (PA). Foi admitido como sócio-correspondente na Academia de Ciências de Lisboa e formou-se engenheiro militar em 1839.

    No ano seguinte, Francisco retornou ao Brasil, ingressando no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1841, como primeiro-secretário. Em 1844, ganhou a nacionalidade brasileira, podendo ser admitido na carreira diplomática. Serviu em Lisboa e Madri, obtendo reconhecimento como historiador com a História geral do Brasil, em dois volumes (1854-1857). Serviu ainda no Paraguai (1858), na Venezuela, em Nova Granada (atual Colômbia), no Equador, no Chile, no Peru e nos Países Baixos.

    No Chile, Varnhagen se casou com Carmen Ovalle, em 1864, constituindo família. O diplomata aproveitou o contato com o exterior para coletar documentos sobre o Brasil em bibliotecas e arquivos. Recebeu, em 1872, o título de Barão de Porto Seguro, sendo elevado a visconde dois anos depois. Varnhagen encerrou a carreira diplomática em Viena, onde morreu em 1878, aos 62 anos, logo após deixar o legado para a mudança da capital.

    Por exigência da esposa, seu corpo foi sepultado em Santiago, a capital chilena. Um século depois, seus despojos foram trasladados para Sorocaba, onde hoje se encontram, atendendo à vontade expressa em testamento. Deixou uma extensa e variada bibliografia, composta por dezenas de títulos — livros, opúsculos, artigos, monografias e memórias, com estudos de história, de literatura, de etnografia e de filologia. São creditados a ele o reconhecimento e a denominação do estilo manuelino — a forma arquitetônica surgida em Portugal no fim do século 15 que floresceu no reinado de d. Manuel I (1469-1521).

    Seu amor pela terra natal levou-o a registrar, embaixo do nome da obra que o imortalizou, a História do Brasil, a expressão “natural de Sorocaba”. Seus restos mortais estão na Avenida General Osório, em Sorocaba, em um monumento construído para homenageá-lo.

    Trecho : de A questão da capital: marítima ou no interior?
    “Qual o local mais conveniente para fixar a sede do Governo Imperial? Cremos haver deixado demonstrada a conveniência da exclusão de todos os portos de mar. E agora acrescentaremos: a capital do Império deve estar em alguma paragem bastante no interior, que reúna mais circunstâncias favoráveis. (…) É a em que se encontram as cabeceiras dos afluentes Tocantins e Paraná — dois dos grandes rios que abraçam o Império; isto é, o Amazonas e o Prata, com as do São Francisco que, depois de o atravessar pelo meio, desemboca a meia distância da cidade da Baía à de Pernambuco. É nessa paragem bastante central e elevada, donde partem tantas veias e artérias que vão circular por todo o corpo do Estado, que imaginamos estar o seu verdadeiro coração, é aí que julgamos deve fixar-se a sede do governo. (…) Refiro-me à bela região situada no triângulo formado pelas três lagoas Formosa, Feia e Mestre d’Armas, com chapadões elevados a mais de mil metros, como nessa paragem requer, para melhoria do clima, a menor latitude, favorecidas com algumas serras mais altas da banda do norte, que não só protegem de alguns ventos menos frescos desse lado, como lhes fornecerão, mediante a conveniente despesa, os necessários mananciais.”

    Medição
    O barômetro é um instrumento científico usado em meteorologia para medir a pressão atmosférica. Há dois tipos: os de mercúrio e os aneroides (metálicos).


    Fonte: Renato Alves – Correio Braziliense

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