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  • sábado, 8 de outubro de 2016

    Uma cidade que vai se desmanchando

    Foto: João Campello

    “Menos é mais” é , talvez, a frase mais icônica dentro do mundo da arquitetura. Atribuída ao arquiteto e professor da escola alemã da Bauhaus, Mies van der Rohe (1886-1969), para traduzir e sintetizar, como um haicai enxuto, tudo o que buscava a arquitetura moderna e o design em seu período áureo. Em seu sentido mais amplo, a frase traduz o pensamento da época que buscava despir o objeto de seus ornamentos e outros adereços triviais, conferindo a eles sentido e racionalidade funcionais. As formas puras, a geometria limpa, a valorização dos materiais e do design, além, é claro, da planta e da fachada livres entre outros importantes elementos construtivos, passaram a merecer mais atenção por parte de artistas e arquitetos. Foi justamente dentro desse espírito vanguardista que foi pensado o projeto da nova e revolucionária capital dos brasileiros por Lucio Costa.

    Questões como a setorização dos serviços, a divisão e valorização dos espaços, mesmo os espaços vazios, foram desenhados para unir beleza e harmonia à funcionalidade e à racionalidade de uma cidade, de modo a qualificar adequadamente os espaços urbanos. Essa, na visão de Lucio Costa e esboçado em seu Relatório de 1957, deveria ser uma “cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas, ao mesmo tempo, cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de se tornar, com o tempo, além de centro de governo e administração, foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país”.

    A união dessa visão da urbe moderna com a plasticidade de Niemeyer fez brotar “a flor do deserto”. Assim, lembra Niemeyer, em As curvas do tempo, “o velho cerrado cobriu-se de prédios e de gente, ruído, tristezas e alegrias. O tempo cuidou de fazer com que muitos brasileiros, críticos da transferência da capital, acabassem por aceitar uma realidade consolidada com engenho e arte. O mesmo tempo que serenou os ânimos, cuidou, a seu modo, de conduzir a cidade ao seu processo natural de desfazimento lento. A democracia interrompida abruptamente por duas décadas, o exílio e a perseguição a seus idealizadores e o fim do modernismo como ideia libertadora do passado cuidaram de pôr um fim “a um movimento e a um tempo de otimismo que visava apenas projetar o país e os brasileiros rumo ao futuro”.

    O que veio a seguir, se distanciou léguas da ideia original. O inchaço da capital, provocado pela formação rápida de cidades dormitórios ao redor, bem como a especulação criminosa das terras públicas, sob a bênção de políticos inescrupulosos aliados a empreiteiros oportunistas, cuidaram de abreviar a decadência da cidade.

    O que se vê hoje, com exceção de algumas áreas já consolidadas, é uma cidade em franco processo de envelhecimento precoce. Suas duas avenidas principais de comércio (W3 Norte e Sul) são um retrato acabado do terceiro mundo. Pichações, poluição urbana, descontinuidade de calçadas, sujeira, puxadinhos medonhos e remendos feitos aleatoriamente por diversos proprietários inspirados dão uma mostra do pouco caso que fazemos dos espaços públicos, tratados como áreas totalmente descontinuadas e alheias de nossas próprias casas.

    À explosão de barracos de lata, com comércio improvisado se somaram os food trucks espalhados por toda Brasília, potencializando o caos urbano. Em um ambiente em decadência, obviamente se multiplicaram também os problemas sociais. A violência e o aumento da criminalidade, constatados hoje, encontram o espaço ideal para se proliferar e se firmar justamente em espaços esquecidos pelo poder público.


    ****


    A frase que não foi pronunciada
    “O Brasil precisa de uma nova história de presente. De passado e de futuro também.”
    (Alguém à beira da depressão, ao associar o próprio suor do trabalho com a água fresca da eterna corrupção de autoridades)



    Por: Circe Cunha - Coluna "Visto, lido e ouvido" - Ari Cunha - Correio Braziliense - Foto: João Campello - Ilustração Blog.

    Um comentário:

    1. Parabéns à jornalista Circe Cunha. Sinto imenso orgulho ao ler esta reportagem tão realista e verdadeira. Penso que são palavras que há muito nos faziam falta.

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