A oferta e a promoção da saúde hoje no Brasil estão dimensionadas de forma a atrair inúmeros segmentos que constituíram um universo de interesses gigantesco, o qual é preciso compreender. Por participação direta, ou indireta, são conglomerados financeiros, indústria farmacêutica, indústria de insumos, setores de desenvolvimento e infraestrutura da indústria tecnológica, serviços de exames, além das várias categorias profissionais.
Todos se propõem a ser copartícipes na construção e operação de um modelo que custa muito caro ao país. Relatório recente da Associação Nacional de Hospitais Privados nos mostra que o custo da saúde no Brasil está na casa de R$ 400 bilhões, soma que representa quase 20% do PIB. Esse dado mostra, também, o porquê do recente interesse e da iniciativa de conglomerados financeiros em comprar hospitais privados para ofertar saúde suplementar.
Ou seja, o setor de saúde hoje tem grande importância para a economia nacional. O alerta se evidencia quando o segmento importante, médicos e acadêmicos da área da saúde, deixa de ser protagonista e é afastado da construção do modelo da promoção da saúde. É aí que os interesses começam a desequilibrar os pratos da balança, que têm, de um lado, o atendimento ao indivíduo e, de outro, o desempenho dos vários setores interessados, principalmente os de peso econômicofinanceiro. Esse desequilíbrio tende a comprometer ainda mais a oferta e a promoção da saúde.
Por exemplo, a assistência tecnológica de ponta, a internet, as ferramentas de comunicação rápida têm afastado o elemento humano da manutenção e recuperação da saúde do indivíduo. Muitas vezes se coloca a atenção ao paciente como um sofisma para defender a aplicação de certos procedimentos de tecnicismo exagerado, ou o prolongamento do sofrimento das pessoas, que não se justificam.Ouvi certa vez de um velho amigo médico a frase: “Eu quero viver muito; não quero durar bastante”.
O profissional médico e o conhecimento acadêmico estão sendo excluídos do protagonismo na promoção da saúde, o qual foi assumido pelo segmento monetário. Temos que discutir com a sociedade brasileira como tratar as diretrizes e protocolos assistenciais do ponto de vista do interesse da nação e da sociedade.
Não existe solução pronta, mas a necessidade premente de rever os conceitos com os quais se trabalha a saúde no Brasil; conhecer até que ponto essa realidade afeta os profissionais da saúde e compromete os resultados, além de verificar o quanto encarece ou barateia os processos.
Nessas discussões, cuja promoção é papel primordial do Estado, a participação do conhecimento médico, da academia, é fundamental. Isso porque não se pode tratar a exceção como o todo, nem basear decisões em minorias, sob o risco de tratar questões unitárias com respostas coletivas. Estas podem sair muito caras para a Nação, servindo aos interesses da indústria e serviços e não ao da população. Não se pode perder de vista que saúde e vida não têm preço, mas têm custo.
Para exemplificar, vejamos a questão da incidência de DST/Aids no Brasil. O número de doentes subiu, demonstrando queda de qualidade no seu enfrentamento, embora o país tenha gastado mais de R$ 1,5 bilhão em medicamentos e assistência aos soropositivos. Isso acontece porque, simplesmente, deixou-se de investir em educação, na promoção de campanhas de alerta e esclarecimento que tiveram sucesso em passado recente. Aí fica a pergunta: a quem interessa o aumento do número de soropositivos?
Não existe solução pronta, nem em curto prazo, para o modelo em curso no Brasil. A questão não é, como querem fazer crer alguns, chegando mesmo a direcionar certas políticas públicas, de simples oferta de serviços de saúde. Passa ainda, e principalmente, pelo disciplinamento da procura, que começa com a oferta de educação, inclusive sanitária, tratamento de resíduos, saneamento e outras questões de infraestrutura básica. Sem respostas a esses temas, nunca haverá elementos para compensar a carência acumulada ao longo de séculos no país.
A sociedade tem que participar desse debate e o profissional médico precisa ser convocado a assumir de volta o papel de protagonista no cenário atual, que demanda um debate sério, técnico e que, se tem variáveis economicofinanceiras, tem enormes implicações sociais.
Por: Luciano Carvalho - Presidente da Associação Médica de Brasília (AMBr) - Correio Braziliense 25/08/2014
Todos se propõem a ser copartícipes na construção e operação de um modelo que custa muito caro ao país. Relatório recente da Associação Nacional de Hospitais Privados nos mostra que o custo da saúde no Brasil está na casa de R$ 400 bilhões, soma que representa quase 20% do PIB. Esse dado mostra, também, o porquê do recente interesse e da iniciativa de conglomerados financeiros em comprar hospitais privados para ofertar saúde suplementar.
Ou seja, o setor de saúde hoje tem grande importância para a economia nacional. O alerta se evidencia quando o segmento importante, médicos e acadêmicos da área da saúde, deixa de ser protagonista e é afastado da construção do modelo da promoção da saúde. É aí que os interesses começam a desequilibrar os pratos da balança, que têm, de um lado, o atendimento ao indivíduo e, de outro, o desempenho dos vários setores interessados, principalmente os de peso econômicofinanceiro. Esse desequilíbrio tende a comprometer ainda mais a oferta e a promoção da saúde.
Por exemplo, a assistência tecnológica de ponta, a internet, as ferramentas de comunicação rápida têm afastado o elemento humano da manutenção e recuperação da saúde do indivíduo. Muitas vezes se coloca a atenção ao paciente como um sofisma para defender a aplicação de certos procedimentos de tecnicismo exagerado, ou o prolongamento do sofrimento das pessoas, que não se justificam.Ouvi certa vez de um velho amigo médico a frase: “Eu quero viver muito; não quero durar bastante”.
O profissional médico e o conhecimento acadêmico estão sendo excluídos do protagonismo na promoção da saúde, o qual foi assumido pelo segmento monetário. Temos que discutir com a sociedade brasileira como tratar as diretrizes e protocolos assistenciais do ponto de vista do interesse da nação e da sociedade.
Não existe solução pronta, mas a necessidade premente de rever os conceitos com os quais se trabalha a saúde no Brasil; conhecer até que ponto essa realidade afeta os profissionais da saúde e compromete os resultados, além de verificar o quanto encarece ou barateia os processos.
Nessas discussões, cuja promoção é papel primordial do Estado, a participação do conhecimento médico, da academia, é fundamental. Isso porque não se pode tratar a exceção como o todo, nem basear decisões em minorias, sob o risco de tratar questões unitárias com respostas coletivas. Estas podem sair muito caras para a Nação, servindo aos interesses da indústria e serviços e não ao da população. Não se pode perder de vista que saúde e vida não têm preço, mas têm custo.
Para exemplificar, vejamos a questão da incidência de DST/Aids no Brasil. O número de doentes subiu, demonstrando queda de qualidade no seu enfrentamento, embora o país tenha gastado mais de R$ 1,5 bilhão em medicamentos e assistência aos soropositivos. Isso acontece porque, simplesmente, deixou-se de investir em educação, na promoção de campanhas de alerta e esclarecimento que tiveram sucesso em passado recente. Aí fica a pergunta: a quem interessa o aumento do número de soropositivos?
Não existe solução pronta, nem em curto prazo, para o modelo em curso no Brasil. A questão não é, como querem fazer crer alguns, chegando mesmo a direcionar certas políticas públicas, de simples oferta de serviços de saúde. Passa ainda, e principalmente, pelo disciplinamento da procura, que começa com a oferta de educação, inclusive sanitária, tratamento de resíduos, saneamento e outras questões de infraestrutura básica. Sem respostas a esses temas, nunca haverá elementos para compensar a carência acumulada ao longo de séculos no país.
A sociedade tem que participar desse debate e o profissional médico precisa ser convocado a assumir de volta o papel de protagonista no cenário atual, que demanda um debate sério, técnico e que, se tem variáveis economicofinanceiras, tem enormes implicações sociais.
Por: Luciano Carvalho - Presidente da Associação Médica de Brasília (AMBr) - Correio Braziliense 25/08/2014

