Mulher morreu à espera de transferência para
UTI; equipe alegou 'cansaço'. No Hran,
emergência passou a tarde fechada por falta de profissionais.
Do G1 DF
Pacientes
que procuraram atendimento médico neste sábado (27) em hospitais públicos e
Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) do Distrito Federal encontraram
consultórios vazios e emergências lotadas. Em Ceilândia e no Plano Piloto, os
médicos não compareceram ao plantão alegando atraso na segunda parcela do 13º
salário. Segundo o governo, o prazo foi expirado em "apenas dois
dias" e não pode justificar as ausências.
No
Hospital Regional da Asa Norte (Hran), o pronto-socorro foi
fechado por volta das 13h30 porque não havia profissionais para atender os
pacientes. Durante a tarde, uma médica residente atendia quem já estava
esperando, mas nem os pacientes levados ao local pelo Samu conseguiam fazer
novos registros para aguardar atendimento.
Segundo
um funcionário do hospital que não quis se identificar, a clínica médica chegou
a receber 42 pacientes ao mesmo tempo. No momento, apenas uma enfermeira tomava
conta do setor.
Em
entrevista à TV Globo no fim da tarde, a secretária de Saúde, Marília Coelho
Cunha, afirmou que a situação já tinha sido normalizada no Hran. Segundo ela, o
atraso nos salários é pequeno e não pode ser usado como justificativa.
"Ninguém
pode faltar ao trabalho, deixar de trabalhar por causa de dois dias de atraso
de parte de pagamento de 13º salário. A gente convoca os trabalhadores da saúde
para estarem cumprindo seu trabalho. Nós temos um código de ética e temos que
cumprí-lo", afirmou.
A
secretária disse acreditar que os pagamentos serão normalizados na próxima
semana, mas afirmou que quem responde pelas verbas é a Secretaria de
Administração Pública.
Morte
à espera
O garçom Rafael Pereira da Silva precisou recorrer à Justiça para garantir uma vaga de UTI para a mãe. Mas, mesmo com a decisão favorável em mãos, não conseguiu a transferência da mulher para o leito intensivo.
O garçom Rafael Pereira da Silva precisou recorrer à Justiça para garantir uma vaga de UTI para a mãe. Mas, mesmo com a decisão favorável em mãos, não conseguiu a transferência da mulher para o leito intensivo.
Segundo
ele, a equipe Samu alegou "cansaço" e se recusou a fazer o transporte
para o Hospital Regional do Gama. "Eles disseram que não iam ao Gama,
porque era longe e eles estavam cansados de um plantão. Eu tenho isso gravado",
afirma.
Sem
atendimento, a paciente de 49 anos morreu no início da tarde deste sábado (27).
A Secretaria de Saúde afirmou que vai investigar se a mulher tinha condições de
ser transferida. Caso seja constatada falha no atendimento, a corregedoria será
acionada, segundo a pasta.
Problema
geral
A falta de médicos também prejudicou os atendimentos em outras regiões do DF. A dona de casa Ana Carolina, grávida de 41 semanas, conta que tinha parto agendado no hospital de Taguatinga mas foi enviada na última hora para Ceilândia. Dez horas após iniciar o jejum, ela ainda aguardava atendimento.
A falta de médicos também prejudicou os atendimentos em outras regiões do DF. A dona de casa Ana Carolina, grávida de 41 semanas, conta que tinha parto agendado no hospital de Taguatinga mas foi enviada na última hora para Ceilândia. Dez horas após iniciar o jejum, ela ainda aguardava atendimento.
"A
gente fica esperando o tempo todo, sentada aqui, sem comer. E eles não falam:
'não vai internar', porque aí você pega e come. Não. Fica sem comer, sem nada,
passando mal", afirma. A escala do hospital previa cinco médicos de
plantão na tarde deste sábado (27), mas apenas um estava atendendo no
pronto-socorro.
Também
na emergência do Hospital Regional de Ceilândia, a dona de casa Graciele dos
Anjos diz que ouviu um médico ordenar à recepcionista que suspendesse os
atendimentos. "Ele disse que não ia atender mais ninguém porque estava
sozinho, com fome. Quem estivesse lá dentro, bem. Quem estivesse aqui fora, não
ia mais atender", conta.
Outra
opção de atendimento, a UPA da região também não tinha médicos na tarde de
sábado (27). A recepção estava vazia, e a escala de profissionais de plantão
não estava disponível, como manda a lei.
Segundo
uma servidora da unidade, que preferiu não se identificar, o caos no
atendimento é causado pela falta de pagamento do 13º salário e de benefícios
como o vale-alimentação. "Acertando o pagamento, fica tudo certo",
diz. De acordo com ela, sem o pagamento, a população "pode ficar sem
atendimento, ou com atendimento inadequado, né?".
Ainda
de acordo com ela, o pagamento não é o único problema enfrentado pelos médicos:
falta medicação e equipamentos de saúde nas unidades. "A gente tenta improvisar
com o que tem, né? Às vezes, tem que transferir o paciente porque não tem
manutenção do [aparelho de] raios-x", afirma a servidora.
Protestos
Em novembro, médicos deixaram de frequentar os plantões de fim de semana na rede pública como um "protesto" para cobrar o pagamento de horas extras. Segundo o sindicato da categoria, havia uma "insegurança" entre os profissionais devido aos atrasos nos salários de outros servidores da administração pública.
Em novembro, médicos deixaram de frequentar os plantões de fim de semana na rede pública como um "protesto" para cobrar o pagamento de horas extras. Segundo o sindicato da categoria, havia uma "insegurança" entre os profissionais devido aos atrasos nos salários de outros servidores da administração pública.
À
época, a secretária de saúde negou os atrasos e afirmou que os servidores
ausentes sem motivo seriam punidos. "Não é possível ter quatro
profissionais afastados no mesmo dia. Fica um médico assinando atestado para
outro, é um absurdo", disse Marília.
Desde
esta paralisação, iniciada no dia 15 de novembro, os pacientes do DF
enfrentaram uma série de problemas nos atendimentos, motivados por protestos de
servidores com salários atrasados.
Os
terceirizados, responsáveis pela limpeza e pela recepção das unidades de saúde,
cruzaram os braços por sete dias e só retomaram as atividades nesta sexta-feira
(26), após o depósito do 13º salário e de benefícios. O GDF afirma que repassou
a verba no prazo determinado, e que vai acionar judicialmente a empresa
responsável pelo serviço.
Com
a greve, um grande volume de lixo comum e hospitalar se acumulou nas unidades
de saúde. Imagens feitas por um telespectador da TV Globo na sexta (26) mostram
"montanhas" de sujeira acumulada nos corredores do Hospital Regional
de Taguatinga (HRT), no Distrito Federal. (veja ao lado)
Nas
imagens, é possível ver sacos de lixo amontoados em meio aos espaços de
circulação de médicos e pacientes. No corredor que dá acesso ao centro
cirúrgico e à ala obstétrica, a pilha quase alcança o teto. No mesmo local,
baldes e panos foram deixados embaixo de um buraco na cobertura de gesso, por
onde vaza água durante as chuvas.


