O governo precisa, em
primeiro lugar, fazer uma análise crítica das causas de nossa atual situação e
dos erros cometidos.
Nas democracias, o
povo vai às ruas quando o descontentamento com o governo se alia à descrença
com a oposição; e quando governo e oposição não se entendem para promover a
reorientação do país, superando as razões de descontentamento e descrédito.
Após as últimas manifestações, o governo afirmou que os
que foram às ruas eram os eleitores do opositor da candidata Dilma.
Em vez de estimular esse terceiro turno eleitoral, a
presidente Dilma deveria reconhecer que os brasileiros têm razões para estarem
descontentes: a imensa diferença entre as promessas do marketing de campanha e
as medidas tomadas nos primeiros dias de governo; a inflação e o aumento nas
tarifas de luz e no preço dos combustíveis; o desemprego crescente; a corrupção
e a devastação da Petrobras; o corte de verbas na Educação; os equívocos do
Fies, o baixo desempenho no Enem; a sensação de desamparo, insegurança e
incerteza da população; o sentimento de falta de rumo do país.
É assustador perceber que o Brasil está mergulhado em
tamanha crise sem que o governo reconheça seus erros, e sem que a oposição
perceba que, embora a culpa seja do governo, o problema é de todos, e devemos
tomar as decisões necessárias para salvar o Brasil e reorientar o futuro.
O governo precisa, em primeiro lugar, fazer uma análise
crítica das causas de nossa atual situação e dos erros cometidos, na
administração das contas públicas, na gestão de economia e na montagem da
infraestrutura.
Em segundo lugar, precisa fazer um mea culpa. E em
terceiro, em vez de acenar com essa vaga ideia de que está aberto ao diálogo,
fazer um convite a todas as forças políticas e sociais rumo a um entendimento
para reorientar o país.
Não basta diálogo, é preciso entendimento. Que oposição e
governo componham um programa de médio prazo com um ajuste fiscal imediato,
que:
— Tenha eficiência para cobrir o rombo das contas
públicas;
— Seja justo para proteger os mais pobres dos custos
necessários;
— Defina uma estratégia que preserve os investimentos
essenciais ao crescimento econômico;
— Tenha legitimidade decorrente desse entendimento entre
os partidos da base governista e políticos de todos os matizes, além de
trabalhadores, empresários e comunidade intelectual;
Para que seja possível combinar esses princípios, em
parte contraditórios, o ajuste deve ser gradual, programado ao longo do tempo,
sem o choque que sacrifique o presente, nem o populismo que sacrifique o
futuro.
Dificilmente isso será proposto pelo governo, ou aceito
pela oposição.
Por isso, a porta para o entendimento necessário à
superação da crise só será aberta se a população estiver em clima de
manifestação permanente, pacífica, dentro da rotina do dia a dia, carregando
faixas e falas aos seus locais de trabalho, usando as redes sociais. Fazendo do
Brasil uma imensa praça, em vigília permanente, até que as lideranças nacionais
se entendam no propósito de salvar o Brasil.
*Cristovam Buarque - é professor emérito da UnB e
senador pelo PDT-DF


