A cidade comemora hoje 14 anos. Mesmo tão nova, conquistou independência
e o coração dos moradores que ali vivem
*Por Luiz Calcagno
Às 7h, apenas alguns carros na rua. A cidade parece
tranquila ao acordar. Em apenas 10 minutos, o trânsito sofre uma metamorfose.
Moradores ouvem das janelas distantes, do 12º, 20º, 30º andar, espasmos
sinfônicos de buzinas. Tudo se move em câmera lenta. Menos no parque ecológico.
Lá, pessoas aproveitam as primeiras horas do dia para caminhar, correr e
conversar. Idosos se exercitam nos pontos de encontro comunitário, cercados por
bambuzais e aves. Ao mesmo tempo, nas padarias e cafés, outro tipo de
movimento. Bate-papos, pedidos, reuniões e mesas cheias. Há um certo
congestionamento, mas tudo é mais rápido entre achocolatados, expressos e
mordidas no pão de queijo. No fim da tarde, as ruas novamente são invadidas por
carros particulares, enquanto crianças brincam no parque e mães e babás
interagem. Os botecos também são ponto de encontro diário. Pode-se ir a pé
encontrar um amigo. Mais um dia comum em Águas Claras, cidade que comemora,
hoje, 14 anos da lei que tornou a cidade região administrativa do Distrito
Federal.
A cidade pode ser jovem, mas coleciona uma série de
características próprias. Foi pensada, segundo o arquiteto, urbanista e
professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Zimbres, um dos
responsáveis pelo projeto de Águas Claras, com uma liberdade maior que a do
Plano Piloto, com mais áreas mistas e comércios e bares no andar térreo de
condomínios, “como a Rua Augusta, em São Paulo”, compara (leia Palavra de
especialista). Isso deu à cidade uma característica bairrista e ativa nos
assuntos das comunidades. A administração regional trabalha em conjunto com a
associação de moradores e o grupo Mães Amigas de Águas Claras, que tem mais de
58 mil membros. Carros estacionados, bueiros quebrados e buracos no asfalto
logo chegam ao conhecimento do administrador.
Nos últimos anos, abandonou a fama de
cidade-dormitório. O comércio é movimentado e detém o título de 2º maior centro
gastronômico do DF. Moradores identificam os vizinhos como filhos de Ceilândia,
de Taguatinga ou do Plano, mas há, também, aqueles que vieram de outros lugares
do Brasil, e encontraram na RA-XX, uma cidade mais parecida com os municípios
de origem, localidades, muitas vezes, bem mais antigas que Brasília.
É também um dos locais onde o programa Circula
Brasília está em sua fase mais adiantada, embora sofra diariamente com o
trânsito caótico, sem data para arrefecer. Crescendo a uma taxa de 7,8% ao ano,
o principal reduto da classe média da capital não tem hospital ou escolas
públicas para atender a população. E, sem poligonal definida, moradores de
Águas Claras Vertical, onde predominam os edifícios, e dos bairros de
Arniqueiras e Areal ainda têm dificuldades de se entender como uma única
cidade.
Niteroienses, Leandro Faria, 37 anos, e Juliana
Legentil, 36, encontraram na cidade um ambiente muito mais próximo da cidade
natal que em qualquer outro local do DF. Se mudaram para a capital em outubro
de 2006 e foram para o atual endereço, na Avenida Parque Águas Claras. Tiveram
dois filhos, Júlia e Miguel Legentil, respectivamente, com 6 e 3 anos. “O
ambiente aqui é muito mais próximo do que vivíamos em Niterói. Mais familiar.
No resto do DF, é tudo muito setorizado”, explica Juliana. “As pessoas são mais
acolhedoras e a comunidade é mobilizada. Temos uma noção do que está, ou não
sendo feito na cidade”, completa o marido.
Ainda de acordo com Juliana, a primeira geração de
crianças de Águas Claras tem bons espaços para se socializar. “Elas interagem
facilmente com amigos do condomínio e de outros prédios. Os amigos do colégio
também moram na mesma cidade”, conta. Leandro destaca que tanto a família
quanto outros moradores priorizam o comércio e o lazer locais. “Boa parte das
pessoas ainda trabalha no Plano, claro. Mas, priorizamos a cidade em tudo que
podemos. Inclusive no nosso lazer”, garante. Amália Rosa Rodrigues, 40, e o
marido, Cássio Adriano Lobo Leão, 41, concordam. Pais de Gustavo e Mariana
leão, de 6 e 2 anos, ela é de Sobradinho e ele nasceu em Salvador, mas morava
no Guará. “Águas Claras é uma cidade autossuficiente. Não precisamos sair daqui
para praticamente nada. Nos consolidamos como cidade e nosso crescimento é
indiscutível”, destaca.
Muito o que fazer
As comemorações de aniversário da cidade durarão
todo o mês de maio. Incluirão exposições, inauguração de obras públicas,
pedaladas, festivais gastronômicos, saraus e eventos religiosos (veja
Programação). À frente de parte das atrações do calendário oficial está Ana
Paula leite, 33 anos, idealizadora do grupo no Facebook Mães Amigas de Águas
Claras, que está ativo desde junho de 2012 e conta com 58 mil mães. O grupo que
nasceu nas redes sociais mobiliza moradores da cidade. “Nossa finalidade é
promover eventos culturais, ações voluntárias solidárias em hospitais e lares
de idosos. Já realizamos casamentos coletivos. Uma vez por mês fazemos uma
atividade gratuita, voltada para a comunidade, como um curso de gestantes ou da
primeira infância. Pensamos no desenvolvimento social de mães e filhos. Estamos
formando os adultos do futuro”,explica.
Para Ana Paula, o grupo é um minirretrato da cidade
e, a partir das interações da página, ela traça um desenho da região. “Temos
gente de todas as religiões, políticas, diferentes classes sociais. Temos pessoas
que vieram de regiões administrativas menos favorecidas e outras mais. Todas,
pessoas que chegaram em Águas Claras para constituir família. Somos uma cidade
que luta muito por melhorias e segurança. Somos uma cidade jovem, organizada,
com pessoas que conhecem os próprios direitos. Sempre que vemos uma cosia na
rua, denunciamos. O principal desafio é o crescimento da cidade, que foi fora
do controle. Temos que incentivar as pessoas a usarem o metrô, as ciclofaixas.
Outro problema é que Arniqueiras é uma área ainda em regularização e que sofre
com algumas carências com isso”, enumera.
O presidente da Associação de águas Claras
concorda. Roman Cuattrin, 45, concorda. Ele fala com carinho da cidade, mas não
se furta a falar dos problemas que os moradores enfrentam. “Somos uma cidade
muito bairrista e o morador participa, se envolve, cobra e acompanha as
questões da cidade. Já fomos procurados por outras associações de moradores do
DF que têm dificuldade em engrenar. Usamos as redes sociais e demos voz ao
morador que já queria se manifestar. A oferta de comércio, serviços,
gastronomia e vida noturna nos torna uma cidade independente. Temos shoppings,
redes de restaurantes, os principais bancos. Mas temos uma cidade de 14 anos
que é carente de calçadas em áreas públicas, não possui um posto de saúde. E
temos espaço para esses equipamentos. Além disso, precisamos interconectar
melhor nossos bairros. Areal e Arniqueiras não dialogam tanto com a área
vertical da RA”, aponta.
Cidade legal
A Lei Distrital nº 3.153, de maio de 2003,
sancionada pelo então governador Joaquim Roriz, transformou Águas Claras em
região administrativa. O mesmo texto oficializou o Riacho Fundo II. O Sudoeste
e a Octogonal e o Varjão. Antes disso, a Lei Distrital nº 385 de dezembro de 1992
autorizou a implantação do bairro de Águas Claras em Taguatinga e aprovou o
respectivo plano de ocupação.
Mobilidade na capital
Anunciado pelo governador Rodrigo Rollemberg em 24
de maio de 2016, o programa Circula Brasília tem como objetivo integrar metrô,
VLT, BRT, ônibus, ciclovias, ciclofaixas e calçadas em todo o Distrito Federal.
A expectativa é que a série de políticas públicas previstas reverta ou amenize
as dificuldades de transporte público na região até 2019. Existem iniciativas
específicas para cada região. Em Águas Claras, o governo implantou ciclofaixas,
vai construir calçadas e criar zonas compartilhadas para carros, pedestres e
ciclistas, potencializando a integração da região com o metrô.
Leandro Faria e Juliana Legentil aproveitam a tranquilidade do local
Palavra de especialista - “Cidade necessária”
“O projeto de Águas Claras foi feito por mim porque
eu era ligado aos arquitetos do GDF responsáveis pelo urbanismo. Eu estava
trabalhando com eles na ocupação da região em projetos mais amplos e me pediram
para trabalhar na cidade de forma expedita. Fizemos o projeto em 1991, em um
hiato entre Guará e Taguatinga, em uma área agrícola em cima de uma
cascalheira. Havia um estudo regional que propunha intervenção.
Esperavam que fizéssemos superquadras. Mas,
entendendo que era uma cidade com mais atividades e uma liberdade maior que a
do Plano Piloto, decidimos que ela abrigaria áreas mistas, ou correria o risco
de virar um dormitório e perdesse no uso do metrô. Pensamos em uma cidade mais
complexa, mais rica em atividade e com menos restrição de uso. Propusemos até
um setor de indústria e áreas comerciais com liberdade de se fazer no térreo
dos condomínios. Como a Rua Augusta, em São Paulo. Pensamos em uma densidade de
300 habitantes por hectare.
Depois, colocaram a RA-XX sob o manto de
Taguatinga, e os empresários aproveitaram a revisão prevista para a região mais
antiga para mexer na nova. Pensamos em 12 pavimentos e alteraram para 30. Isso
aumentou a densidade populacional gravemente. Já que foi feito, é preciso
revisão urgente do plano original para mitigar os conflitos. Águas Claras é uma
cidade necessária. As pessoas gostam de morar lá. Sofrem com o transporte na
hora de pico, porque o metrô não foi implantado no DF em totalidade razoável.
Gostam de andar a pé, conversar nos botecos. A estrutura urbana agrada a
população.”
Paulo Zimbres é arquiteto, urbanista e professor
aposentado da Universidade de Brasília (UnB)
Ana Paula idealizou o grupo Mães Amigas de Águas Claras: 58 mil mulheres
mobilizadas
Projetos e números
Uma cidade que veio acolher as pessoas mais jovens.
É dessa forma que a economista da Companhia de Planejamento do Distrito Federal
(Codeplan) Iraci Peixoto descreve a cidade. Se o plano urbanístico favoreceu um
ambiente comunitário fortalecido e a interação entre moradores, para ela, outro
fator importante é, justamente, a idade dos moradores. “Você encontra muitos
recém-casados. É um pessoal mais culto, também”, explica. Por outro lado, a
economista ressalta que a região ainda não está oficialmente delimitada.
Inclui, também, os bairros de Arniqueiras e Areal e, juntos, os endereços
constituem a região que mais cresce na capital: 10,9% ao ano em Águas Claras
Vertical e 7,8% ao todo.
“É uma cidade que está crescendo a taxas altas.
Fica abaixo apenas do Riacho Fundo II, que tem o programa Morar Bem e, por
isso, é atípico”, analisa. A diferença de renda dentro da região administrativa
também é acentuada. Principalmente entre Águas Claras vertical e o Areal. “A
renda do primeiro endereço é de 13 salários-mínimos por mês, em média. No
segundo, de cinco. A escolaridade também. Na área mais favorecida, 53% da
população tem ensino superior completo. Nas outras regiões, 17%”, calcula.
Ainda segundo Iraci, Taguatinga, Plano Piloto e Ceilândia são as regiões de
origem da maioria dos moradores. “Respectivamente, 18%, 12% e 6% vieram dessas
regiões.”
Ainda falando de números, o administrador regional
da cidade, Manoel Valdeci Machado Elias, destaca que a era de
Desenvolvimento Econômico (ADE) de Águas Claras conta com mais de 505 empresas.
“Hoje, temos a quarta maior população do Distrito Federal e somos um dos
melhores endereços para se viver. Temos, também, a segunda maior gastronomia do
DF. A população encontra tudo que precisa aqui e faz campanha para priorizar a
região. A presença das áreas mistas permitiu que a região adquirisse
características de cidade grande. Sobre a falta de conexão entre os bairros, acredito
que quando a poligonal da região estiver bem definida, esse entrosamento entre
os bairros vai melhorar”, afirma. Valdeci também falou da falta de calçadas.
“Vamos construir 40 mil metros de calçada em toda a região. A expectativa é que
as obras comecem até o fim do ano”, promete.
O secretário de Mobilidade, Fábio Ney Damasceno,
diz que o GDF tem diversos projetos para a região. Muitos focados em diminuir
os engarrafamentos e melhorar a mobilidade na região. “Águas Claras tem quatro
estações de metrô e é contemplada com o programa de mobilidade ativa Circula
Brasília. Trabalhamos, atualmente, nos arredores das estações, onde vai
acontecer a próxima ampliação do sistema de bicicletas compartilhadas. Também
implantaremos um terminal e circulares para ligar a cidade à EPTG, quando o BRT
da via estiver funcionando. As vias de menor limite de velocidade, entre as
quadras, vai virar zona 30, compartilhada por pedestres, carros e bicicletas. A
ideia é promover a microcirculação dentro da cidade. E Águas Claras tem um
formato que permite isso”, elenca.
Programe-se - Confira a programação do aniversário de
Águas Claras
*Hoje
9h – Inauguração de obras públicas na avenida
principal de Arniqueiras
10h – Evento cultural casa das amigas, no shopping
DF Plaza
15h – Expo Mães Amigas de Águas Claras no shopping
Vitrine
17h – Apresentação da peça O Mágico de Oz, pela
companhia teatral Néia e Nando no DF Plaza
*Amanhã
9h – Passeio ciclístico infantil no DF Plaza
- 15h – Expo Mães Amigas de Águas Claras no shopping Vitrine
(*) Luiz Calcagno – Fotos: Ed Alves/CB/D.A.press –
Correio Braziliense