Acerca das cercas
STF
Palácio do Buriti - (Cercas retiradas)
*Por Circe Cunha
Devido às consequências das gigantescas manifestações populares, que
passaram a ocorrer por todo o país, inclusive em Brasília, contra e a favor de
políticos envolvidos nos megaescândalos da Operação Lava-Jato e congêneres, as
principais lideranças nacionais, principalmente aquelas cujos nomes aparecem
nessas investigações, passaram a adotar um modelo bem mais cauteloso em
suas relações com o público em geral. De lá para cá, os casos de
xingamentos e mesmo de agressões físicas sofridos por políticos em público
passaram a ocorrer com constância preocupante.
A
situação chegou a um tal ponto que, hoje, praticamente, não se encontra mais
nenhum deles andando displicentemente em meio à multidão, quer em aeroportos,
restaurantes, feiras e mesmo em passeatas políticas. Com isso, aumentaram
também as medidas de segurança visando proteger, além da pessoa, também o local
de trabalho e despacho dessas autoridades. Criou-se, então, o mais
esquizofrênico dos paradoxos, em que os representantes diretos da população passaram
a evitar, ao máximo, aparecer e se expor em meio ao povão.
Óbvio que
a situação, extremamente anormal, gerou reflexos em outras áreas. Passou-se a
buscar, além da proteção contra a massa raivosa, a proteção dos prédios e
monumentos públicos. Indiferentes ao fato de a capital ser tombada pela Unesco,
como patrimônio histórico artístico mundial, e ao que diz expressamente o art.
18, do Decreto nº 25, de novembro de 1937 —“Sem prévia autorização do Serviço
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, não se poderá, na vizinhança da
coisa tombada, fazer construção que lhe impeça ou reduza a visibilidade” —,
ergueram-se cercas e alambrados metálicos, em caráter definitivo, em torno dos
principais palácios e monumentos da capital, criando cidadelas fortificadas
contra o assédio popular.
Nem mesmo
a Recomendação nº 38, do Ministério Público Federal, no fim de agosto último,
foi acatada: permanece o cercamento dos palácios. A única exceção foi o Palácio
do Buriti, que mandou retirar o alambrado em volta. Lembra, contudo, o
Ministério Público, que “as cercas metálicas poderão ser colocadas em casos
excepcionais e temporários que comprometam a segurança das pessoas e o
patrimônio público, porém removidas tão logo cessar a excepcionalidade.
Cabe aos
órgãos de segurança dar proteção às autoridades e aos monumentos. O que não
pode, e os brasilienses e os turistas nacionais e estrangeiros não toleram, é
que os monumentos que ganharam admiração em todo o mundo permaneçam apartados
de todos, como algo intangível, postos nessa condição por conta do mau
comportamento de parcela dos representantes do povo.
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A frase que não foi pronunciada
“O que as cercas protegem é a indiferença com a população.”
(Transeunte
na Praça dos Três Poderes)
Sem alarde
» Censura
às redes sociais foi vetada por Temer na reforma política. A emenda não quer
dizer que vale tudo. Os tribunais estão aí para isso.
Ainda
» Ibram e
Sema até agora nada fizeram diante da situação insalubre que cerca o Hospital
da Criança. Crianças imunossupressoras são reféns do descaso. O Centro de
Controle de Zoonose é um lugar que também tem sua importância. Mas, ao que
parece, acostumaram-se com a má gestão do lixo e acham que tudo por ali é
normal. Só o Ministério Público para resolver a questão. O que não pode é um
matadouro ficar ao lado de crianças com a saúde fragilizada.
(*) Circe Cunha – Coluna “Visto, lido e ouvido” – Ari Cunha – Correio
Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google



