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Agosto não é um mês, é o sertão no asfalto. Agosto não tem dó nem piedade

Agosto não é um mês, é o sertão no asfalto. Agosto não tem dó nem piedade

Agosto chegou.

Não há gota de nuvem nos céus de agosto.

Agosto é a estrela espatifada de Clarice.

A sede de agosto não seca a dor, agosto arde.

Agosto é um meteorito que afundou na Terra e deixou a cidade sozinha com a ferida aberta, ferida que não sangra.

Agosto é a prisão inclemente a céu aberto.

Se chovesse em agosto, agosto morreria como um escorpião sem veneno.

Agosto não tem corpo, é abstração absoluta dos meses.

Não tem um fio de sombra pra suavizar a travessia.

Agosto não tem começo nem fim.

É implacável, tem um sadismo silencioso.

Agosto não chora não ri não chove.

Agosto é a natureza sem alma.

É a Terra antes de a Terra esfriar e se encher de mares.

É a Terra antes da vida na Terra.

Agosto do desgosto, agosto de má-fama.

É o mês da escravidão, agosto. Escravizados pela cidade moderna de grandes longitudes sem sombra, modernismo de croqui sem desenho de árvore.

Agosto é o sertão no asfalto.

É o mais atroz dos meses, agosto. Agosto é Marte onipresente.

Agosto não cede, não se compadece, agosto é pedra, pétreo.

Agosto é um vazio estalando na panela.

Agosto queima, sufoca, oprime.

Agosto é surdo às minhas queixas.

Agosto é inodoro, incolor, insípido. É a torneira seca.

Agosto deixa tudo cinza no meu coração.

Agosto é inclemente como um juiz sem alma.

Agosto seca as lágrimas antes do choro, agosto é dor seca.

As facas de agosto são muito afiadas e o sangue não escorre.

Agosto se impõe sem só nem piedade.

Agosto é uma nave espacial que veio anunciar o fim da vida na Terra, da espécie humana na Terra.

Agosto é um prisioneiro a céu aberto, é ao mesmo tempo prisão e prisioneiro, os dois atravessando o deserto.

Agosto é o mais nu dos meses, agosto é osso, a alma do osso.

Agosto sopra crueldade no ouvido dos mortos.

Agosto é o mês da solidão absoluta.

É o mais solitário dos meses, ele se descola do calendário para existir sozinho, na sua atroz rigidez agostiana.

Agosto não cede, não rebola, não ri, não beija, agosto só precisa ser agosto, o resto que se dane.

Agosto nunca se sentou na calçada para tomar uma cerveja vendo a vida passar. Agosto não vive, agosta.

Só quando anoitece, sem o sol por testemunha, agosto amolece um pouquinho e descansa de si mesmo.

Todas as folhas podem cair, toda a grama pode ficar cinza, todas as gentes podem esturricar, toda uma cidade pode padecer, todos os gatos, os cães, os passarinhos podem morrer de sede que agosto segue sendo agosto.

Agosto não é um mês, é um tempo estático na eternidade.


Conceição Freitas – Foto: Blog – Correio Braziliense


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