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Impunidade, reincidência e o esgotamento da tolerância social

Impunidade, reincidência e o esgotamento da tolerância social 

Quando um indivíduo com diversas passagens pela polícia é posto em liberdade sem que tenha havido qualquer mudança concreta em seu comportamento ou condição, seja pela falta de estrutura do Estado, por interpretações jurídicas extremamente permissivas ou pela simples incapacidade do sistema de acompanhar cada caso, o resultado é previsível: novas vítimas, novos crimes e novos números nas estatísticas que nenhum brasileiro suporta mais ver — e, até por isso, aprova em massa ações policiais com mortes de criminosos. 


Em setembro, comentei o episódio em que a juíza Mônica Miranda brincava, aos risos, com o fato de um criminoso de Inhumas-GO estar novamente em uma audiência de custódia. O “menino”, conforme a juíza o chamou, tinha passagens por homicídios, tráfico de drogas, roubo e porte ilegal de arma de fogo de uso restrito; além disso, seria ligado a uma facção. 


Pois bem, o nome dele era Kaique Carlos de Souza Ribeiro. Apesar do longo histórico criminal, ele estava nas ruas e cometendo mais crimes. O resultado: morreu em decorrência de uma troca de tiros com policiais militares, após os agentes receberem uma denúncia sobre dois suspeitos que estariam transportando drogas de Nova Veneza para Inhumas, em Goiás. 


Kaique não estará em mais uma audiência de custódia, mas não por causa de Mônica ou do Poder Judiciário, e sim por suas próprias escolhas, cujas consequências culminaram em sua morte, embora pudessem ter vitimado ainda mais inocentes, como os próprios militares com quem ele e seu parceiro trocaram tiros. 

 

Na semana retrasada, estive em El Salvador, onde palestrei e tive a oportunidade de ver de perto como um país que já teve a violência como símbolo se tornou a nação mais segura do Ocidente. Enquanto eu estava a caminho do Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), fomos orientados a desligar os celulares em determinado momento, pois os bloqueadores de sinal poderiam danificar os aparelhos. 


A diferença já começa por aí — no Brasil, criminosos usam celulares, dão ordens de dentro da cadeia e conseguem manter ativas as suas redes sociais. Mas o que realmente revolta uma minoria é o fato de eu pegar o celular enquanto conversava com o Bolsonaro. Os motivos, nós todos já sabemos. 


Claro que tudo ali no presídio de segurança máxima era muito bem estruturado, mas nada de outro mundo. Mais importante que a estrutura em si é o fato de eles terem conseguido fazer as coisas funcionarem. 


"Ali estavam alguns dos presos mais perigosos do mundo e, para casos extremos, não hesitaram em executar medidas condizentes, para que todos pudessem ver que verdadeiros criminosos seriam tratados como tais"

 

Tudo o que vi e ouvi em El Salvador mostrou que é possível aprender com os acertos e até mesmo com os erros (que eles próprios destacaram), para que possamos mudar o cenário de impunidade no Brasil. 


As reformas necessárias precisam ser feitas; a construção de um Judiciário menos político e parcial, e mais preocupado com o futuro do país, é essencial; e, o mais importante, é promover a conscientização sobre o que cada um de nós pode fazer em colaboração para um país que tem muito a oferecer de bom, mas ainda assim parece só estar regredindo. 


Não podemos aceitar imposições para normalizar altas taxas de criminalidade, facções e milícias dando ordens, corruptos sendo perdoados enquanto outros são perseguidos e, enquanto isso, a população fica cada vez mais convencida de que as leis que aqui existem não funcionam; que a polícia prende e a Justiça solta; e que o crime parece compensar mais do que o trabalho honesto, porque a punição é rara, branda ou simplesmente ineficaz.

 

O Brasil precisa escolher de que lado está: do cidadão honesto ou do criminoso contumaz. Porque hoje, na prática, o sistema tem deixado claro qual lado decidiu proteger — e certamente não é o da sociedade. 


Nikolas Ferreira - (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil) - Gazeta do Povo 


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