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  • sábado, 4 de fevereiro de 2017

    #História - Os segredos da capital federal - (Após cinco décadas de sigilo, o Arquivo Público do DF liberou consultas ao acervo da Secretaria de Segurança referente ao período entre 1963 e 1990. Os documentos são confidenciais, e a maioria, da época da ditadura)

    Os documentos estavam no Arquivo Público do Distrito Federal desde 1995, mas o acesso era restrito a funcionários: papelada timbrada e resguardada pelo carimbo "Confidencial"
    Após cinco décadas de sigilo, o Arquivo Público do DF liberou consultas ao acervo da Secretaria de Segurança referente ao período entre 1963 e 1990. Os documentos são confidenciais, e a maioria, da época da ditadura

    Plano de atentado do Hezbollah em Brasília. Desconfiança do envolvimento de padres e bispos católicos com grupos armados. Investigações que levaram a dezenas de prisões de militantes de esquerda e de gente inocente em todo o Distrito Federal. Vidas de servidores públicos, políticos e empresários devassadas. Segredos de parte importante da história da capital e do país começam a ser desvendados. Muitos com enredos trágicos, que envolvem crimes comuns, como o consumo de drogas, a crimes praticados por agentes da ditadura.

    Após meio século de sigilo, o Arquivo Público do DF (ArPDF) permitiu consultas ao acervo da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF). São quase 100 caixas de documentos com informações de 1963 a 1990, guardadas há mais de 50 anos. Muitos contêm o carimbo “Confidencial” e os timbres de diversos órgãos de repressão, incluindo o temido DOI-CODI. São registros das operações realizadas por agentes do regime comandado por generais, até então mantidos sob sigilo.

    Entre elas, uma ampla apuração, feita em 1984, sobre movimentos como o que a ex-vice governadora do DF e fundadora do PT na capital, Arlete Sampaio, integrava quando era estudante. Dossiê do Serviço Nacional de Informações (SNI) traz a ficha daqueles apontados como líderes e descrição das organizações. “Nunca fui atrás desses  arquivos, mas tenho a curosidade de saber o que escreveram sobre mim”, afirmou ontem.

    Coordenadora de Arquivo Permanente do ArPDF, Marli Guedes classifica os documentos como fundamentais. “Os dossiês possibilitam tomar conhecimento da dor das famílias, dos desaparecidos políticos e de como o Estado perseguia a população”, defende. O GDF publicou edital, no fim do ano passado, reconhecendo os documentos da Secretaria de SSP-DF como “necessários à recuperação de fatos históricos de maior relevância”. O Executivo deu 60 dias para manifestações e, como não houve questionamentos, o acervo está disponível para consultas. Equipe do Correio examinou mais de 2 mil páginas, cruzou informações e entrevistou alguns dos personagens mencionados na documentação. O material embasa a série de reportagens Brasília Confidencial, iniciada hoje.

    96
    Quantidade de caixas com documentos reservados da Secretaria de Segurança Pública abertos a pesquisa

    Órgão temido
    O DOI-CODI é a sigla para Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, criado pelos militares para prender e torturar qualquer um contrário ao regime. Os integrantes desse órgão de repressão eram treinados na Escola Superior de Guerra (ESG) e defendiam os ideais disseminados pelos ditadores.

    “Éramos adolescentes. Conversávamos por carta e tínhamos a ideia de combate ao regime militar. Para eles, isso era o Grupo Caratinga. Mas a ditadura havia desmantelado as células de guerrilha do campo e da cidade. As pessoas estavam recolhidas em universidade, estudando. Não representávamos nenhum risco” 
    (Romário Schettino)

    Um"baseado" acabou com grupo de resistência
    A prisão por porte de maconha na Asa Sul levou ao desmantelamento de uma das células de grupos de esquerda que lutavam contra a ditadura militar no Brasil. A partir de uma usuária flagrada com um “baseado”, agentes da repressão chegaram aos endereços dos “inimigos” e prenderam 20 pessoas no Plano Piloto sob a acusação de integrar o que denominaram Grupo Caratinga. Encarcerados em unidades policiais distintas, todos sofreram algum tipo de tortura. Inclusive quem não teve relação comprovada com a resistência.

    A ação contra o Grupo Caratinga ocorreu em 1973, mas só agora, 44 anos depois, é possível saber os detalhes da investigação. Elaborado pelo Exército, o dossiê confidencial faz parte do acervo de documentos da SSP-DF que teve o sigilo quebrado na semana passada. Compartilhado com 18 órgãos de segurança, incluindo o Serviço de Inteligência da PMDF, o dossiê concluído em 10 de setembro de 1973 identifica o trabalho como “Infiltração subversiva no meio universitário em Brasília”.

    O documento mostra os passos dos investigadores até a queda do grupo. O batismo da ação se deu em função de sete integrantes terem nascido em Caratinga (MG). Eles foram presos por militares na terra natal, em Vitória (ES) e em Brasília. E quem estava com eles no momento acabou levado e mantido encarcerado, por semanas, sem acusação formal e sem a família sequer ser comunicada.

    A derrocada do Grupo Caratinga no DF começou em 15 de junho de 1973, quando policiais federais flagraram uma menina fumando maconha embaixo do Bloco F da 409 Sul. Obrigada a subir ao apartamento, acabou revelando alguns segredos da resistência. Com mandado de busca e apreensão, os agentes vasculharam o imóvel e encontraram “material subversivo remetido do exterior (Suécia) por Marcos Santilli, filho de deputado federal Santilli Sobrinho (MDB-SP)”.

    Por isso, os federais prenderam quatro pessoas no apartamento e uma quinta na entrada do prédio. Todas moravam em endereços diferentes no Plano Piloto. Os agentes concluíram que o apartamento do Bloco F da 409 Sul era o ponto de encontro do “grupo subversivo”. Após arrancar informações de alguns presos, outra equipe foi mandada ao Bloco F da 408 Sul, pertencente a um dos detidos na 409. Agentes do DOI-CODI monitoraram o imóvel do Bloco F da 408 Sul de 16 a 18 de junho de 1973. 

    Torturas
    Os suspeitos foram levados à carceragem da Superintendência da PF, em Brasília. Após os primeiros depoimentos, uma equipe do serviço secreto do Exército deu continuidade à operação do DOI-CODI. Meses depois da investida nas quadras 408 e 409, o Bloco I da 312 Norte amanheceu cercado em uma sexta-feira de agosto de 1973. Agentes prenderam seis suspeitos. No mesmo momento, outras ações ocorriam no Plano Piloto, com mais quatro detidos. A partir de então, os 20 presos no segundo semestre de 1973, em Brasília, acusados de envolvimento com o Grupo Caratinga, foram fichados e torturados. Familiares de alguns os deram como desaparecidos, pois não sabiam das prisões.

    Após as operações, estavam nas mãos dos agentes da ditadura os sete que os militares acreditavam ser integrantes da cúpula do Grupo Caratinga. São eles: Gustavo do Vale, José Lourenço Cindra, Maria das Graças de Sena, Miriam Leitão, Romário César Schettino, Valtair Almeida e Selma Sena. “Era fim de tarde. Eu saía do Banco Central, onde trabalhava. Quando cheguei perto do meu Fusca, fui cercado por policiais armados até os dentes. Arrancaram os meus óculos, cobriram a minha cabeça com um capuz preto e me jogaram no chão do Fusca, entre os bancos. Alguém assumiu a direção e fui parar onde suponho ser o subsolo do Ministério do Exército, na Esplanada. Fiquei desaparecido por 25 dias”, lembra o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do DF Romário Schettino, à época estudante de história da UnB.

    Nos porões da ditadura, ele enfrentou 10 dias de interrogatório sob extrema violência para que revelasse a relação com os colegas de república — ele dividia o imóvel do Bloco I da 312 Norte com outros jovens. Depois, o transferiram para uma cela, no Setor Militar Urbano (SMU), onde ficou 15 dias. “Tive uma forte dor nos rins. Gritava e ninguém aparecia. Até outros presos mandarem gritar mais alto. Enchia os pulmões e gritava. Veio um médico militar e aplicou uma injeção de Buscopan”, conta.

    O fim do cárcere e da tortura ocorreu de forma semelhante à captura. Com um capuz preto, agentes colocaram o jornalista em um carro e o abandonaram em um matagal, no fim da Asa Norte. Os militares devolveram o Fusca. Até hoje Romário não sabe quem foram seus algozes. Antes de ser liberado, foi advertido de que deveria deixar Brasília. Ele perdeu o emprego no banco, vaga conquistada com concurso público. Partiu para o exílio na França, onde morou um ano e meio. Também passou seis meses na Alemanha. Quando voltou ao Brasil, o general Ernesto Geisel iniciava um processo de abrandamento das atrocidades cometidas contra setores da população. “Voltei para a UnB, mas no curso de jornalismo. Durante muito tempo tive pesadelos. Acordava molhado de suor. Vivia com a sensação de ser perseguido.”

    Absolvidos
    Jornalista do grupo Globo, Miriam Leitão não é citada no dossiê do Grupo Caratinga produzido por militares do DF e disponíveis no Arquivo Público local. Mas era uma das integrantes e também acabou presa na manhã de 3 de dezembro de 1972, um ano antes do desmantelamento do grupo. Ela e o companheiro à época, Marcelo Netto, estudante de medicina, moravam em uma favela de Vitória (ES), o Morro da Fonte Grande. O casal era filiado ao PCdoB. Foram detidos no centro da cidade, a caminho da praia, e levados ao quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército.

    Miram levou mais de 40 anos para revelar em detalhes as torturas sofridas. Em 2014, ela fez o relato ao Observatório da Imprensa. Então com 19 anos e grávida, Miriam ficou trancada nua em um cômodo, tendo uma cobra como companhia e ameaça. Em 2 meses de prisão, chegou aos 39kg, 11 a menos do que quando chegou. Marcelo passou nove meses em uma solitária. 

    Os dois e outros presos se encontraram em junho de 1973, na 2ª Auditoria da Aeronáutica, para o que os militares chamavam de sumário de culpa, o único momento em que o réu falava. Miriam estava no sétimo mês de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria jovens, os acusava de tentativa de organizar o PCdoB no Espírito Santo, de aliciamento de estudantes, panfletagem e pichações. No fim, Miriam e a maioria conseguiram absolvição.

    Marcelo foi condenado a 1 ano de cadeia e acabou expulso do curso de medicina. Solto, virou jornalista. Outro integrante do Grupo de Caratinga, Gustavo do Vale também perdeu o curso de medicina. Ficou mais de um ano preso. Quando ganhou a liberdade, teve de ficar por três anos parado, sem poder dar continuidade aos estudos, devido a uma das normas da mais pesada lei da ditadura, o AI-5.

    Reitor da UnB confundido com integrante da OLP
    A tarja “confidencial” em vermelho abre e fecha cada página do documento que registrou o dia em que, em alta velocidade, um carro perseguiu, pelas ruas do Plano Piloto, o então reitor da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos de Almeida Azevedo.

    Consta no documento que, em 9 de agosto de 1983, após deixar o encarregado de Negócios do Irã, Abdol-Ali Tavakoli, na embaixada do país muçulmano, o reitor percebeu que era seguido por um Landau azul. Na tentativa de escapar, José Carlos acelerou, percorreu quadras residenciais e balões de retorno. Acabou fechado pelo condutor do veículo, que desceu do carro e, empunhando um objeto semelhante a uma arma, ordenou que ele saísse do veículo.

    José Carlos desobedeceu a ordem e correu até o Hotel Nacional, onde pediu socorro ao porteiro e a um policial. O perseguidor também desembarcou ali e foi identificado como Talib Alwan Mubarack, primeiro-secretário da Embaixada do Iraque. O homem se desculpou, alegando que havia confundido o reitor com um integrante da Organização para Libertação da Palestina (OLP). No fim das contas, tudo acabou sem registro policial.

    Os agentes da ditadura concluíram o relatório tratando o caso como um “incidente”.  E consideraram “perfeitamente justificável” o interesse de um diplomata do Iraque em abordar, “para cumprimento ou conversa amistosa”, um elemento da OLP. Mas não era razoável que “alguém empreenda uma perseguição sobre outra pessoa por uma hora contínua”.

    Hezbollah planejou atentados na cidade
    Documentos até então sigilosos revelam que organização militar libanesa enviou terroristas ao DF com o intuito de cometer ataques a representantes diplomáticos de Israel. Alguns foram identificados, inclusive com fotos
    Diante do alerta de ataque terrorista, o Ministério das Relações Exteriores pediu reforço "urgente" na segurança da Embaixada de Israel, do embaixador e de diplomatas daquele país

    Brasília esteve na mira de grupos terroristas pelo menos duas vezes. A primeira nos anos 1970. A segunda em 1989, que inclui o Hezbollah (leia Para saber mais). O grupo libanês planejava sequestrar representantes do governo de Israel residentes no DF, além do cônsul israelita, morador de São Paulo. As informações sobre os possíveis atentados ficaram restritas aos militares e às autoridades do primeiro escalão dos governos do Distrito Federal, do Brasil e de Israel até o mês passado. Elas estão em um dos dossiês confidenciais da Secretaria de Segurança Pública do DF, abertos à consulta no Arquivo Público do Distrito Federal.

    Sobre o possível ataque de 1976, as informações são vagas. Tratam somente de um alerta enviado pelo governo de Israel a todas as suas representações diplomáticas e do reforço da segurança das Forças Armadas do Brasil à Embaixada de Israel em Brasília.

    Quanto ao plano de 1989, atribuído ao Hezbollah, há um amplo e detalhado relatório, incluindo nomes e fotografias de suspeitos e telegramas originais trocados entre Israel e Brasil. Em meio à investigação, policiais federais brasileiros constataram que um dos supostos terroristas estava no país.

    Telegrama enviado pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil à Polícia Federal e ao secretário de Segurança Pública do DF, em 16 de agosto de 1989, alerta que um terrorista d o Hezbollah está “em vias de ingressar no país (o Brasil) com vistas a cometer atentado contra aquela missão diplomática e seus membros”. Na mesma mensagem, o Itamaraty alerta sobre a presença de “outro terrorista” em solo brasileiro. Diante de tal cenário, o MRE pede reforço “urgente” na segurança em volta da Embaixada de Israel e das residências do embaixador e de quatro diplomatas israelenses.

    Sequestro
    Em setembro do mesmo ano, o Itamaraty fez novo alerta à Polícia Militar do DF. Dessa vez, o documento traz o nome de quatro terroristas apontados por Israel como os executores do plano do Hezbollah em Brasília. Segundo Israel, o grupo pretendia sequestrar o cônsul-geral do país em São Paulo ou qualquer diplomata que morasse em Brasília, com o intuito de uma negociação para a libertação de presos em Israel.

    O assunto é tratado em documento “confidencial” do Estado-Maior-Geral da PM, endereçado ao Serviço de Inteligência da corporação: “Autoridades daquele País (Israel), identificou (sic) como prováveis autores do atentado terrorista os elementos Nazi (Nagi) Mouhamad El Malek e Zakarana ou Nagi Mouhamad Faisal Zakarana, apelidado por Raed, Nagi Mouhamad El Malek e Hikmat Abou El Magid Mansour” (veja fac-símile).

    O último é descrito como um homem de “1,80m, mais ou menos 30 anos de idade, com uma vasta cabeleira castanha, cicatriz em uma das faces e outra no antebraço esquerdo, que vai do cotovelo ao ombro”. Já Raed é identificado por meio de uma foto 3x4, em preto e branco, anexada a documento enviado pela Embaixada de Israel.

    A representação diplomática pediu à Polícia Militar brasiliense a inclusão de um coronel, adido das Forças Armadas de Israel, no esquema de segurança montado pelos militares da capital federal. A partir de então, a corporação também passou a escoltar o adido e os familiares dele, moradores do Hotel St. Paul, no Setor Hoteleiro Sul.

    Além do adido, do embaixador e dos diplomatas, policiais militares passaram a fazer a segurança da sinagoga e da Associação Cultural Israelita de Brasília. Enquanto isso, policiais federais procuravam os quatro homens tidos como terroristas por Israel.

    A caça aos suspeitos e o esquema de segurança em torno da Embaixada de Israel e seus altos funcionários durou até 4 de outubro de 1989, quando o serviço de Inteligência israelita descobriu que os quatro supostos terroristas haviam deixado o Brasil, com destino ignorado.

    Para saber mais - Muçulmanos xiitas
    O Hezbollah — ou Partido de Deus — é uma organização política e militar poderosa no Líbano, formada majoritariamente por muçulmanos xiitas. Foi criado em 1982 para combater as tropas israelenses que ocupavam o sul do país. É sustentado pelos iranianos e apoia a causa palestina. A organização pretende criar um Estado islâmico no Líbano, destruir o Estado de Israel e transformar Jerusalém em uma cidade muçulmana. Tem cerca de 800 combatentes ativos e 2 mil reservistas. O grupo conta, ainda, com cinco hospitais, 42 clínicas e duas escolas de enfermagem. Segundo a ONU, pelo menos 220 mil pessoas em 130 cidades libanesas se tratam nesses locais. O Hezbollah tem também 12 escolas, com 7 mil alunos e 700 professores.

    1976 - 1989
    Anos em que grupos terroristas se organizaram para cometer atentados no DF, segundo documentos confidenciais do governo brasileiro



    Por Renato Alves » Adriana Bernardes – Fotos: Minervino Junior/CB/D.A.Press – Correio Braziliense




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