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  • domingo, 2 de julho de 2017

    A casa de Athos


    *Por Severino Francisco

    Se estivesse vivo, Athos Bulcão completaria 99 anos hoje. Uma das coisas que mais o deixava feliz era ver que a sua arte era inspiradora para as novas gerações. Athos é referência não apenas da integração arte-arquitetura. Está presente na moda, nos acessórios,  no desenho de móveis e no carnaval.

    Tudo em que tocava se transformava em arte: painéis, treliças, fachadas, biombos ou relevos. As suas cores e formas sempre nos tocam com algo da vibração, do esplendor e alegria de uma festa popular brasileira. Mas com o bom gosto de quem domina os fundamentos da sua arte. Ele fez intervenções precisas para cada ambiente.

    Athos falava em voz baixa, quase sussurrada, parecia aquele gato de Alice no país das maravilhas, que desaparecia e deixava apenas o sorriso no ar. Enquanto Oscar Niemeyer impõe a sua genialidade de maneira quase imperial, Athos quer que a gente se sinta bem na cidade como se fosse a nossa casa. Sempre insere um detalhe para favorecer a iluminação, o arejamento e a sensação de leveza.

    Ele está presente na escala monumental, mas também na escala cotidiana da cidade. Nas escolas,em hospitais,  no aeroporto, na parede do banheiro do  parque,  na entrada de alguns blocos ou na visão do Teatro Nacional flagrado  de passagem de dentro do carro. É uma obra em parceria com Oscar Niemeyer e Lelé Filgueiras, mas também com as apropriações dos habitantes da cidade, as luzes e o sol. Ela muda de aspecto de acordo com a hora do dia ou da noite.

    Rubem Braga era amigo de Athos e lhe dedicou uma linda crônica, em que traça um retrato lírico e bem-humorado do camarada: “Athos Bulcão, lento e delicado, de olheiras (fez regime, emagreceu 18 quilos), tem certa fama de fantasma, costuma aparecer nos lugares mais estranhos nas horas mais inesperadas e dizem que já “baixou” ao mesmo tempo em São Paulo, no Rio e em Roma, segundo testemunhos autorizados; Paulo Mendes Campos afirma que ele se evapora de madrugada em menos de um minuto, ficando apenas dois olhos boiando no ar, que logo somem. Vinicius de Moraes, perguntado uma vez sobre se acreditava no espiritismo, disse: “Yo no creo en Athos Bulcones, pero que los hay, los hay”.

    Nos últimos tempos, Athos foi humilhado e ofendido pela ignorância e o descaso dos governantes. A fundação que leva seu nome se viu quase na condição de sem-teto. Finalmente, o governo de Rodrigo Rollemberg resolveu os embaraços para a doação de um terreno próximo à Funarte.

    Mas, agora, na passagem do centenário do artista que dedicou a vida a Brasília, falta desengavetar o belíssimo projeto que o arquiteto Lelé Filgueiras fez para a construção da sede definitiva da Fundação Athos Bulcão. As empreiteiras, que tanto se locupletaram com Brasília, bem que poderiam retribuir com um pouco do que muito ganharam, oferecendo esse presente à cidade. Brasília deve uma casa digna a Athos Bulcão.


    (*) Severino Francisco – Jornalista, colunista do Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog – Google 

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