"Tivemos a atitude corajosa e difícil de remover vários barracos de áreas irregulares para poder começar uma importante obra para o DF, a de urbanização do Sol Nascente"
"Governador diz que já iniciou agenda positiva com obras. Mas
afirma que dorme e acorda pensando nas contas e nos problemas do DF"
Além do alardeado rombo financeiro herdado da gestão passada,
o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) aponta a proliferação de invasões de
terras como um dos mais graves problemas que enfrentou nos 100 primeiros dias à
frente do Palácio do Buriti. Para ele, as ocupações cresceram rapidamente no
fim de 2014 graças ao enfraquecimento proposital da fiscalização pública. “O
maior prejuízo à cidade foi a desarticulação da Secretaria da Ordem Pública e
Social. É impressionante o que aconteceu no DF depois das eleições. Foi um
processo terrível e com consequências drásticas”, critica Rollemberg. Em
entrevista ao Correio, o governador fez um balanço de seus primeiros meses de
gestão e deu nota 7 ao trabalho realizado até aqui. Apesar da falta de dinheiro
para obras e grandes projetos, ele aponta realizações para a cidade, como a
inauguração de creches, a implementação de infraestrutura em áreas carentes,
como Sol Nascente, e a redução de 43% nos casos de dengue neste ano. “Enquanto
no Brasil inteiro os casos crescem, aqui tivemos uma redução”, comemora o
socialista. Sobre a aproximação com o ex-governador Joaquim Roriz e com
petistas — forças opostas da política local — , Rollemberg nega que as
conversas representem um rompimento de compromissos de campanha. “Não
estamos buscando nem faremos alianças da forma tradicional da política. Com
relação ao Roriz, fiz apenas uma visita ao governador. A deputada Liliane Roriz
tem nos apoiado na Câmara e temos posições bastante convergentes”, diz.
"Muitas vezes, a oposição manipula informações buscando dizer que há recursos em caixa. O que tem de ser vista é a conta única do tesouro e as contas que podem ser usadas para, por exemplo, pagar salários"
Qual a
avaliação dos 110 primeiros dias de governo? Onde acertou e onde errou?
Quem pode
analisar melhor é a população. Temos procurado nos esforçar ao máximo para
fazer o melhor por Brasília. Enfrentamos uma situação muito difícil. Como todos
sabem, pegamos um deficit financeiro e orçamentário muito grande. Um
desequilíbrio enorme. Compromissos salariais de dezembro que não foram pagos,
horas extras, 13º salários e antecipação de férias em aberto. Havia uma
preocupação muito grande por parte dos servidores de que a gente podia declarar
esses atrasos em exercício findo, o que dificultaria o recebimento dos
benefícios por parte do funcionalismo. E nós, de forma transparente, pagamos
tudo.
O início de mandato ficou
marcado pela crise financeira?
Gastamos
um tempo grande no início do mandato nas negociações com sindicatos de
trabalhadores. Não é fácil. Além de todos os salários de dezembro pagos com o
orçamento deste ano, havia um valor enorme de despesas do exercício anterior,
que somavam R$ 1,1 bilhão, fora os R$ 880 milhões de restos a pagar. Outra
dificuldade se dá em relação ao orçamento do DF, que não passa de uma mera peça
de ficção. O orçamento de várias áreas já acabou e, por isso, tivemos que fazer
remanejamentos. Neste ano, estão previstos R$ 16 bilhões para pagamento de
salários. Esse número, porém, vai passar dos R$ 19 bilhões.
Como lidar com a falta de
dinheiro?
A crise
financeira tem sido enfrentada com muita transparência e responsabilidade. É
fundamental equilibrar o DF para conseguirmos dotar a cidade de serviços
públicos de qualidade e fazer os investimentos necessários. Mas, se fizermos
uma avaliação dos primeiros 110 dias, tivemos muitas ações positivas.
Conseguimos liberar, por exemplo, dois financiamentos recordes, um de R$ 67
milhões para a Companhia de Desenvolvimento Habitacioanal do DF (Codhab) e
outro no valor de R$ 500 milhões para o GDF. Esse processo estava na
instituição financeira, mas o próprio Banco do Brasil ficou impressionado com a
nossa capacidade de gerar as licenças ambientais e os documento necessários
para a liberação do recurso. Pouquíssimos estados conseguiram ter acesso a
empréstimos. Talvez nenhuma unidade da federação.
Como foi essa articulação
política?
Estive
com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, monitorei a questão pessoalmente,
falei com a direção do banco e contei com o apoio do ex-ministro Valmir
Campelo. Desses R$ 567 milhões, já recebemos R$ 284 milhões. Desse montante, R$
42 milhões estão sendo usados para a infraestrutura externa do Parque do Riacho
II, o que vai nos permitir entregar, na primeira quizena de maio, as primeiras mil
unidades habitacionais. Com o restante, vamos iniciar um conjunto de obras de
infraestrutura e pavimentação em diversas cidades.
Também tivemos a atitude
corajosa e difícil de remover vários barracos de áreas irregulares para poder
começar uma importante obra para o DF, a de urbanização do Sol Nascente, em
Ceilândia. E tínhamos que fazer as derrubadas, senão correríamos o risco de
perder o empréstimo. Eram R$ 216 milhões já liberados que só seriam
disponibilizados se o governo fizesse a desocupação. Mas o governo passado não
teve coragem de fazer isso.
"Havia a cultura aqui no DF, que vamos mudar, de que para tudo se dá um jeito. Apresentavam-se projetos equivocados, que eram aprovados de forma equivocada, e depois as administrações, com influência política, resolviam os entraves"
Qual nota o
senhor daria para os três primeiros meses à frente do Buriti?
Qual é o projeto para atrair empresas, gerar empregos e renda?
Acredita que essa desarticulação da fiscalização foi proposital?
O senhor se aproximou do ex-governador Joaquim Roriz, que para muitos brasilienses é o responsável pelo inchaço e de invasões da cidade. Não é uma contradição?
O senhor tem perfil liberal e progressista. Por que cedeu à pressão da bancada evangélica e recuou na criação da Subsecretaria para Assuntos da Pessoa LGBT?
Vai implementar nas escolas a recomendação de escolha de banheiro de acordo com a identidade sexual?
O senhor é favorável à criação do Memorial João Goulart, no Eixo Monumental?
Jango merece um memorial em Brasília?
Houve muita pressão na Câmara contra o seu projeto de redução de administrações regionais. Foi uma decisão acertada enviar essa proposta?
O
processo de autoavaliação é sempre complicado, mas daria nota 7.
Por que essa nota?
É questão
de avaliação do contexto geral. Acho que tudo poderia ser mais rápido, ágil,
pois sempre tenho aflição de que as coisas andem com mais celeridade. Mas, do
ponto de vista geral, gostaria que a avaliação fosse feita pelo povo.
Em menos de três meses de
governo, alguns quadros do alto escalão foram demitidos. Houve equívocos em
algumas nomeações?
Houve
equívocos. Mas parte deles se deu porque herdamos um grande problema do governo
passado. Nunca na história, uma gestão teve apenas 30 dias para montar a
equipe, como aconteceu com a gente. Isso se deu porque, no fim do primeiro mês,
publicamos o balanço quadrimestral que incluía o governo passado e foi
ultrapassado o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o que
nos impediu de fazer contratações. Assim, algumas áreas ficaram descobertas.
Claro que isso traz problemas no funcionamento da máquina pública.
Os problemas na liberação de
alvarás e habite-se ocorrem por falta de pessoal?
Há
problemas de ordem estrutural, do ponto de vista da legislação. Existem
problemas administrativos, que competem ao governo, e existem problemas de
responsabilidade das empresas. Havia a cultura, aqui no DF, que vamos mudar, de
que para tudo se dá um jeito. Apresentavam-se projetos equivocados, que eram
aprovados de forma equivocada, e depois as administrações, com influência
política, resolviam os entraves. Chamei, na semana passada, uma reunião com
todos os envolvidos para botar um foco na agilização dos projetos. Peguei
declaração do presidente da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário
(Ademi) de que vários empreendimentos estão à espera do habite-se. Mas em
muitos deles o problema no projeto não é a morosidade do Poder Público. Em
Taguatinga, por exemplo, liberamos, neste período, 141 habite-se, 270 alvarás e
1.024 licenças de funcionamento.
Há casos de corrupção nesses
trâmites?
Não
gostaria de julgar essa questão sem conhecer os processos específicos. Cabe ao
Ministério Público e à Justiça identificar isso. O que precisamos, no DF, de
maneira geral, é mudar a cultura do fato consumado. Isso se constituiu em
Brasília. As pessoas vão construindo de forma irregular e continuam com a
irregularidade. No fim, tem um prédio irregular e todos pensam que se dará um
jeito e nada acontecerá. Tudo bem, vamos buscar soluções para esses prédios que
estão prontos, mas precisamos iniciar uma nova cultura.
Alguma das 37 categorias que
têm reajustes salariais previstos para este ano corre risco de não ver o
aumento virar realidade?
Manifestamos
nossa posição no Tribunal de Justiça. O que gostaríamos era que o órgão, por
ser imparcial, fizesse um grande debate sobre o assunto. Um fórum para
escancarar a transparência nas contas públicas, mostrar qual é a situação, para
a sociedade fazer a opção que considerar mais adequada. Não queremos deixar de
pagar os aumentos, mas o problema é como pagar. Durmo e acordo pensando em
meios para conseguir verba e equilibrar o orçamento do DF.
Tira o seu sono?
A minha
cabeça já ficou branca e acho que grande parte é por essa causa. Nós estamos
administrando o DF na boca do caixa. Nesse momento, temos recolhimento de IPVA,
IPTU, fizemos o Refis e conseguimos a aprovação da Câmara Legislativa para a
flexibilização dos fundos. Isso tem permitido pagar os salários no quinto dia
útil. Mas, quando fazemos o pagamento, o caixa fica praticamente zerado. Esse
mês tivemos que esperar dois dias para quitar os terceirizados, e ainda tem uma
série de outros serviços. O problema é que, em setembro, tem previsão de vários
aumentos salariais e no fim do ano não teremos recolhimento de IPVA e IPTU.
Fazer um projeto semelhante
ao da antiga gestão, de criação de um Fundo Especial da Dívida Ativa (Fedat),
está em pauta?
Um novo
projeto de venda da dívida ativa pode ser a solução para uma pequena parte do
problema. Mas o que se vendeu em relação ao Fedat, no ano passado, era ilusão.
Absolutamente incosistente do ponto de vista jurídico. Estamos trabalhando com
essa e outras alternativas em busca de recursos para o DF. Há a possibilidade
de mandar um projeto dessa natureza, mas diferente, para a Câmara Legislativa.
Vender imóveis do GDF é uma
saída para a crise?
Isso
também está em pauta. Queremos fazer isso de acordo com o interesse da cidade.
Outra alternativa é a captação de recursos. Trabalhei com afinco para a
aprovação, no Congresso, do Projeto de Emenda à Constituição do comércio
eletrônico, que é muito importante para o DF, apesar de só ter repercussão no
ano que vem. No Congresso, também trabalhei para a aprovação da convalidação de
incentivos fiscais, porque o projeto pode garantir recursos para Brasília. Esse
é o nosso objetivo, equilibrar as finanças para pagar os salários e oferecer
bons serviços.
Devido à falta de dinheiro, o
GDF pode abrir menos vagas no setor público nos próximos anos?
Montamos
a Governança, o que considero uma inovação do nosso governo. Nela, um grupo de
cinco secretários examina todos os pedidos de liberação de recursos para
controlar o orçamento. Desde o início, já liberamos a contratação de defensores
públicos, procuradores, pediatras, enfermeiros e, na medida do possível e da
necessidade, vamos contratar mais. Precisamos ter muita responsabilidade nesse
processo.
Quando vão liberar o acesso
ao Sistema Integrado de Gestão Governamental (Siggo) para a população, uma das
promessas de campanha?
É tudo o
que queremos. Demos o primeiro passo com a montagem do Conselho de
Transparência, composto exclusivamente por entidades da sociedade civil. Agora,
queremos liberar o Siggo, mas abrir de forma que todos entendam. Atualmente, o
sistema é pouco amigável e as pessoas não entendem direito. Muitas vezes,
a oposição manipula informações buscando dizer que há recursos em caixa. O que
tem de ser visto é a conta única do tesouro e as contas que podem ser usadas
para, por exemplo, pagar salários.
Qual é o projeto para atrair empresas, gerar empregos e renda?
Primeiro,
é importante dizer que a imprensa focou, nesses primeiros meses, muito no
problema financeiro do GDF, mas a gente está construindo uma agenda positiva.
Em relação às empresas, particularmente, estamos preparando uma proposta para
encaminhar a todas as entidades envolvidas, para criarmos uma política de
desenvolvimento do DF. Uma política em que o Banco de Brasília (BRB) tenha
papel fundamental na questão do crédito; a Terracap, na destinação de
infraestrutura e espaço; as universidades e a Fundação de Apoio à Pesquisa, na
área de extensão tecnológica; e a Secretaria de Fazenda, para tornar Brasília
mais competitiva. Além disso, os empréstimos que conquistamos irão permitir o
início de um conjunto de obras que vão movimentar a economia do DF.
Na sua opinião, o programa
Pró-DF funciona? Dar terra a preço baixo é uma boa política de desenvolvimento?
É preciso
ter critérios muito claros e transparência. A gente percebeu que o Pró-DF tem
um conjunto enorme de irregularidades e uma total falta de transparência. Pode
ser um instrumento importante de desenvolvimento, desde que haja critérios
definidos. Os empreendedores têm o direito de saber por que a empresa A foi
beneficiada e não a B. A outra questão é o modelo de parque tecnológico para o
DF. O projeto não saiu até hoje por um erro de concepção. O parque tecnológico
idealizado é de um Pró-DF mais sofisticado. A nossa proposta é fazer diferente.
A área de tecnologia da informação é fundamental para o DF, portanto, queremos
ampliar o perfil do parque. Para isso, vamos trazer a Embrapa, que é uma
empresa âncora e que pode ajudar muito no processo de implementação.
Será feita nova licitação
para o parque tecnológico?
Estamos
analisando, mas o importante é que o foco fique em tecnologia da informação.
O governo pretende focar no
turismo para alavancar a economia?
Com
certeza, o turismo é foco importante de desenvolvimento e, por isso, queremos
retomar o Projeto Orla. Brasília tem duas vocações que devem inaugurar um novo
modelo de desenvolvimento. Além de implementar o parque tecnológico, podemos
melhorar a estrutura turística da cidade. Brasília será um ambiente de inovação
e empreendorismo.
Está convicto de que decisão
de suspender a realização da Fórmula Indy foi acertada?
No caso
da Fórmula Indy, havia um acordo com a emissora de televisão e estávamos dando
continuidade às obras. Em determinado momento, recebemos recomendação muito
incisiva do MP de que deveríamos interromper a obra. Três dias depois, houve
decisão judicial determinando a suspensão. Reconheço como um evento importante
e lamento que as tratativas não tenham sido realizadas adequadamente pelo
governo do DF.
E a Universíade?
Como
deputado, integrei uma comitiva que foi à China e, naquela ocasião, defendi a
vinda da Universíade para o Brasil. Mas, quando assumi, tive que tomar uma
decisão. Para realizar a Universíade, teríamos que desembolsar R$ 100 milhões
somente neste ano. Nesse ambiente de crise, é mais importante ampliar o
Hospital da Criança ou realizar esse evento? Estou convencido de que é muito
melhor para Brasília ampliar o hospital do que realizar a Universíade.
Qual a sua grande crítica ao
governo passado?
O maior
prejuízo à cidade foi a desarticulação da Secretaria da Ordem Pública e Social,
que deveria combater invasões e grilagem. É impressionante o que aconteceu no
DF depois das eleições. Foi um processo terrível, com consequências drásticas,
danosas à cidade em função das ocupações irregulares.
Acredita que essa desarticulação da fiscalização foi proposital?
Tenho
impressão de que foi e isso trouxe consequências graves para o futuro do DF. É
um prejuízo que não conseguiremos resolver facilmente. No primeiro domingo
depois da posse, em 4 de janeiro, fiz um sobrevoo de helicóptero na cidade e
fiquei espantado com o número de invasões. Estamos com um grupo de gestão do
território e já fizemos reunião com 10 promotores para criar estratégia de
enfrentamento. Primeiro, temos que combater as invasões. Em segundo lugar, é
preciso legalizar, garantir escritura e fazer regularização dos condomínios. Já
entregamos 360 escrituras no Riacho Fundo 2 e, até o fim do ano, vamos entregar
mais de 10 mil escrituras. Para finalizar, vamos fazer a oferta de moradia para
a população de baixa renda.
Na sua opinião, Agnelo foi um
governador pior que os anteriores?
Tenho
dificuldade de julgar as pessoas. Mas, de todos os governadores que disputaram
a reeleição, ele foi o que teve menor índice de votos. Esse foi um julgamento
da população.
Até quando a população vai
aceitar o discurso de que o governo está quebrado como justificativa para a
falta de obras e investimentos?
Eu me
sinto na obrigação de mostrar a situação econômica que recebi. Mas estou
olhando para a frente, buscando recursos. Quando a gente tira 986 policiais
militares de serviço administrativo, põe nas ruas e reduz em 90 dias todos os
índices de violência, essa é uma medida prática. O número de homicídios caiu
11%, o de roubos em comércio teve uma redução de 46%. A estatística de roubo de
veículos foi reduzida em 42%. Está bom? Não… A cidade ainda está violenta, mas
estamos mudando o foco, aumentando o policiamento nas ruas, e vamos reduzir de
forma consistente os índices de violência.
O que é possível fazer sem
dinheiro em caixa?
Tomamos
providências importantíssimas sem gastar muito. O Brasil todo teve uma explosão
de casos de dengue. Em São Paulo, há uma morte por dia. Quando tive a primeira
reunião com o ministro da Saúde, ele me alertou para isso, para o risco de uma
epidemia de dengue em uma estrutura de saúde fragilizada como a do DF. Pedi aos
bombeiros para irem de casa em casa, orientando as pessoas. Conversei com o
comandante militar do Planalto, que destinou 100 homens para o combate à
dengue. Reuni mais de 250 pastores e pedi o apoio das igrejas evangélicas para
conscientizar as pessoas, falei com associações de moradores e, dessa forma,
reduzimos em 43% os casos de dengue, enquanto no Brasil todo o número está
aumentando. Essa ação foi muito importante. Temos um trabalho a mostrar. Não
estamos parados.
O senhor se aproximou do ex-governador Joaquim Roriz, que para muitos brasilienses é o responsável pelo inchaço e de invasões da cidade. Não é uma contradição?
Fiz uma
visita ao governador Roriz , e a deputada Liliane Roriz tem nos ajudado na
Câmara Legislativa. Durante o lançamento das obras de Corumbá 4, reconheci o
papel que ele teve na construção daquela barragem. Com essa crise hídrica que
está no país, a obra é importante para o abastecimento do DF hoje. Fui o
político do DF que mais fez oposição ao Roriz, mas isso não me impede de reconhecer
ações positivas de seu governo, como a barragem, o metrô e a cidade de
Samambaia. É um gesto de reconhecimento. Não quer dizer que eu não tenha
diferenças com o governador Roriz.
Tem conversado com o PT? Pode sair
daí uma aliança com o partido que o senhor tanto critica?
Tenho
conversado com todo mundo. Isso faz parte da política. Acima de disputa
partidária, temos compromisso com a cidade. A gente precisa construir arranjos
que tragam melhorias para Brasília. E foi assim que aprovamos questões importantes.
O senhor falou muito de uma
nova política. Essas articulações não podem decepcionar seus eleitores?
Não
estamos buscando nem faremos alianças da forma tradicional da política. Com
relação ao Roriz, fiz uma visita. A deputada Liliane tem nos apoiado na Câmara
e tem tido posições bastante convergentes com o que penso. No caso da 901
Norte, tentaram criar um atrito entre nós. Concordo, no mérito, com a posição
da deputada, de que não devemos mexer nos usos e normas. Vetei o projeto por um
erro de origem, por vício de iniciativa, senão abriria precedente. Não tenho
dificuldades em conversar com todos os deputados, independentemente de partido,
se a motivação for o interesse do DF.
O senhor tem perfil liberal e progressista. Por que cedeu à pressão da bancada evangélica e recuou na criação da Subsecretaria para Assuntos da Pessoa LGBT?
Foi uma
pena que houve essa interpretação equivocada. Nosso governo será bastante
zeloso com relação ao respeito aos direitos humanos. No processo de organização
administrativa, foi criado um número muito grande de subsecretarias. Não foi só
aquela que foi extinta, foram várias outras para reduzir a estrutura
administrativa. Mas esse tema será tratado com tranquilidade, com serenidade,
sempre buscando respeito aos direitos humanos.
Vai implementar nas escolas a recomendação de escolha de banheiro de acordo com a identidade sexual?
Ainda
não. Acho importante a discussão sobre o tema, mas o debate ainda não está
maduro.
O senhor é favorável à criação do Memorial João Goulart, no Eixo Monumental?
Não sou
contra o memorial. Sou contra colocar tapumes no Eixo Monumental antes de
iniciar a obra. Por isso, fizemos acordo para a retirada dos tapumes. A questão
do memorial tem que ser analisada. Estamos aguardando informações de várias
secretarias. Reconheço o papel político que o Jango teve. Ele foi vice-presidente
de Juscelino Kubitschek. Foi um presidente deposto. O processo não foi iniciado
no nosso governo, toda formalização ocorreu no governo passado. Temos que
analisar tudo agora.
Jango merece um memorial em Brasília?
Acho que
merece um reconhecimento, sim. Se fosse minha a decisão, acho que esse não
seria o local mais adequado para isso. Mas reconheço a trajetória do Jango.
Quando haverá eleições para
administradores regionais, como o senhor prometeu na campanha?
O grande
desafio dessa eleição direta é a construção do modelo. Não tenho dúvidas de que
isso é bom para Brasília. A população quer participar. O grande desafio é a
construção disso. Se um administrador estiver sendo ineficiente, qual será a
forma de trocá-lo? Essa é uma questão que a gente precisa definir. A partir de
maio, quero voltar a fazer as rodas de conversa para ouvir a população.
Queremos iniciar o debate sobre o modelo de escolha.
Houve muita pressão na Câmara contra o seu projeto de redução de administrações regionais. Foi uma decisão acertada enviar essa proposta?
É
possível que a gente retire o projeto. Tem vários substitutivos apresentados e
estamos analisando isso. Vamos examinar todas as sugestões para reencaminhar
quando o debate estiver mais amadurecido. Enquanto isso, ficam mantidas as 31
regiões administrativas.
Como foi passar de pedra a
vidraça? É mais fácil governar ou fazer oposição?
É muito
mais fácil fazer oposição, claro (risos). Governar é uma constante tensão, as
cidades cresceram muito e de forma desorganizada e isso gera muitos problemas a
serem resolvidos. Tenho sentido a solidariedade da população, que está muito
esperançosa. Isso me deixa animado.
Quais compromissos de
campanha devem ser cumpridos ainda este ano?
Os
compromissos são para quatro anos. Mas, ainda em 2015, quero inaugurar mais 254
creches. Já criamos o Conselho de Transparência, queremos entregar a senha do
Siggo à população, ampliar a transparência. Todos os compromissos estão
mantidos e o governo está mobilizado 24 horas por dia. Temos uma equipe
qualificada, apaixonada por Brasília e muito comprometida. O governo não tem
ilhas. Aqui não tem disputas.
Qual postura o senhor defende
que o PSB adote em relação ao governo de Dilma Rousseff (PT)?
Postura
de independência. O Brasil pode estar entrando numa das maiores crises
econômicas e sociais da história. Uma crise com muitos componentes: a falta de
água em São Paulo, centro da atividade industrial do país, a crise energética,
a crise de representação, pois vemos um Congresso recém-eleito já distante do
sentimento da população. Os partidos estão desacreditados. A sociedade evoluiu
nesse período. Primeiro do ponto de vista social, depois no acesso à
informação, no advento da tecnologia, das redes sociais. As instituições não
acompanharam essa evolução. E o desafio é ter quem faça interlocução com a
sociedade civil e com as forças políticas de modo que se construa um caminho
para o Brasil sair do abismo. Se houver responsabilidade na condução do
processo, capacidade de diálogo e de distribuição de renda, tudo pode voltar ao
normal.
Com a morte do ex-governador
Eduardo Campos, o que será do PSB nas próximas eleições presidenciais, em 2018?
Antes de
2018, temos 2015, 2016 e 2017. Neste ano, acho que o partido tem que ter
responsabilidade e construir uma agenda política de desenvolvimento nacional,
com interlocução com a sociedade civil. Estamos fazendo isso através da
Fundação João Mangabeira, que participa do processo de planejamento interno. No
ano que vem, o objetivo é ter o maior número de candidatos a prefeito,
especialmente nas 200 maiores cidades do país. Já para 2018, acho difícil o PSB
ter candidatura própria à presidência, mas falta muito tempo, o quadro está
indefinido para dizer qual papel iremos desempenhar.
Fonte: Ana Maria Campos - Helena Mader - Matheus Teixeira - Correio Braziliense