Marina avalia que ainda falta 'base material' para discussão sobre
impeachment.
"Ex-ministra diz
que presidente só administra a crise, enquanto Joaquim Levy cuida da economia e
o PMDB da relação política"
Fundadora e ardente militante do PT por décadas, a ex-senadora,
ex-ministra e ex-presidenciável Marina Silva diz que há “uma responsabilidade política
indireta patente” da presidente Dilma Rousseff pelos escândalos na Petrobrás e
pergunta: “Como você é ministro de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e
presidente da República e tudo isso acontece?” ...
Filiada ao PSB enquanto não cria a Rede Sustentabilidade, Marina diz
que há um “buraco negro no Brasil”, critica a “herança maldita” que Dilma
deixou para seu segundo mandato e opina que a “terceirização” da economia para
o ministro Joaquim Levy e a política para o vice-presidente Michel Temer caracteriza
“quase uma cassação branca de um governo que acaba de ser eleito”.
Em entrevista ao Estado, porém, ela é cautelosa ao falar sobre
impeachment. Diz que “não se pode enveredar por uma aventura” nem “passar por
cima da materialidade dos fatos”.
Como a senhora, fundadora do PT, vê a crise do partido e a prisão de
João Vaccari Neto, o segundo tesoureiro petista a parar na cadeia?
O PT tem enorme responsabilidade, sem sombra de dúvida, mas a crise é
tão ampla, tão grave, que cabe a pergunta: como é possível que tudo isso tenha
acontecido debaixo do nosso nariz? O natural seria o PT e o PSDB, dois partidos
da social democracia, terem percebido que há um novo sujeito político em
gestação e trabalhado seus pontos de contato para estabelecer uma agenda
essencial para o País. Não teríamos chegado a esse ponto.
Qual é esse novo sujeito político? Depois da frustração com a esquerda,
vem aí uma saída pelo lado oposto?
A solução não está em renegar a esquerda e ir para a direita, não está
na dualidade, na polaridade. Nós temos, sim, de lidar com o paradoxo. Quais os
legados que devemos preservar? A estabilidade econômica não pode ser monopólio
do PSDB nem a inclusão social é uma exclusividade do PT. Isso é um compromisso
nosso, da sociedade brasileira.
Segundo Marta Suplicy, “ou o PT muda, ou ele acaba”. A senhora
concorda?
Gosto mundo daquele ditado: “Sábios são os que aprendem com os erros
dos outros, estúpidos são os que não aprendem nem com os próprios erros”. Numa
situação com a gravidade que temos hoje, o desserviço que o PT presta para a
política nesse momento precisa nos ensinar alguma coisa, mas espero que não
ensine apenas ao PT.
O que, por exemplo?
Que a verdade não é patrimônio exclusivo de nenhum de nós, a verdade
está entre nós, e que você não precisa criar uma lógica em que você é o supremo
bem e todos os demais são o supremo mal.
Qual o reflexo dessa crise na imagem de Lula, que anda tão
recolhido?
Bem... há um problema que talvez possa ajudar a entender esse silêncio.
Se antes foi possível amaldiçoar heranças alheias, hoje a presidente Dilma
convive com sua própria herança, ela sucede a ela mesma, não é? A quem culpar
pela inflação? E pela Petrobrás, pela corrupção sistêmica no Estado?
E a posição atual do FHC diante da crise?
Ele está se movendo com muita responsabilidade, tendo um comportamento
muito republicano na atual crise, e também teve uma atitude muito correta e
muito democrática na transição do governo dele para o do presidente Lula.
O slogan “herança maldita” ajudou a explodir os pontos de
contato?
É que, depois, veio a crise econômica e o PT, em nome do seu projeto de
poder, maquiou a realidade e as contas públicas, subestimou a crise, criou os
heróis nacionais com o dinheiro do BNDES, tomou uma série de medidas que
levaram o País ao lugar onde estamos hoje. E eles agora não têm alguém para
amaldiçoar como dono da herança, porque quem criou essa herança foi a
Dilma.
E a corrupção?
É muito grave, saiu de um estágio em que era, digamos, esporádica, para
um processo contínuo, institucionalizado, com os altos gestores da Petrobrás
envolvidos, tudo num governo que aí está há doze anos. Isso é muito
grave.
Qual o papel da presidente Dilma?
Se, por um lado, precisamos ter a responsabilidade de não fazer
qualquer acusação leviana do ponto de vista direto, a responsabilidade política
indireta é patente. Como você é ministro de Minas e Energia, chefe da Casa
Civil e presidente da República e tudo isso acontece? Há uma responsabilidade
política, mas não sou do tipo que torce pelo quanto pior melhor.
Como avalia a posição dos partidos de oposição?
Acho correto que setores da oposição se movam com responsabilidade,
para não entrar em qualquer tipo de aventura, mas ao mesmo tempo só isso não
basta. Na realidade de hoje, é como se a presidente só estivesse manejando a
crise. A economia está nas mãos do Levy e a política está nas mãos do PMDB. Na
prática, você já tem quase uma cassação branca de um governo que acaba de ser
eleito.
Se a sra. fala na responsabilidade política patente da presidente, há
condições para a discussão sobre o impeachment no Congresso?
Sem base material, não, porque responsabilidade política não significa
responsabilidade material, em que você tem uma acusação peremptória de
envolvimento direto. Não devemos ir pelo caminho de instrumentalizar a crise.
Neste momento, é preciso muita responsabilidade com o País.
É o momento do quê?
O momento em que você se vê diante de um buraco negro político,
econômico, institucional que requer responsabilidade, não podemos só dar passos
para trás.
O que seria dar só passos para trás?
Se diante de uma crise vem o PSDB, depois de outra vem o PT, aí vem
mais uma e volta o PSDB, isso é dois passos atrás e outro também.
Há milhões nas ruas e 63% defendem o impeachment. Como lidar com
disso?
Há muito eu digo que está surgindo um novo sujeito político e que a
internet, que revolucionou a economia, a ciência, a tecnologia e a comunicação
iria chegar também, para o bem e para o mal, até a política. A melhor forma de
lidar com esses movimentos é respeitando-os como movimentos autorais.
Como, se eles pedem explicitamente o "Fora Dilma"?
Essa é a agenda que eles colocam e eles têm toda a legitimidade para
colocá-la. Aliás, eles aprenderam isso justamente com o PT. Era o "Fora
Sarney", o "Fora Collor", o "Fora FHC", o fora
qualquer um. Eu sei até porque eu era do PT. Mas, neste momento, mesmo sabendo
da gravidade da crise, seria reducionismo político as lideranças políticas
simplesmente fazerem o discurso que a sociedade quer ouvir.
Políticos podem ignorar a chamada “voz das ruas”?
Ser político não é fazer o que as pesquisas indicam que você deve
fazer. Ser político é fazer aquilo que é correto, de acordo com sua consciência
e com a sua responsabilidade com as necessidades históricas do País. O
impeachment está previsto na Constituição, não é ilegal nem é ilegítimo se
referir a ele como alternativa, mas, para chegar a ele, existem vários
elementos, não é só o desgaste político, só a vontade política, mas é também a
materialidade dos fatos. Os que têm responsabilidade política não podem passar
por cima da materialidade dos fatos.
O que acha de Lula ter convocado o “exército do MST” para enfrentar as
manifestações contra Dilma? Pode crescer e chegar a confrontos de rua?
Espero, sinceramente, que não. Exércitos devem ficar no seu lugar. O
momento é tenso, de discussão democrática e principalmente de mudança de
postura, e essa linguagem bélica não é boa para ninguém.
Como foi possível camuflar a realidade na campanha, apesar do
“petrolão” já avançado, de todos indicadores preocupantes na economia?
Essa campanha teve uma proporção inimaginável, pela negação da
realidade, pela agressividade, pela forma como se extrapolou qualquer limite da
ética. Mas, aí, nós temos de fazer um mea-culpa enquanto sociedade. Como é que
uma sociedade como a nossa elege um presidente que não apresenta um programa de
governo? Como fazer debate em cima de propostas?
A sra. criou o termo “exterminadora do futuro” quando o PT dizia que a
sra. iria tirar a comida da mesa do pobre brasileiro. Como se sentia?
A comida do pobre brasileiro está sendo tirada da mesa agora, quando o
País está vivendo a recessão, começa a ter milhares de pessoas desempregadas e
previsão de inflação de mais de 8%. Agora se revela, para além do marketing
colorido, quem de fato tira a comida da mesa dos trabalhadores.
Como vê a coordenação política com o vice Temer? O povo elegeu o PT e
quem governa é o PMDB?
Na prática, o protagonismo político é obviamente do PMDB. O Temer, e,
depois, os presidentes da Câmara e do Senado. É a primeira vez que a gente vê
uma coisa como essa. Um amigo brincou que, quando quis ser demitido, o
ex-ministro Cid Gomes foi dizer desaforo para o único que podia demiti-lo, que
era o PMDB.
Se é assim, qual o papel da presidente no próprio governo?
Como é que se assume um posto como esse sem ter tido toda uma
trajetória política? É a primeira vez que se tem um presidente que não tem os
meios. No primeiro governo, ela não tinha o protagonismo político, mas tinha o
protagonismo na agenda da economia, que deu no que deu. Agora, com o fracasso
na economia, é obrigada a entregar para o Levy e, em função do fracasso na
política, é obrigada a entregar para o Temer.
Como serão os próximos quatro anos?
Bem, eu não quero que tudo fique pior do que já está. Sinceramente, não
quero, porque quem pagará o maior preço serão os setores mais vulneráveis, que
perderão seus empregos, o pouco do poder aquisitivo que conquistaram, serão
jovens que não terão mais o Pronatec, o Prouni, todas essas conquistas que a
sociedade brasileira vinha experimentando. Torço para não acontecer.
Fonte: Estadão. Por, Eliane
Catanhêde