O futuro feito em equipe - Grupo de
estudantes da Universidade de Brasília constrói carro a partir do zero para
participar de competição nacional em São Paulo
*Por Fernanda Bastos
Professores e alunos da equipe Piratas do Cerrado
com o protótipo que representará a UnB
Noites maldormidas, cálculos
complicados e dedicação máxima. Esses são os três principais elementos da vida
dos estudantes de engenharia da equipe Piratas do Cerrado da Universidade de
Brasília (UnB). Composto por 17 universitários, o grupo trabalha na construção,
partindo do zero, de um carro, do tipo minibaja, para participarem de
competições regionais e nacionais.
Daqui a 12 dias, os bajeiros, como são
conhecidos, vão participar do Campeonato Baja SAE — etapa nacional, competindo
com outras 87 equipes de universidades e institutos de tecnologia e engenharia.
Algumas delas são a Universidade Federal de São Paulo (USP), o Instituto
Militar de Engenharia (IME) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A equipe Piratas do Cerrado foi criada
em 1997 por cinco alunos da engenharia mecânica e chegou no seu ápice em 2007,
ao ganhar o campeonato regional do Nordeste. A melhor colocação da equipe no
nacional foi 12° lugar. Este ano, a expectativa dos integrantes é alta. Segundo
o capitão da subárea de powertrain, Gabriel Guerreiro, 21 anos, estudante de
engenharia mecânica, após muitas escolhas e cálculos, é possível transmitir a
potência total do motor até a roda do carro, com a capacidade de melhor
aceleração, velocidade e rendimento máximo.
“O motor padrão estabelecido pelo
regulamento é bem fraco e precisamos fazer um projeto de engenharia bom que
consiga transpor os obstáculos que a competição impõe. E há três anos, desde
que entrei, fomos planejando o projeto que foi evoluindo mais e desenvolvendo
ao máximo os componentes do motor. Acredito que chegou a nossa hora de
brilhar”, afirma.
O time se esquece das férias e vira noites com o
objetivo de fazer sucesso na competição
Na preparação para a competição, as
portas de madeira no interior do Laboratório de Termociência e Metrologia
Dinâmica, da Faculdade de Tecnologia, se transformam na entrada da segunda casa
dos integrantes da equipe Piratas do Cerrado durante essas férias. Motor,
engrenagem, circuito elétrico, tudo que compõe um veículo, os estudantes de
engenharia da UnB fazem. “Bajeiro é resolvedor de problema”, de acordo com a
capitã da subárea de suspensão do projeto, a estudante de engenharia mecânica Marisa
de Ávila, 23.
Preparação
Integrante da equipe há três anos,
Marisa acredita que estão preparados para passar por todas as etapas da
competição e espera que o carro alcance o TOP 20. “O campeonato regional do ano
passado foi preparação para este nacional. E este ano, alcançamos o auge do
nosso planejamento. Estamos seguindo o cronograma e agora é testar o carro
rodando, treinar o piloto e fazer simulações das apresentações da competição”,
destaca.
O carro que foi construído desde agosto
de 2018, além de ser um dos mais testados pela equipe, vem com alguns
diferenciais. O design foi elaborado para representar o cerrado, bioma
característico da região Centro-Oeste e um dos mais degradados do Brasil.
Animais em extinção têm suas formas representadas, elementos que formam vitrais
na pintura do carro mostram a fragilidade do ecossistema e dos animais e
ressaltam a importância da preservação e do uso sustentável do meio ambiente.
As cores laranja, amarelo e preto foram usadas para representar as queimadas, o
cerrado e o lobo-guará.
Segundo Lucas Martins Ricardi, 20,
capitão da equipe, o carro deste ano é enxuto, pequeno e fácil de manobra. Além
disso, apresenta um desempenho alto. “Muitos cálculos foram realizados para
melhorar o desempenho e a durabilidade. A expectativa é não quebrar nada e o
freio não falhar”, considera.
Responsabilidade
O piloto do minibaja e membro da equipe
de powertrain, Alex da Silva, 20, aponta que dirigir o sonho de todos é uma
carga enorme. “Ser piloto é uma responsabilidade muito grande, carregar o
projeto que todo mundo projetou e construiu durante dias e noites é complicado.
Só de existir a possibilidade de quebra de qualquer elemento, dá muita tensão”.
E, na competição, isso é o que mais vai
acontecer. O carro vai ser avaliado de todas as formas para conseguir passar
por todos os defeitos e irregularidades do terreno. Testes de manobrabilidade,
tração, aceleração, velocidade, de segurança e uma corrida com todos os carros
durante quatro horas são algumas das etapas da competição.
Este ano, por ser a 25ª edição do
campeonato, a organização preparou uma prova surpresa. As três equipes que
forem melhor colocadas e conseguirem concluir todas as etapas serão
classificadas para o campeonato mundial, que ocorre nos Estados Unidos.
Muito além do campeonato
*Por Fernanda Bastos
Testes arrojados para que o projeto tenha bom
desempenho nas provas
Letícia Corrêa Bastianon Santiago, 23,
estudante e capitã organizacional do baja acredita que os dias e noites que
atravessa trabalhando na equipe são de extrema relevância para a sua profissão.
“São incontáveis horas, passamos muito tempo no baja, chegamos às 9h e,
às vezes, viramos a noite aqui. No entanto, acredito que ganhei muito com o
baja, foi um crescimento pessoal inigualável, aprendi muita coisa, como gestão
de pessoas e liderança, aspectos que serão importantes pra minha vida
profissional”, afirma.
Assim como Letícia, Pedro Carvalho, 20,
integrante da subárea da eletrônica e estudante de engenharia mecânica,
acredita que colocar em prática o que aprende em sala de aula é uma das maiores
vantagens de participar da equipe. No seu primeiro campeonato nacional como
membro efetivo do grupo, Pedro diz que vai ter a emoção de ver o projeto de
eletrônica que planejou funcionando no carro.
O professor Márcio Muniz, diretor da
Faculdade de Tecnologia (FT) da UnB, destaca a importância do projeto
multidisciplinar e integrado para a formação dos estudantes de engenharia. “É
uma oportunidade de treinarem uma série de competências que o ensino formal não
oferece, como trabalho em equipe, liderança, gestão de projetos, iniciativa,
empreendedorismo. É um complemento às atividades didáticas e treinamento de
habilidades que um engenheiro precisa”, destaca.
O curso de engenharia mecânica na UnB é
avaliado com nota máxima (5) pelo no Ministério da Educação (MEC), mas, de
acordo com o diretor da faculdade, é preciso reformular a grade curricular para
estimular ainda mais projetos como esse, que complementam a graduação dos
estudantes.
Iniciativas
Segundo o também professor da FT
Antônio Brasil Júnior, também coordenador acadêmico da equipe, iniciativas como
o Piratas do Cerrado formam os engenheiros do futuro que vão contribuir para o
desenvolvimento da tecnologia nacional.
Para os integrantes da equipe, não é só
trabalho, é ser parte de algo maior, tirar os planos do papel e ter uma relação
de amizade duradoura com vários companheiros do grupo, por conta das muitas
horas de convivência. A paixão pelo que fazem , aliada a total determinação
move a equipe e une todos os membros. Ao tentar resumir o que é ser parte do
Piratas do Cerrado, a maioria dos integrantes sintetizaram em poucas palavras:
é ser família.
(*) Fernanda Bastos - *Estagiária sob supervisão de
José Carlos Vieira – Fotos: Wallace Martins/CB/D.A.Press – Correio Braziliense