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O QUE A NETFLIX NÃO CONTOU SOBRE "SELF MADE" (*Coluna Victor Dornas)


Annie Turnbo, empresária importantíssima na história da representação feminina, ridicularizada em série de entretenimento para favorecer o heroísmo romantizado que cativa as massas.

Por Victor Dornas

A série “Self Made”, a história da Madame Cj Walker, despertou grande simpatia do público por sua qualidade inquestionável, contudo, embora a maioria não saiba, trata-se de um romance adaptado e não de uma biografia fidedigna.  A série retrata a trajetória da figura carismática Sarah Breedlove, filha de escravos e lavadeira que conquistou o título no Guinness de primeira mulher negra a acumular, sozinha, mais de 1 milhão de dólares. 

Sem dúvida alguma, o caso merece ser reverenciado como um exemplo de conquista para as mulheres e também para a comunidade negra. Sarah sobreviveu na hostilidade de um mundo ainda relutante com o avanço provindo da liberação da barbárie da escravatura, casou-se com 14 anos para fugir da perseguição do cunhado e, de fato, ergueu sozinha, uma baita empresa empreendendo produtos capilares.

A série, no entanto, adota a fantasia para criar personagens usando nomes reais. A própria Sarah, interpretada pela excelente atriz Octavia Spencer, é mostrada na série como uma figura que oscila entre a fragilidade e o ímpeto voraz, como um sufoco que simboliza a questão da mulher da sociedade. Para tanto, o enfoque se dá nos relacionamentos dessa Sarah romantizada em situações que não existiram para criar a tensão necessária à mensagem desejada. Faz parte do show. A dramatização de casos reais é uma necessidade do entretenimento e no caso de Self Made isso é até feito com nobreza pois as mensagens são genuínas.

O antagonismo não é verdadeiro, pois como se sabe, por exemplo, Sarah nunca foi tão próxima de Annie Turnbo (na série vilanizada como “Addie”). Os romances também não, já que Sarah conheceu CJ enquanto ainda era casada. Então, ao invés de mostrarem um cenário profícuo com pluralidade de mulheres negras ascendendo ao progresso por meio do empreendedorismo, a série se foca na facilidade de argumento do manjado "caminho do herói". 

E tudo gira em torno de Sarah, sendo as outras mulheres desprezadas como meras massas de manobra dela própria, o que talvez seja também um preconceito cafona. Como se sabe, Annie Turnbo foi também uma grande empresária. De fato, ambas lutaram e disputaram a mesma fatia do bolo, porém, embora isso seja mostrado na série como algo ruim, já que Annie (Addie) em sua versão mentirosa, o tempo todo pratica crimes industriais e busca sabotar a heroína, a concorrência é uma coisa boa. É aquilo que ajuda a potencializar nossos desafios internos e não deveria ser retratada assim, de modo tão infantilizado. 

Como forma de atrair o público médio sedento por intrigas e clichês, mulheres são usadas para que Sarah brilhe sozinha e, francamente, não sei se ela própria aprovaria isso. Provavelmente não, embora mereça ser ressalvado que algumas outras poucas mulheres sejam mais valorizadas, como a sua filha, na série usada para trazer à trama uma discussão sobre a bissexualidade que se encaixa bem na proposta geral que é o conflito entre dogmas arcaicos e o progresso. A filha de Sarah, Lelia, interpretada pela exuberante atriz Tiffany Haddish, tímidamente expõe incoerências da heroína blindada pelo roteirista. Uma pena que de modo tão breve já que, por essas razões comerciais, o conflito não se desenvolve.

Já a essência da história, entretanto, em termos mais gerais, é até verdadeira. Mulheres de fato precisaram romper firmemente contra preconceitos severos e a forma que usaram para materializar a ideia de que o comércio de produtos capilares para mulheres negras deveria prosperar foi usando um argumento que pulverizou a resistência ignorante daqueles que se opuseram . Era simples: Dava muita grana! 

Uma comunidade tão massacrada não poderia perder tempo com limites impostos por costumes vindos daqueles que os escravizaram. A série, que enfocou demais no heroísmo romântico da Madame CJ, não percebeu algo muito maior que aconteceu ali na cidade de Denver: Uma comunidade negra, ainda amargando a violência do preconceito racial, usou o seu próprio mercado para promover o progresso de causa identitárias, afinal de contas, havia demanda por isso! Mulheres negras agora detinham potencial aquisitivo para fomentar o seu próprio mercado, a despeito do que poderia se pensar a burocracia enrijecida.

A Netflix acerta em reviver a Madame CJ Walker. Mas parece não entender direito o motivo dela ser reconhecida, até hoje, pelo nome do marido e não com o seu próprio nome. Não era apenas uma questão marcária. A série repete os mesmos erros que pretende criticar quando menospreza a figura de outras grandes mulheres daquela época. Mas também acerta em muitos aspectos, todavia, e sem dúvida oferece a seu público entretenimento de qualidade com boas mensagens e a popularização de uma personagem importante às causas raciais e das conquistas femininas.

Sarah Breedlove foi uma grande mulher. Maior do que a Madame CJ Walker.


(*) Victor Dornas – Colunista do Blog do Chiquinho Dornas – Foto/Ilustração: Blog-Google







1 Comentários

  1. Nossa .. que interessante! Mulheres negras e empreendedoras desde de 1908. Realmente a série poderia ter explorado melhor essa época e essas mulheres que souberam inovar em momentos tão difíceis. Mas a série é muito boa!!! Super curtinha. Apenas 4 episódios. Vale muito a pena ver!!!!

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