Eles criaram sentidos tortos. Todos os cinco – visão,
audição, olfato, paladar e tato – foram sendo retorcidos, empenados... Os
sentidos deixaram de fazer sentido, passaram a ser seletivos e treinados para
inverter, corromper e perverter todos os impulsos. Aquele grupo precisava criar
um lugar à parte, parar de interagir com o mundo existente. Então, a turminha
inventou olhos que não veem, mas podem criar imagens de delírios, absolutamente
fictícias. Concebeu ouvidos que desprezam a verdade, os sons reais, as
palavras, as frases. Perdeu deliberadamente o olfato e o paladar. Mergulhou na
anosmia e na ageusia... Nenhum deles podia ficar exposto aos alertas do cheiro
e do gosto, quase sempre indisfarçáveis. Eles deixaram de tatear a realidade,
nada concreto se atreviam a tocar, o factual desapareceu.
O cérebro, já embotado, sem as informações corretas
dos cinco sentidos, não tinha impulsos nervosos para interpretar. Assim, aquela
gente passou a viver no faz de conta, sem a boa intenção das crianças, dos
escritores mágicos, dos artistas corretos, das “fadas”. E o mundo que foi
criado parece surgido das profundezas, do fogo. Sofrimento, caos, destruição...
Mesmo assim, todos acham que está tudo normal. Pior: todos acreditam que são
como super-heróis, ou ajudantes de super-heróis. Pior: essa gangue arrasta uma
enorme quantidade de pessoas, que vão também perdendo os cinco sentidos,
comprometendo o funcionamento cerebral, do coração... E o país se enterra
profundamente.
"As provas dos abusos, arbítrios e ilegalidades dos
juízes se acumulam às toneladas, mas, num mundo em que os sentidos foram
adulterados, eles merecem proteção, elogios e agradecimentos"
Se o político discursa em defesa de bandidos, de
facções criminosas, se defende terroristas e, mesmo assim, jura que é um
defensor da legalidade, está tudo bem. Se o político protesta contra o
autoritarismo, o culto à violência devastadora, a exaltação da ignorância,
sendo ele próprio um autoritário, um violento sem causa nobre, um ignorante
proposital, ninguém vê nada de errado. Se defende a liberdade a sufocando, ele
está certo. Se jura advogar pela liberdade, pela proteção às instituições
democráticas, enquanto as destrói diariamente e sumariamente, ele é quase um
ser humano perfeito, uma alma essencialmente honesta.
Há também os juízes que não são juízes. Podem rasgar,
interpretar e criar leis ao bel prazer. As provas de seus abusos, arbítrios e
suas ilegalidades se acumulam às toneladas, mas, num mundo em que os sentidos
foram adulterados, eles merecem a proteção, os elogios e os agradecimentos
daqueles sobre os quais falei no início... E quem são esses? Ora, os que já
foram chamados de jornalistas. Os que despedaçaram os sentidos e os princípios
fundamentais de sua profissão. Não querem mais saber das histórias reais e em
movimento, das mais relevantes, da curiosidade, da desconfiança, das perguntas.
São pautados pela fraude incomensurável. E todos – jornalistas que não são
jornalistas, políticos que não são políticos, juízes que não são juízes –
pagarão, um dia, por tudo o que têm feito nessa marcha cruel, covarde e sem
sentido.



