• INÍCIO
  • CONTATO
  • MÍDIA KIT
  • ANUNCIE NO BLOG
  • COMENTÁRIOS
  • MAPA DO BLOG
  • domingo, 22 de novembro de 2015

    #PRESSãODEMOGRÁFICA » A crescente mancha urbana do DF -- (Parte do crescimento se explica por invasões e pela ação de grileiros)

    1978 A Estrada Parque Taguatinga (EPTG) no fim da década de 1970: poucos carros na larga rodovia

    Da construção aos dias atuais, o território ocupado pela capital da República expandiu 15 vezes. Parte do crescimento se explica por invasões e pela ação de grileiros

    Em menos de 60 anos, Brasília transformou-se mais que qualquer outra cidade brasileira. De pó vermelho e cerrado, a jovem capital tornou-se uma das mais importantes metrópoles do país, com taxas de urbanização acima da média nacional. Os seus contornos vão, aos poucos, contando a história. A mancha urbana desenhada ao longo de décadas cresce em ritmo acelerado e reflete a força da ocupação humana, mais veloz do que o planejamento; mais certeira que políticas públicas de habitação. Da construção aos dias atuais, o território ocupado expandiu em 15 vezes — nenhuma cidade brasileira cresceu em tamanha proporção no mesmo período. De 1990 a 2000, o adensamento populacional duplica devido às invasões habitacionais e à intensificação das ações do Estado criando cidades inteiras, como Samambaia, Recanto das Emas e São Sebastião.

    Embora se posicionasse contra a metropolização da capital da República, o urbanista responsável pelo projeto da nova capital, Lucio Costa, previu que o Plano Piloto seria pequeno para Brasília e que, após o esgotamento do modelo central, o desenvolvimento urbano se daria por cidades-satélites. Mas as satélites anteciparam a proposta original. Algumas, como Taguatinga e Gama, surgiram antes e se transformaram em “cidades normais do interior do Brasil, que têm de tudo e se vive de forma bem brasileira”, como resumiu o próprio Lucio Costa. O planejamento deu lugar ao jeitinho brasileiro. “O projeto de Lucio Costa não previa a conurbação. As cidades-satélites eram uma maneira de preservar o Plano Piloto intacto. O problema é que a expansão foi se dando de forma descosturada”, afirma Benny Schvarsberg, professor de urbanismo e planejamento urbano da Universidade de Brasília (UnB).

    “Vemos uma expansão da mancha urbana do DF a partir da década de 1990, não porque o Plano Piloto tenha se esgotado em área. Até hoje temos áreas livres. Mas, sim, porque se esgota o espaço para venda no Plano Piloto. Ou o terreno é do estado ou pertence a alguém individual”, define Rafael Sanzio, professor da UnB e coordenador do Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (CIGA), centro responsável pelo estudo da evolução da mancha urbana. “Nasce a especulação, e as pessoas não conseguem mais morar na região central, aí a mancha expande de uma forma descontrolada.”

    O espaço urbano nunca está organizado de forma definitiva. Brasília foi crescendo de maneira descontínua, com intervalos entre as cidades e em estrutura polinucleada — na qual cada região administrativa tem núcleo próprio, embora dependente de serviços e empregos do Plano Piloto. Brasília se expande de uma maneira distinta das outras cidades brasileiras. Sem morros nem litoral, a capital pode crescer a 360º. Tanto que, hoje, é a metrópole mais urbana do Brasil. Os limites do quadradinho tornaram-se pequenos e já abrangem municípios de estados, como Goiás e Minas Gerais; por isso, dentro do DF, a tendência é de estabilização da mancha, por conta da limitação física.


    Encolhimento rural
    Dentro do território candango, a área rural está mais compactada e os espaços agrícolas tornam-se cada dia mais urbanos. Regiões como Vicente Pires e Ponte Alta do Gama perderam as características rurais, e poucos produtores resistem nos locais. Os parcelamentos irregulares, a grilagem, a construção de bairros por grandes incorporadoras e as políticas de assentamentos promovidas pelo próprio estado contribuíram para essa expansão. Nas administrações de Joaquim Roriz, entre 1989 e 2006, a mancha urbana duplicou — passou de 30.962 hectares ocupados para 64.690. Das 31 regiões administrativas existentes, 22 foram criadas na gestão Roriz. Como consequência, na década de 2010, a pressão sobre o campo tornou-se ainda maior, porque são os espaços disponíveis.

    Embora possa crescer a 360º, o estudo do professor Sanzio mostra que os vetores de crescimento são maiores nos eixos Taguatinga-Ceilândia-Brazlândia; Taguatinga-Samambaia e Santo Antônio do Descoberto; Eixo Gama Entorno Sul Luziânia e Eixo Leste Vale São Bartolomeu. “O crescimento no sentido norte da cidade, Planaltina-Formosa, é menor porque percebemos uma barreira criada pela soja. O DF faz parte de um corredor da soja, que pega estados produtores, como Goiás. Como esse grupo tem poder econômico, sofre menos com pressões imobiliárias.”

    O movimento desordenado de expansão da mancha trouxe consequências sociais e econômicas para o DF e é preciso repensar a relação da metrópole com os problemas que a falta de planejamento trouxe.


    As consequências da urbanização - Ponte alta - Gama

    Junho de 2002
    OUTUBRO 2008
    AGOSTO DE 2015

    MERCADO DE TRABALHO
    Embora a mancha urbana tenha se expandido por praticamente todo o território do DF, a criação de postos de trabalho não acompanhou a mesma dinâmica. Os empregos continuam fortemente concentrados no Plano Piloto. Segundo dados da Companhia de Planejamento (Codeplan), 42,57% das oportunidades estão na região central, o que gera um fluxo diário de 641.561 trabalhadores. Dessa forma, o Plano recebe todos os dias uma quantidade de pessoas quase três vezes maior do que o número de moradores — 216.489.

    Fora do Plano Piloto, os setores de comércio e serviços e as atividades específicas, como agricultura, são os segmentos que mais ocupam os moradores de suas regiões. “Em áreas mais afastadas, como Brazlândia e Planaltina, a dependência do Plano é menor, mais moradores vivem e trabalham na mesma região administrativa”, explica Bruno de Oliveira Cruz, diretor de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas da Codeplan. “É preciso um movimento de descentralização dos postos de trabalho, isso até tem ocorrido, mas em uma velocidade lenta.”

    Com poucas oportunidades de emprego, muitas regiões administrativas tornam-se cidades-dormitório. Com isso, os índices de desemprego são mais altos que na região central. Enquanto no Plano Piloto e nos lagos Sul e Norte, a taxa de desemprego está em 7,2%, em cidades mais afastadas da região central, como Paranoá, Ceilândia, Samambaia, Santa Maria, Recanto das Emas, São Sebastião e Brazlândia, o índice sobe para 17,7% e vem em uma crescente desde junho, quando estava em 16,9%.


    ILHA DE CALOR
    Em 2015, o Distrito Federal apresentou as mais altas temperaturas médias desde o início da medição da série histórica. Segundo especialistas, além do efeito do El Niño, a sensação térmica foi intensificada pelas ilhas de calor geradas pela intensa urbanização. “É uma relação direta: quanto mais concreto e asfalto, maior é a temperatura”, explica Ercília Torres Steinke, professora do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB). A ligação do calor com a intensa urbanização se dá porque o material empregado na construção civil, como asfalto, vidro e concreto, absorve energia do sol e devolve como calor. Com a retirada da vegetação e o adensamento populacional, a umidade diminui e a sensação de calor aumenta.

    Gustavo Baptista, professor do Instituto de Geociências da UnB, explica que a ilha de calor é um fenômeno em que o centro é mais quente que as bordas. No caso do Distrito Federal, como a expansão urbana se deu de forma polinucleada, sem uma mancha urbana contínua, há espaços verdes entre elas, o que gera núcleos de ilhas de calor, em vez de um fenômeno contínuo, como ocorre em São Paulo. “Podemos ter ilhas de calor em regiões mais afastadas do centro que tem um baixo índice de vegetação por habitante, como Taguatinga, por exemplo, que tem perfil de prédios mais altos do que os do Plano Piloto e menos área verde.”

    MOBILIDADE


    2015 Os constantes engarrafamentos da EPTG são uma consequência direta da expansão da mancha urbana

    A mobilidade é um dos temas mais sensíveis associados à expansão territorial do Distrito Federal. “A ampliação da mancha urbana significa aumentar distâncias entre pessoas”, define Paulo César Marques, professor da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em trânsito. Com a estrutura polinucleada de expansão, os caminhos entre as regiões administrativas são longos. Estudos mostram que os vetores de urbanização do DF tendem a seguir a estrutura viária, o que intensifica a importância do uso do transporte. “São distâncias de 40 a 60 quilômetros que as pessoas fazem todos os dias”, lembra Benny Schvarsberg, professor de urbanismo e planejamento urbano da UnB.

    O resultado é uma extrema dependência de transporte e saturação do sistema viário. Os constantes deslocamentos de carro, de ônibus e de motos geram congestionamentos corriqueiros. “Falta um modelo integrado, com diferentes modais, como metrô, ônibus e bicicleta. É preciso pensar a ocupação do solo em conjunto com as políticas de transporte.”


    Na análise de Marcos Thadeu Queiroz Magalhães, professor da UnB e especialista em transporte, a polarização das atividades econômicas, de saúde, de educação no Plano Piloto deixa a mobilidade mais delicada. “Se você analisar o índice de passageiros por quilômetro dos ônibus, vai perceber que a rentabilidade é pequena. Com baixa rotatividade de passageiros e distâncias longas, a saída é cobrar mais caro pelo transporte, seja nas passagens pagas pelo próprio usuário, seja nas subsidiadas pelo governo.”


    SERVIÇOS PÚBLICOS
    Brasília é considerada uma das metrópoles brasileiras com maior índice de centralidade do país, segundo especialistas. O que demonstra a dependência das regiões administrativas com o Plano Piloto em vários níveis da vida da população. Desde emprego até acesso a serviços bancários, compras e uso da rede pública, como hospitais e escolas. Embora exista um esforço de descentralizar os serviços públicos com a criação de hospitais regionais e de postos de atendimento de diferentes órgãos públicos, esse fenômeno não acompanha a evolução populacional. “A cidade vem se espalhando sem acompanhamento de infraestrutura de serviços, o que gera esse intenso deslocamento”, explica Paulo César Marques, professor da UnB.

    Para Benny Schvarsberg, professor de urbanismo e planejamento urbano da UnB, o modelo polinucleado criou uma Brasília desigual. “A máxima em Brasília é: diga-me onde moras que direi quem és”, brinca. “A segregação socioespacial de Brasília é impressionante. E é combinada. Brasília tem, ao mesmo tempo, o que há de mais moderno e o de mais atrasado. Onde a pessoa mora vai ser determinante para ela ter acesso a esse ou àquele serviço”, complementa.

    USO DA ÁGUA
    Sem um planejamento urbano adequado e com a ação de grileiros, a mancha populacional do DF cresceu desordenadamente. O avanço do território urbano levou a duas questões: excesso de impermeabilização do solo e ocupação em espaços destinados à proteção do meio ambiente. “Com o excesso de pavimentação e de concreto, há diminuição da infiltração, o que dificulta a recomposição de lençóis freáticos e aumenta as cheias, como os enchimentos das tesourinhas”, explica Jorge Werneck, pesquisador da Embrapa Cerrados e presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranoá.

    Outra questão relacionada à urbanização sem controle é a qualidade da água consumida. “Um estudo mostra que, onde a urbanização está intensa, a qualidade da água está ruim. Mesmo usando a melhor tecnologia, o esgoto tratado ainda vem com nutrientes. Como os rios são pequenos, não conseguem completar o ciclo e se renovar e, com isso, o líquido vai perdendo a qualidade”, afirma Werneck. É o caso do Rio Melchior, localizado entre Taguatinga, Ceilândia e Samambaia, e o Rio Ponte Alta, no Gama, regiões altamente urbanizadas.

    O excesso de construções e a má alocação dos resíduos também contribuem para a diminuição da qualidade da água. “O excesso de sedimentos e de lixo assoreia o lago. Com isso, ele vai perdendo volume de água e a capacidade de se diluir, de o esgoto se tratar.”



    *Colaborou Breno Fortes



    Por: Flávia Maia – Fotos: Ed Alves/CB/D.A.Press – Breno Fortes/CB/D.A.Press – Arquivo/CB – Correio Braziliense

    Nenhum comentário:

    Postar um comentário

    imagem-logo
    © Blog do CHIQUINHO DORNAS 2012/2016 Todos os direitos reservados.