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  • segunda-feira, 9 de maio de 2016

    PONTO A PONTO: FRANCISCO OZANAN » Memórias de um pioneiro -

    As origens nordestinas, a chegada à capital e a velhice foram temas de entrevista concedida pelo agrônomo no ano passado. Em homenagem ao jardineiro de Brasília, o Correio republica trechos da reportagem que fez parte da série Maturidade compartilhada

    “Já dei tanta entrevista que tenho a minha vida escaneada, mexida e remexida. O povo não está mais interessado nessa besteira que digo mais não.” Ozanan é assim: debochado, brincalhão. Quase não pontua as próprias frases, tamanha a velocidade com que as memórias chegam à mente. A fala, no entanto, é mansa. Cearense, mesmo depois de quase cinco décadas em Brasília, não perdeu o sotaque nordestino, o que torna impossível esconder as origens. É um verdadeiro contador de causos, e boas histórias não lhe faltam. Ri alto. Solta palavrões. Diverte-se com as próprias piadas. E garante ter “papo para um milhão de horas”. Disso ninguém duvida.

    O agrônomo Francisco Ozanan Correia Coelho de Alencar vai completar 72 anos. Quase 40 deles dedicados a embelezar a capital. Ele começa a entrevista exibindo um livro. Entre aquelas páginas, mostra fotos da Brasília que o acolheu: terra batida, vermelha, sem verde. Tanta poeira que deixava colarinhos avermelhados e olhos ardidos. Em outra parte da publicação, exibe a capital atual, com espaços arborizados e floridos. Emociona-se ao saber que foi figura essencial dessa mudança de paisagem. Orgulha-se de ter visto o sonho de Lucio Costa tornar-se realidade. O urbanista queria que “os prédios residenciais nascessem como da clareira de uma floresta”, como escreveu no relatório do Plano Piloto. Assim foi feito.

    Ozanan trabalhou no Departamento de Parques e Jardins (DPJ) da Novacap, em uma época que as plantas morriam nesse cerrado. Ele e sua equipe trouxeram mudas de fora, testaram a natureza até negociar com ela o que brotaria por aqui. A cidade floresceu. Depois, o cearense foi diretor do DPJ, plantou árvores, flores, gramas, salvou outras. Tem o buriti, da praça de mesmo nome, como grande proeza. Ele o salvou depois que um desajustado quis cortá-lo por causa da rebeldia política. Também transplantou mangueiras no Museu do Índio que dão frutos até hoje. Até ele vê como impossível a tarefa de diferenciar as árvores que estão em local de nascença e as que mudaram de lugar.

    Ozanan diz que nunca se importou com o poder, mas conheceu gente influente. Trabalhou com vários governadores. Tem na sala de casa um quadro feito para ele por Oscar Niemeyer. O desenho foi presente depois de um encontro sobre as tais mangueiras que deveriam ser salvas antes de construir o Museu do Índio. Conheceu Lucio Costa e Burle Marx. Foi da turma dos que transformaram o chão poeirento da cidade em jardim florido e gramado.

    Lamenta os jardins da capital estarem meio “descuidados”, mas reconhece a beleza da cidade que escolheu como sua: “Claro que escolhi ficar aqui. Não tem a menor possibilidade de voltar para o Ceará. Pelo amor de Deus! E olha que gosto demais de Fortaleza. Todo ano eu vou. Uma vez ou duas. Vou para passar uma semana. Depois, já estou doido para voltar.”

    ELE POR ELE
    “Meu nome, por incrível que pareça, é Francisco Ozanan Correia Coelho de Alencar. Tudo isso. É coisa de cearense. Acho que no dia do registro civil, o tabelião, lá da Barbalha, estava bêbado, porque meus irmãos não têm esse nome assim. Só eu e o gêmeo comigo temos um nome comprido desse jeito. Ele também é Francisco. Foi promessa da minha mãe. Você já pensou o que é, 70 anos atrás, ter um parto duplo no interior do Ceará, em uma cidade que não tinha médico, que não tinha coisa nenhuma? A Barbalha era uma aldeia. Sou casado com uma senhora também de lá. Começamos a namorar quando eu tinha 15 anos e ela, 13. Fui estudar em Fortaleza e disse para ela: ‘Vou me casar com você, só não sei quando. Se você quiser esperar...’ Aí foram quase nove anos de enrolação... Eu me casei em 1951. Entre a enrolação de namoro e o casamento são 53 anos, 44 de casados. Como enrolei essa mulher! (risos) Tenha vergonha! Meu Deus, meus filhos já se casaram e se separaram, e nós dois aqui. (risos)”

    A AGRONOMIA
    “Primeiro, preciso contar como esse negócio de planta entrou na minha vida. Fui criado em uma fazenda, lá no interior do Ceará. Ia para a aula em jumento. Tive que tirar o primeiro lugar no concurso de admissão, uma espé- cie de vestibularzinho quando a gente terminava o primário para entrar no ginásio, para meu pai trocar o jumento por um cavalo. Aí foi bom. Mas eu vivia na fazenda. Comecei a me envolver, a encher o saco do meu pai porque ele cortava ipê, que lá se chama pau d’água, para fazer lenha... Um dia peguei meu pai conversando com minha mãe. Ele dizia: ‘Lourdinha, você que é mãe, põe esse menino no bom caminho que ele só pensa em besteira.’ A minha mãe dizia que ia dar conselho, mas quando meu pai saía, ela incentivava. Meu pai estava preocupado era de eu ser bicha, com toda certeza. Já pensou um cara lá do interior do sertão do Ceará ver um menino envolvido com negócio de planta, o quarto cheio de planta, folha? Ficou louco. Quando disse que ia fazer agronomia ele falou: ‘Meu filho, vá fazer medicina, direito, ser doutor...’ Mas queria fazer isso (agronomia) e fiz. Eu me apaixonei pelas árvores e comecei a trabalhar.”
    Making of do vídeo produzido para a série de reportagens publicada na Revista do Correio, em 18 de outubro de 2015

    A CHEGADA
    “Meu irmão me deu o dinheiro da passagem. Vim, cheguei, peguei um tá- xi do aeroporto. Passei pelo Eixo e perguntei ao motorista qual era o nome daquela rua e ele disse que não era rua, era o Eixo Monumental. Então pensei: ‘Estou lascado, essa cidade é completamente diferente’. Eu me lembro perfeitamente da tarde em que fui assinar meu contrato. Ali na Esplanada dos Ministérios subia uma poeira que nunca tinha visto na minha vida. Era um barro vermelho e uns redemoinhos... Os ventos se encontravam e faziam ‘timmm’. Tinha uma chaminé vermelha que você via lá de longe. O povo chamava aquilo de Lacerdinha, em alusão a Carlos Lacerda, governador da Guanabara. O colarinho da camisa, às vezes, ficava vermelho e eu andava com um vidro de colírio para botar nos olhos porque entupia de terra, da gente que trabalhava nas obras. Aqui era que nem dr. Stênio (de Araújo Bastos, do Departamento de Parques e Jardins da Novacap) me disse: ‘É pegar ou largar.’ O desafio era grande demais, mas eu não ia voltar não porque um dia isso aqui ia ser bom. Aí não larguei e me apaixonei por Brasília.”

    PODER
    “Eu me tornei chefe do Departamento de Parques e Jardins depois de trabalhar com Dr. Stênio por 10 anos. Eu não queria de jeito nenhum, não tinha essa ambição de assumir a parte administrativa. Escolhi um método meu para administrar: nunca fechei a minha porta. Quem quisesse entrar podia: cachorro, gente. O máximo que pode acontecer é ouvir um não, mas nunca tratava ninguém mal e, se pudesse ajudar, ajudava. Nunca me preocupei com o poder. Sou a pessoa mais feliz do mundo com o que fiz profissionalmente. Tenho muitos defeitos e, depois que me aposentei, enxergo melhor os defeitos. Mas foi o que eu podia fazer. Nesses 40 anos, que passei na Novacap, tirei duas férias. Não é que me proibiam de tirar férias. Era tesão que eu tinha por aquilo. Uma verdadeira paixão. Não sei se é virtude ou defeito, mas é verdade. Tinha tesão, paixão e ainda tenho.”

    APOSENTADORIA
    “Tenho seis anos de aposentado. Abri uma empresinha que planta grama com dois colegas que trabalharam comigo em mais de 30 anos na Novacap. Não me aposentei com a intenção de trabalhar. Eu disse: ‘Vou ficar em casa e aproveitar o resto da minha vida.’ O primeiro e o segundo mês, achei bom demais; no terceiro, começou a me dar um tédio louco e eu já estava aprendendo a fazer bolo com a Ana Maria Braga. Falei: ‘Cacete, vou ficar doido.’ Disse para a mulher que não ia ficar em casa. Juntei-me com esses dois colegas e fizemos uma empresinha. Dá mais raiva do que a gente ganha de dinheiro. Fizemos uma obra que o Agnelo (ex-governador) não pagou e lascou a gente... Mas é bom que a gente se reúne, bate papo e fala das besteiras de antigamente, conta causo e movimenta a cabeça. Hoje, apesar da minha aposentadoria, ainda tenho, como minha mulher cunhou, o mesmo adultério explícito, que eu tinha com as áreas verdes de Brasília. Você acredita em um negócio desse? Passo nos cantos e vejo as coisas erradas. Não vou ligar lá e dar opinião, mas vejo esses jardins se acabando.”

    JARDINS
    “Comprei 26 caminhões de muda em São Paulo. Chegamos aqui e come- çamos a fazer os primeiros jardins. Montei uma megaestrutura lá no viveiro e chegamos a produzir um milhão de mudas de flores por mês. E fiz os 800 jardins que ele (Joaquim Roriz, ex-governador do Distrito Federal) pediu. Dois mil eu não fiz, mas 800, sim. A questão dos jardins foi uma polêmica desgraçada. Algumas pessoas diziam que estavam gastando o dinheiro da educação e da saúde para fazer jardins, até que um dia Ziraldo chegou aqui em Brasília e uma jornalista foi entrevistá-lo e perguntou o que ele tinha achado das flores. Ele respondeu: ‘Essas flores são um sorriso de Deus. Isso não se desenvolve; então, enquanto isso, vamos plantar flores. Vamos ser civilizados. Que coisa boa!’ Pronto, acabou. Ninguém falou mais mal dos jardins.”

    DESAFIO DO CERRADO
    Conseguimos produzir em escala de ajardinamento e plantar em Brasília exatamente 75 espécies do cerrado. A Brasília que recebi não foi a que entreguei. Antes, não se via absolutamente nem um verde. Deixei essa aqui, onde os prédios residenciais nascem como da clareira de uma floresta, como queria Lucio Costa. Ele escreveu isso no relatório do Plano Piloto e aconteceu. Tenho o maior orgulho de dizer isso. Um dia, subi no quinto andar de um edifício de um amigo meu, na 104 Sul, e olhei para o lado das 200 e das 400 e pensei: ‘Gente, não é que o sonho do Lucio Costa se realizou?’”

    VELHICE
    “Eu era durão. Todo homem aos 40 anos é um guerrilheiro. Todo homem aos 70 é um bombeiro. A gente muda muito. Ave Maria! Agora sou um bombeiro, só faço apagar fogo, sou um conciliador. Não sou mais aquele cara rebelde, que queria fazer as coisas, custasse o que custasse. Envelhecer foi a pior desgraça que já vi na minha vida. Esse negócio de melhor idade é uma mentira deslavada. Eu cunhei uma frase para botar como meu epitáfio que desmente esse negócio de melhor idade e vou repetir aqui para vocês: ‘A velhice não é coisa para covarde, porque são tantos problemas que é uma merda.’ Não estou dizendo que, há um mês, fui dormir enxergando e acordei sem enxergar pelo olho direito? E agora o quadril dói. Semana passada, tive uma crise de diverticulite. Quando eu era novo, me considerava um cara indestrutível.”

    MORTE
    “Morrer é bom. Foi a coisa mais legal que ficou deste mundo. Sabe por quê? Porque diminui essa pretensão imbecil dos poderosos. Porque na hora em que fecha o olho, ele é um cadáver igual aos outros. Morrer é legal demais. O ruim é sofrer para morrer. O ruim é adoecer, ficar dependendo dos outros. Pelo amor de Deus... Eu tenho pavor de isso me acontecer. As pessoas boas que conheci velhas já morreram e as pessoas do meu tempo já começaram a morrer. Essa é outra desgraça da velhice: você encontra os amigos no cemitério. Isso é uma desgraça, p... Mas um dia vou embora também.”

    “O desafio era grande demais, mas eu não ia voltar não, porque um dia isso aqui ia ser bom. Aí não larguei e me apaixonei por Brasília”

    “A Brasília que recebi não foi a que entreguei. Antes, não se via absolutamente nem um verde. Deixei essa aqui, onde os prédios residenciais nascem como da clareira de uma floresta, como queria Lucio Costa”


    FONTE: CRISTINE GENTIL - FLÁVIA DUARTE - LUÍS TAJES  - FOTOS:CARLOS VIEIRA/CB/D.A.PRESS – LUIS TAJES/CB/D.A.PRESS – Correio BRAZILIENSE

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