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  • sexta-feira, 14 de outubro de 2016

    Asa Sul e Asa Norte - (O desenho urbanístico de Brasília tem a forma de um avião, no entanto, as suas asas enganam em uma primeira mirada....)


    Por: Severino Francisco,

    Gustavo Falleiros é daqueles brasilienses praticantes, não apenas vive na cidade; vive a cidade. Em poucas linhas, ensaiou uma radiografia da Asa Norte e me desafiou a fazer o mesmo com a Asa Sul. Mesmo sem ter certeza da competência para tarefa de tamanha responsabilidade, não fugirei da raia, arriscarei as minhas caneladas. Em primeiro lugar, devo dizer que, atualmente, moro em condomínio no Jardim Botânico, mas já fui tanto asa-nortista quanto asa-sulista.

    O desenho urbanístico de Brasília tem a forma de um avião, no entanto, as suas asas enganam em uma primeira mirada. No papel, elas parecem irmãs siamesas, idênticas e simétricas. Todavia, na verdade, elas têm idades, perfis, fisionomias, ritmos, pulsações e almas inteiramente distintas. É preciso vê-las em uma perspectiva histórica, pois passaram por muitas mutações ao longo de apenas cinco décadas de existência da cidade.

    Meu pai era pernambucano sertanejo e, como todos os povos do deserto, sofria do delírio da água. Por isso, comprou um apartamento na 405 Norte, em ponto estratégico: da janela, era possível avistar a UnB, o espelho d’água do Lago Paranoá e os amplos horizontes da cidade. Bastava dar alguns passos e eu estaria na universidade, argumentava ele.

    Acompanhei na condição de sócio-fundador o nascimento de vários sebos de livros naquela asa. O Sebinho começou com um pequeno acervo em uma quitinete da 406 Norte. Eu disse para a Cida, uma das donas da loja: o Sebinho ainda vai se tornar um shopping center de livros. Todos caíram na gargalhada, como se eu estivesse contando piada hilariante, mas o tempo mostrou que eu estava certo. Como diz Nelson Rodrigues, profeta é o sujeito que descobre o óbvio.

    Os arredores da UnB formavam um agradável circuito para corridas ao fim do dia. Com os grandes espaços ainda vazios, a Asa Norte é transpassada pelo cerrado. É por isso que as corujas buraqueiras se concentram naquele território e pousam em cima das placas com os totens de sinalização da cidade.

    Morei na 206 Sul e uma das vantagens era a vizinhança do Cine Brasília. Bastava atravessar o Eixão. Nos anos 1980 e 1990, quem gostava de cultura, tinha que necessariamente pender para a Asa Sul. Lá, estavam o Centro de Criatividade Renato Russo e o Cine Clube da Cultura Inglesa, comandado por José Damata, com uma programação excelente.

    Com ou sem dinheiro, Renato Russo sempre entrava. No Galpão, vi Renato Russo atuar na peça O último rango, de Jota Pingo, e voar de uma corda na direção do palco, como se fosse um Tarzan magricela do Terceiro Mundo.

    O prolongado fechamento do Espaço Cultural Renato Russo é um golpe contra a alma da W3 Sul. Asa Sul é mais antiga, formal e consolidada. A Asa Norte é mais jovial, irreverente, solar e experimental.

    Na Asa Sul, estão os melhores e mais tradicionais restaurantes. Na Asa Norte, os mais agitados botecos. A Asa Sul vai dormir no horário comercial e impõe a lei do silêncio; a Asa Norte vara a madrugada e, muitas vezes, alcança a alvorada brasiliense.

    Na Asa Sul, permanecem referências fortes: a Superquadra 308, a Igrejinha em forma de chapéu de freira, a festa no céu que Galeno instalou nas paredes do templo, a Banca da Conceição, o sebo Pindorama na 505 Sul e A Comunhão Espírita na L2 Sul. Sempre passo pela Comunhão para fazer uma prece e receber mensagens lúcidas e bons fluídos, pois, como diz o jagunço-filósofo Riobaldo Tatarana, de Guimarães Rosa: “Sem Deus a vida é burra”.

    A Asa Sul é íntima; a Asa Norte é pública. Se alguém escrever algum dia a história do silêncio, precisará falar da Asa Sul. Mesmo o canto dos pássaros está envolto em silêncio naquele pedaço. Nenhum avião voa somente com uma asa.




    (*) Severino Francisco, jornalista, repórter e, colunista do Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google

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