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  • segunda-feira, 19 de junho de 2017

    Para "pescadores de barranco" - (DeckSul)


    Para "pescadores de barranco"


    *Por Jane Godoy

    Cumprindo à risca, há mais de 14 anos, o lema de Gilberto Gil: “Louvando o que bem merece e deixando o que é ruim de lado”, publicamos aqui, cheias de satisfação e orgulho, o que aconteceu no domingo, 27 de maio: a inauguração do Parque Jornalista Cláudio Santana, o Deck Sul.

    Publicamos uma foto aérea do parque, mostrando a beleza que ficou o projeto, possibilitando a todos os brasilienses a oportunidade de ter mais uma área de convívio e lazer. E com a pegada do esporte, da preservação ambiental, do respeito às benfeitorias tão bem planejadas e programadas em respeito aos frequentadores, além da beleza e valorização daquele lugar, às margens do Lago Paranoá, ao lado da Ponte das Garças.
    Visual perfeito, que muito nos alegrou, ainda mais porque, meses antes, escrevemos aqui sobre o quanto os pescadores de fim de tarde e de fim de semana precisavam de usufruir de uma área específica para isso. Comentamos sobre os perigos de animais peçonhentos, crianças pisando na lama, mato muito alto e outros detalhes que nos preocupavam.

    Com a inauguração do parque, da qual fizemos questão de participar, conferir e aplaudir, ficamos muito contentes de ver tudo aquilo tão bem planejado e, até o estacionamento que reivindicamos lá está, de forma  modesta e ainda obrigando os usuários a estacionar à beira do meio-fio, estreitando a pista de acesso ao lago. Acreditamos que, em forma de espinha de peixe, naquela área, a possibilidade de estacionar organizadamente tiraria os carros daquela pista perigosa.

    Só que, observando melhor, vimos que o parque ou o Deck Sul, como preferirem, começa bem distante da área em que os “pescadores de barranco” ficam e, infelizmente, separando-os por cerca de arame liso, privatizando o que está arrumado e discriminando quem está do lado sujo, cheio de mato, buracos, lixo, que eles mesmos recolhem do lago. Para eles, os “pescadores de barranco”, tudo está como antes.

    No novo parque, muito bonito e arrumado, urbanizado, ajardinado, deixaram a parte mais próxima da pista e da ponte, como antes. Carros subindo o meio-fio e estacionados sobre a terra e o capim nativo, homens e crianças  procurando se divertir como podem e exercitando o seu hobby favorito: a pesca.

    Eu estive lá no feriado. Andei por onde andam, com muito cuidado para não pisar em mato ou buracos e depressões traiçoeiras, evitando escorregões que, se facilitarmos, nos levam a cair na água. Vi que, realmente, se esqueceram daquele cantinho, daquela beiradinha tão próxima da ponte, que poderia completar perfeitamente a beleza do que está a poucos metros dali.

    Conversando com eles, que lá estão todas as semanas, vindos do Setor P Norte, de Luziânia, de Valparaiso e de lugares mais distantes, me surpreendi com a sinceridade e simplicidade de todos, ao confessar que preferem “o barranco, nada de deck muito chique, senão, depois, vão nos impedir de virmos com nossa tralha de pesca, nossas varas e iscas preparadas ainda em casa. Somos da natureza  e queremos ficar perto dela. Somos pescadores para alimentar nossas famílias, como sempre fizemos. Não vendemos o que pescamos e soltamos os pequenos peixes (coisa que eu presenciei, quando um carazinho mordeu a isca). Mas concordamos com a senhora é importante para todos nós, mais conforto, banheiros, churrasqueiras onde possamos assar nossa carninha, limpeza do mato que nos cerca, onde encontramos sucuris enormes, jacarés idem” entregam.

    Durante a conversa, uma denúncia seguida de um lamento. Vi canoas indo e vindo, ao longe, sob a Ponte das Garças. Eles me disseram: “Observe, senhora. Aqueles pescadores profissionais lançam tarrafas e redes. Aqui, bem à nossa frente, existem mais de 400, 500 metros de redes, que acabam com os peixes que as famílias podem pescar. Aqui é lugar de pescar com varas, como nós. Eles pegam toneladas de peixes, são pagos para isso e comercializam. Às vezes até oferecem pra gente comprar” desabafaram. “E são autorizados para essa pesca desigual e predatória!” completam.

    Saí de lá impressionada com a história que, mesmo sendo de pescadores, me pareceu verdadeira e sincera, além da grande dose de pureza e espontaneidade.

    Com tristeza, concluí que, como tudo o que vemos atualmente na política brasileira, surpreendentemente, até a simples pesca no Lago Paranoá tem suas “sujeirinhas” por baixo das águas hoje despoluídas do nosso lindo e tão necessário lago.

    Portanto, ainda louvando o que bem merece, segue o nosso famoso recadinho ao governador e à secretaria encarregada da construção daquele e de outros parques.

    Dá um jeitinho naquele lugar onde ficam os “pescadores de barranco”: eles não querem decks ou obras dispendiosas. Se tiverem apenas como apoiar as suas varas de pesca, sem ser equilibrando em pedras, estará bom demais.

    Querem curtir a beleza natural daquele lugar, mas com decência, respeito a eles e a suas famílias. Só isso. Façam um estacionamento para que seus carros não fiquem no meio do mato e da lama; construam churrasqueiras onde possam “assar uma carninha”, com água potável,  pias e banheiros.

    Conversem com eles, como eu fiz. Vão encontrar pais de família, cidadãos trabalhadores, que só querem descarregar suas tensões do dia a dia ali, “fazendo o que mais gostamos: pescando no barranco, admirando o lago, pegando nossos peixes adultos e prontos para alimentar nossas famílias e amigos”.

    Assim, mesmo, do lado de cá da cerca discriminatória, que acho que deverá ser retirada, tudo ficará harmonioso e humano. Completo. Bonito. Digno.

    Assim procedendo, vão tirar de nós a sensação de que alguma coisa ficou por fazer. E vamos mostrar aos turistas estrangeiros e aos nossos hóspedes, com o maior orgulho e garantir que, aqui, os cidadãos são tratados com igualdade e fraternidade, consideração e respeito.

    Pode ser? Obrigada, governador!



    (*) Jane Godoy – Coluna 360 Graus – Correio Braziliense

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